Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Quando No Sleep For Kaname Date – From AI: The Somnium Files foi anunciado, eu fiquei com sentimentos mistos. Fiquei muito feliz de termos um novo jogo da franquia, porém, ao mesmo tempo, o não envolvimento direto de Kotaro Uchikoshi, diretor e escritor da série no título me preocupou.
Eu fiquei ainda mais mexido quando o jogo mencionou as palavras “third eye”, o que me remeteu a um tweet de 2022 do Uchikoshi, logo depois do lançamento de nirvanA Initiative (spoilers no tweet).
O jogo também aparentava misturar elementos de Zero Escape, outra franquia do Uchikoshi, e a sua precificação, 40 dólares, me dava a impressão de que seria apenas um jogo para manter a IP aquecida.
Desde então, decidi colocar minhas expectativas na medida certa e, se o jogo fosse ao menos divertido, ficaria bem satisfeito. Bom, fico feliz em falar que No Sleep For Kaname Date é um bom jogo, mas com alguns pesares.
No Sleep For Kaname Date se passa logo após o primeiro jogo e traz Date de volta ao papel principal, agora tendo que ajudar Iris, que foi abduzida por alienígenas e agora está presa em um Escape Game chamado The Third Eye. Ao mesmo tempo, Date também precisa investigar o aparecimento de um misterioso dispositivo com uma mensagem solicitando para ser psyncronizado com ele.
Já digo logo de cara, que mesmo o game se situando antes de nirvanA Initiative, o ideal é joga-lo após o segundo jogo, já que temos personagens, elementos e features da sequência, portanto, muitas coisas vão acabar ficando jogadas e sem muita explicação e várias referências vão sendo largadas e acabam matando a surpresa desses personagens.
A grande novidade aqui é a adição de Escape Rooms, e elas são muito bem-vindas, além de legais, são extremamente interessantes tematicamente, no entanto, são bem fáceis de modo geral, sem falar que os personagens ficam constantemente tentando lhe dar dicas sobre como resolvê-las. O mesmo pode ser dito para os novos somniums, que faltam aquele “tchã” especial.
As Escape Rooms funcionam exatamente do jeito que são em Zero Escape, dessa vez controlando um personagem em 3D, o jogador tem que investigar as salas, coletar informações e desvendar os puzzles, e até temos a opão de combinar itens. A maneira como eles as conectam com a história e com os somniums é bem feito, tudo se liga tematicamente, meu unico desejo é que eles fossem um pouco mais complexos.
Em relação à parte de Investigação e Somnium não tem muito o que se dizer, é exatamente igual aos dois jogos anteriores, só que com as adições do segundo jogo. Visitando vários dos locais já conhecidos e interagindo com os personagens.
No entando, uma coisa que fiquei decepcionado, apesar de que isso se deve ao escopo reduzido do game, é a falta de múltiplas rotas. Até temos um flowchart, mas ele funciona apenas para cenas engraçadas que liberam um conteúdo bônus posteriormente. O jogo vagamente indica que poderíamos ter isso nas resoluções das Escape Rooms, onde sempre temos três opções para as soluções, mas apenas aquela onde precisamos “abrir o terceiro olho” funciona para avançar a narrativa.
A ausência do Uchikoshi é altamente sentida, seja nas interações entre os personagens e cenários, ou na elaboração dos puzzles e reviravoltas. Há uma tentativa de emular o estilo de escrita dele, e por mais que seja competente em certos momentos, ainda falta muito charme. A minha sensação geral com o jogo é a de que parece mais um teste interno para ver como o Team Zero Escape iria lidar sem a presença do Uchikoshi comandando o barco, e eventualmente criar uma IP própria, já que aqui eles se aproveitam de personagens e de um universo já estabelecido.
Kazuya Yamada é quem assume o roteiro e direção aqui. Tendo trabalhado nos dois jogos anteriores, então ele já estava familiarizado com esse mundo e a maneira de como as coisas funcionam, mas é aquilo, por mais que você tente emular, você nunca será a pessoa verdadeira. De certa forma, isso é algo quase que poético. Uchikoshi até serve como supervisor mas claramente o input dele aqui não é tão forte.
O que o jogo faz muito bem são os momentos catárticos de alguns personagens, na qual não posso mencionar aqui por motivos de spoilers.
Queria destacar a personagem Hina Tsukiyono, interpretada na versão japonesa pela Fairouz Ai. Para mim, ela foi uma das maiores surpresas do game, e espero vê-la novamente na franquia, caso tenhamos um novo jogo. Achei engraçado que a Hina compartilha algumas semelhanças com outra personagem interpretada pela mesma dubladora, a Darumi Amemiya de The Hundred Line -Last Defense Academy-, outro jogo que, coincidentemente, tem relação com Uchikoshi. Hina é a personagem que acompanha o Date nesse jogo e, apesar de curta, a interação entre os dois é bem divertida e interessante.
A reta final do jogo me deixou um pouco mexido, pois me pareceu bem abrupto e algumas coisas não são necessariamente finalizadas em relação a narrativa principal. Sem falar que tudo em relação ao twist é extremamente obvio e previsível, desde o começo e o jogo nem se quer faz questão de tentar enganar ou esconder isso do jogador.
Enquanto eu escrevia esse texto, algumas entrevistas com Yamada e Uchikoshi foram publicadas e em várias delas eles mencionam que No Sleep for Kaname Date era tão completinho e redondinho, e que poderia ser considerado até um jogo principal, e eu não poderia discordar mais disso, o jogo é exatamente o que ele se propõe a ser, um jogo secundário no mesmo universo da franquia e nada mais além disso.
Após o término do jogo, o menu de bônus se torna disponível e contém um conteúdo bem bacana que eu acho que deveria estar presente no jogo base, justamente pela falta de rotas secundárias. Você desbloqueia eles com pontos baseados em olhos, então é um incentivo para repetir as fases e pegar os finais alternativos.
A trilha-sonora continua ótima, sempre admirei como Keisuke Ito consegue ser bem eclético e mudar o estilo conforme os somniums e aqui ele faz isso de novo. O tema principal do jogo ficou na minha cabeça por uns dias e o uso dele em um certo momento me pegou desprevenido.
Por fim, o port de PC é bem simples, ao ponto de ainda ter o mesmo launcher meia boca do original. Eu joguei no Steam Deck e tive 0 problemas de performance, o jogo rodou muito bem. A única parte negativa é que a resolução não é compatível com o aparelho, deixando barras pretas na imagem.
Com as expectativas na medida certa, No Sleep For Kaname Date – From AI: The Somnium Files ainda deixa um pouco a desejar após a sua execução final. O jogo tem excelentes ideias, ótimos momentos de personagens e a inclusão das escape rooms são extremamente bem-vindas, mas a falta de seu criador principal é excepcionalmente notável e faz com que o jogo seja efetivamente apenas uma ocasião de requentar o nome da série.
No Sleep For Kaname Date - From AI: The Somnium Files
Spike Chunsoft
Team Zero Escape, Spike Chunsoft
PC, Nintendo Switch