Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Comemorando os 45 anos da série Pac-Man, a Bandai Namco apresenta Shadow Labyrinth. Reimaginando totalmente um dos maiores clássicos da história dos videogames, o estúdio homenageia o ícone comilão, mais conhecido em terras brasileiras como Come-Come.
Com planos maiores, envolvendo além do jogo o excelente episódio PAC-MAN: Circle, apresentado na série Secret Level da Amazon Prime, a Bandai Namco nos coloca mais uma vez em uma aventura do Pac-Man, mas de um jeito totalmente novo.
Tivemos a oportunidade de jogar antecipadamente Shadow Labyrinth e conto minha experiência com o jogo.
O jogo se inicia durante um conflito no espaço, onde uma criatura mecânica chamada GAIA, entra em combate com uma criatura misteriosa. Após um breve combate, o inimigo dispara um ataque devastador que destrói sua nave.
Após esse breve prólogo, vemos uma criatura humanóide sendo despertada em uma cápsula. Chamado de Espadachim No 8, o protagonista do jogo é guiado por PUCK, o orbe dourado que o despertou, até uma espada nos arredores do local.
Sem dar detalhes, PUCK diz que os dois precisam sair em uma missão, com o objetivo de saírem desse planeta.
Shadow Labyrinth reimagina Pac-Man como um jogo totalmente diferente. Logo de cara notamos isso quando controlamos No. 8, e não PUCK. O orbe dourado nos auxilia na jornada, sendo controlado diretamente apenas em alguns momentos.
Além disso, o novo título da série é um jogo de ação e aventura, com exploração e elementos de plataforma. Informalmente conhecido como metroidvania.
Acho que esse estilo de jogo dispensa apresentações. Como a maioria dos jogos do gênero, você irá explorar um mapa gigantesco com áreas interconectadas, combater inimigos comuns e chefes, descobrir segredos, evoluir seu personagem e adquirir novas habilidades. Nada muito fora desse padrão.
Mas como esse ainda é um jogo do Pac-Man, em determinados momentos você irá explorar as áreas utilizando caminhos de metal, onde PUCK será controlável. E ele se movimenta exatamente como nos jogos clássicos, fazendo inclusive o clássico barulhinho que ele faz nos jogos. Nessas áreas, é preciso avançar pelo caminho, evitar obstáculos e derrotar inimigos para avançar.
Também é possível utilizar o poder de GAIA para devorar os inimigos derrotados, o que concede materiais que podem ser utilizados para fabricar itens em lojas e novas habilidades ao derrotar chefes. No. 8 também pode se transformar na forma de GAIA temporariamente, se tornando invencível aos ataques inimigos e utilizando ataques mais poderosos.
No. 8 pode também equipar habilidades e equipamentos, que dão mais possibilidades de ataques e melhorias. Os equipamentos funcionam de forma parecida com os amuletos de Hollow Knight, permitindo que o jogador faça a combinação que funcione melhor com o seu estilo de jogo.
Shadow Labyrinth segue a tradicional fórmula dos jogos desse estilo, e executa isso bem na maior parte do tempo. Eu gosto da forma que ele permite criar builds, da variedade de inimigos e de como os chefes são bem elaborados e exigem estratégias diferentes.
Conforme progredimos no jogo, vamos adquirindo novas habilidades, equipamentos e recursos que aumentam o leque de possibilidades de se jogar. Podemos optar por usar esquivas, defender ataques com um escudo ou então usar o parry, que oferece um risco maior mas recompensa ao deixar o inimigo atordoado e indefeso por um tempo.
O jogo não é tão desafiador, mas também não é um jogo fácil. Não dá pra simplesmente ficar tentando bater nos chefes sem pensar em como se defender dos ataques deles, ou sem entender como eles agem e pensar em uma estratégia.
A parte de exploração também exige um certo cuidado, pois os pontos de checkpoint e save points não são abundantes, fazendo com que você volte um bom pedaço do caminho caso morra. Além disso, a exploração no jogo envolve resolver quebra-cabeças ocasionalmente, sendo mais um desafio a ser vencido.
Shadow Labyrinth também incentiva a experimentação. O jogo não fica o tempo inteiro te guiando sobre o que fazer. Em alguns casos, experimentando habilidades e estratégias, você descobre que um inimigo tem um ponto fraco.
Por exemplo, um dos chefes pode ter sua principal arma inutilizada por um tempo se você utilizar parry. Outro chefe é especialmente fraco contra uma habilidade específica de No. 8 e fica um bom tempo vulnerável quando você o ataca com essa habilidade.
No geral tudo isso funciona muito bem, exceto em alguns momentos que tive dificuldade de entender o hit box de alguns inimigos. Isso talvez tenha a ver com o estilo de arte e animação do jogo, que para ser sincero eu não gosto muito. Em determinados momentos eu achei menos arriscado utilizar parry do que a esquiva, o que pode soar estranho.
Principalmente em casos onde eu queria usar a esquiva para chegar até a retaguarda do inimigo, eu acabava perdendo um pouco a noção da distância que eu devia utilizar a esquiva. As vezes eu esquivava cedo demais, caindo bem em cima do inimigo e tomando dano, e as vezes tarde demais, encostando no inimigo.
Mas fora esses breves momentos, o jogo funcionou muito bem comigo e é divertido. Talvez eu tivesse gostado mais dele se não fosse pela opção de direção de arte, mas me acostumando com isso eu ainda gostei da forma que a Bandai Namco reimagina Pac-Man, em uma forma totalmente diferente.
Além da jogabilidade, a história e a direção de arte de Shadow Labyrinth segue em uma linha totalmente diferente dos jogos clássicos, o que é interessante.
O jogo faz parte do universo compartilhado UGSF, que a Bandai Namco lançou em 2011. Isso quer dizer que Shadow Labyrinth compartilha o mesmo universo com jogos como Ace Combat 3, Galaga, Galaxian e muitos outros. Você pode conferir mais da linha do tempo no site oficial clicando aqui.
Sem entrar em spoilers, o jogo referencia outros jogos que fazem parte da linha do tempo da UGSF, com eventos e locais interligados com esses títulos. Shadow Labyrinth funciona bem mesmo que você não conheça bem as referências dos outros jogos, como eu.
Alguns dos títulos que fazem parte do universo são bastante antigos e muitas pessoas certamente não jogaram. Fazem parte da linha do tempo compartilhada jogos que foram lançados nos anos 80, por exemplo.
Mas é interessante que a Bandai Namco esteja construindo um universo compartilhado dessa forma. Talvez isso sinalize que alguns dos jogos que fazem parte desse cânone possam receber novos títulos.
Mas falando especificamente de Shadow Labyrinth, a história segue a missão de No. 8 e PUCK tentando escapar deste planeta. Porém, eventualmente vamos descobrindo novas informações que mostram uma situação um pouco mais complexa.
Isso envolve conflitos intergalácticos, uma figura feminina que por alguma razão quer impedir a todo custo que PUCK e No.8 cumpram seu objetivo e os próprios conflitos que ocorrem nesse planeta.
Além disso, o jogo possui um tom mais sombrio em suas escolhas artísticas. Um pouco disso foi mostrado na série Secret Level, onde vemos um PUCK mais macabro, consumindo inimigos para se tornar mais forte.
O jogo segue em uma linha de ficção científica com uma pegada de terror, flertando com body horror em diversos momentos. Apesar de ainda não gostar da execução da direção de arte em si, o conceito de transformar um jogo que sempre foi notavelmente family friendly, e até mesmo infantil, em algo mais macabro, é um atitude ousada que eu admiro.
Acredito que ideias muito interessantes podem surgir desse tipo de reimaginação e isso é algo que eu gostaria de ver mais vezes. O próprio episódio da Secret Level é um exemplo. Mesmo conhecendo Pac-Man desde os anos 90, eu fiquei extremamente curioso e bastante surpreso com o que foi apresentado. Apesar do personagem já ser muito conhecido, essa reimaginação deu um ar de novidade para ele.
Para fãs antigos da série, Shadow Labyrinth apresenta uma experiência totalmente nova e um outro olhar sobre a série clássica. Mas ele não se afasta totalmente da proposta original. Se olhar com atenção, ainda temos um labirinto, só que muito maior. Nosso objetivo ainda é consumir os monstros antes que eles nos consumam, ainda existem escolhas de caminho a seguir, com mais ou menos inimigos, etc.
O que pra mim foi uma experiência bastante interessante. Fiquei pensando que eu jamais imaginaria os rumos que Pac-Man está seguindo, quando eu era uma criança jogando. E eu gosto de ter essas surpresas.
Shadow Labyrinth mostra que é possível aproveitar franquias clássicas mas ao mesmo tempo criar algo novo. Ao invés de jogar seguro em um remaster de um título, a Bandai Namco assume riscos ao reimaginar totalmente um dos títulos mais clássicos dos jogos.
Por mais que o jogo não acerte totalmente, ainda é digno de admiração que um estúdio opte por correr esse risco. Ainda há espaço para criatividade e para experimentação, ao mesmo tempo que a proposta central do jogo não seja totalmente abandonada.
Mesmo com uma escolha artística que pra mim ainda é questionável, Shadow Labyrinth é divertido e pode ser um bom exemplo para outros estúdios que buscam formas de trazer de volta séries clássicas, mas sem se apoiar de forma confortável e sem riscos em um remaster.
Shadow Labyrinth
Bandai Namco Entertainment
Bandai Namco Studios
PC