Crítica: Hell is Us – quem são os verdadeiros monstros?

Por Arthur Tayt-Sohn

Nota: 7.5

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Se a guerra é o mais perto de termos o inferno na Terra é porque ela abriga o pior dos demônios: o homem. Hell is Us se apresenta ao jogador já deixando explícito o seu tema principal: a capacidade do ser humano em produzir violência.

Desenvolvido pela Rogue Factor, Hell is Us me chamou atenção quando foi apresentado pela sua ambientação que mescla fantasia e ficção científica, incluindo a presença de criaturas bizarras, mas prometendo discutir questões bastante realistas com nosso mundo.

Tivemos oportunidade de jogar antecipadamente o jogo e conto agora como foi a experiência de visitar esse país que durante sua história conviveu muito pouco com a paz.

Hadea – um país marcado pela guerra

O jogo é ambientado em Hadea, um país fictício localizado no Leste Europeu, e que durante quase toda a sua história esteve envolvido em conflitos internos ou guerras civis. Esse país é extremamente fechado ao mundo externo, tornando a entrada ou saída dele praticamente impossível.

O protagonista Remi é um hadeano que ainda criança foi “contrabandeado” para fora do país pela sua mãe. Suas únicas lembranças são que seu pai era um ferreiro em um vilarejo chamado Jova e as últimas palavras da sua mãe: não volte nunca mais.

Hell is Us - Fazenda

Agora adulto, Remi consegue retornar para Hadea em busca de respostas e de sua família. Sua missão se torna mais complicada ao se deparar com o país em mais uma sangrenta guerra civil e, para piorar, sofrendo uma misteriosa calamidade que trouxe para Hadea misteriosas criaturas de aspecto bizarro e origem sobrenatural.

Se defendendo “à moda antiga”

Em Hell is Us, apesar de sua ambientação moderna, armas de fogo são inúteis na jornada de Remi. Enquanto a guerra civil está ocorrendo, a maior preocupação do protagonista são as estranhas criaturas que surgiram em Hadea, imunes às armas comuns.

Iremos utilizar as armas límbicas, equipamentos de um passado quase totalmente esquecido do país. As armas são espadas curtas, espadas longas, lanças e machados. Além das categorias, elas podem adquirir propriedades e aparências diferentes de acordo com os glifos atribuídos a elas.

Esses glifos representam quatro tipos de emoções humanas: ira, terror, luto e êxtase. Dependendo do glifo utilizado, as armas podem usar habilidades diferentes, que podem causar dano ou status negativos aos inimigos.

Também é possível utilizar equipamentos defensivos que, além de fornecer bônus de defesa ou energia, garantem alguns status positivos. Por fim, também há uma série de itens consumíveis que restauram vida, energia ou diminuem o dano causado por determinados tipos de inimigos.

Hell is Us - Habilidade de fogo

O combate é bastante simples, seguindo bem a risca a fórmula já estabelecida por jogos de ação do gênero. Durante as primeiras apresentações dele, o jogo deixou a impressão de ser um soulslike. Apesar disso, ele é muito menos punitivo que um jogo do gênero.

Na verdade, eu senti que ele segue para um lado mais hack n’ slash. O jogo oferece alguns recursos que beneficiam jogadores mais agressivos, como formas de se curar ao atacar inimigos de forma ininterrupta, o que é o oposto de jogos com ritmo mais cadenciado.

Jogando no modo normal, eu achei o jogo bem pouco desafiador. A experiência pode variar de jogador para jogador, então Hell is Us conta com um modo de seleção de dificuldade. Mas como a dificuldade “normal” é a padrão do jogo, irei falar da minha experiência jogando nesse modo de dificuldade.

Apesar da variedade de habilidades disponíveis, me senti pouco incentivado a experimentar muitas delas. Na maior parte do tempo eu utilizei uma espada longa, que sinceramente achei ágil demais para o tipo de equipamento que ela é, combinada com glifos de ira. Usei basicamente uma habilidade em área que causa um dano massivo e posteriormente uma habilidade neutra que ataca a distância.

Senti falta de o jogo incentivar a experimentação e também em como ele foi se tornando gradativamente bem mais fácil conforme eu avançava. Devido à pouca variedade de inimigos, chegou um determinado momento que o desafio era praticamente nenhum.

Hell is Us - Túnel

Somente no trechinho final do jogo que surgem alguns novos inimigos, mas que também não ofereceram muito desafio nem me fizeram mudar minha estratégia.

O combate com os chefes também me frustrou bastante, sendo lutas totalmente esquecíveis. Na verdade, os combates acabaram se tornando obstáculos para a exploração, que foi algo que acabou me engajando muito mais. 

O que é uma pena, porque eu gostei bastante do conceito dos inimigos, que são criaturas humanoides bem bizarras e sem rosto, chamadas de Hollow Walkers. Essas criaturas por vezes estão unidas à representações físicas das emoções humanos, as Hazes.

A exploração do jogo foi a parte que mais me agradou em sua jogabilidade. Quando Hell is Us foi anunciado, fiquei especialmente empolgado quando os desenvolvedores revelaram que o jogo não teria mapas ou marcadores de direção. Eu particularmente gosto da sensação de explorar e me perder um pouco, quando isso é feito de forma consciente.

E o jogo não chega a ser frustrante nesse ponto. Ele não é um jogo de mundo totalmente aberto, sendo dividido em áreas. Mas ele permite facilmente retornar ao ponto inicial da exploração, seu veículo APC que adquirimos no início do jogo, a avançar para a próxima área.

Porém, o jogador precisa estar atento ao ambiente e aos diálogos com os outros personagens. A sua missão principal vai estar organizada em um mapa mental no seu datapad, o menu do jogo, mas todas as indicações sobre para onde ir são visuais ou verbais.

Hell is Us - Trancas Límbicas

As missões secundárias e mistérios não aparecem nos menus. Você precisa prestar atenção aos diálogos com os personagens para entender que eles precisam de algum tipo de ajuda. Por exemplo, você irá encontrar um personagem que está preocupado com um familiar desaparecido, mas ele não pede diretamente que você vá procurar essa pessoa.

A exploração do jogo também conta com uma série de enigmas e quebra-cabeças que eu gostei bastante. Tirando algumas poucas exceções, todos os mistérios do jogo envolvem dedução, raciocínio lógico ou memorização, que você pode solucionar com a ajuda dos seus companheiros papel e caneta.

Esse tipo de abordagem deve agradar os jogadores que estão se sentindo frustrados com jogos que conduzem muito o jogador. O jogo oferece apenas o essencial para que você não fique totalmente perdido, mas também não chega a frustrar o jogador de forma que ele não consiga avançar na história principal.

Hell is Us - Mural 2

Por outro lado, diversas missões secundárias e mistérios podem falhar se você demorar muito para resolver e o jogo não deixa indícios claros sobre isso. O que acaba fazendo parte da experiência de nem sempre ser possível ajudar a todos.

Mas nada que você deixe de fazer é crucial para avançar no jogo. Você talvez perca alguma recompensa ou não veja a resolução de algum arco narrativo de algum personagem secundário, mas nada que de fato estrague a experiência.

De qualquer forma, recomendo explorar o máximo possível, porque algumas informações interessantes da lore do jogo estão justamente em missões secundárias e mistérios que podem passar batido.

O eterno ciclo de violência

Em Hell is Us, o tema principal discutido é a violência. Conforme dito pelos desenvolvedores, a escolha da ambientação do jogo na década de 90 foi bastante consciente, por se tratar de um período onde violentos conflitos ocorreram, como por exemplo na Iugoslávia, Serra Leoa e Ruanda. Mas diversos acontecimentos no jogo são, infelizmente, ainda muito atuais.

O principal conflito de Hadea ocorre entre sabinianos e palomistas, grupos que interpretam de formas diferentes a fé no mesmo deus. Durante toda a história de Hadea, esses dois grupos entraram em conflito, resultando na perseguição de um ou outro.

A situação piora com o aparecimento dos Hollow Walkers, criaturas humanoides com comportamento imprevisível. Enquanto Remi se surpreende com o aparecimento delas, os habitantes de Hadea parecem ter conhecimento sobre elas, sendo parte de suas tradições religiosas.

Hell is Us - Walkers

Consideradas por uns como demônios resultado dos pecados dos humanos e por outros aliados do grupo “rival”, os walkers matam de forma indiscriminada palomistas e sabinianos.

E apesar da ambientação fantasiosa, com um toque de ficção científica, o jogo fala mais sobre as pessoas do que os monstros em si. E isso é até bastante comum nesses gêneros.

Hell is Us discute sobre como o ódio e a violência se retroalimentam. Durante um período somos apresentados às vítimas de um dos grupos e posteriormente essa lógica se inverte. O jogo não toma partido, inclusive nem é possível interagir de modo violento com qualquer um dos grupos, apenas observar o desenrolar do conflito.

Eu particularmente sou um pouco crítico desse tipo de abordagem, onde tenta-se manter uma certa neutralidade com o argumento de “os dois lados são iguais”, mas o jogo tenta fazer algo diferente trazendo outros elementos para a narrativa.

Os desenvolvedores não ignoram o uso político de conflitos étnicos e religiosos por agentes externos, o que é uma crítica bastante pertinente. Em diversos momentos o jogo tece comentários sobre o papel da imprensa em desumanizar um ou outro grupo, bem como na incapacidade de forças de paz internacionais evitarem conflitos e também no próprio interesse político e econômico em criar conflitos.

E apesar de não citar nominalmente conflitos e países reais, o jogo retrata eventos baseados em casos reais. Queimas de livros, genocídios e limpezas étnicas, perseguições religiosas, deslocamentos de populações para serem substituídas por colonos, etc. Pessoas comuns que são transformadas pelo discurso de ódio e extremismo e são levadas a cometer os atos mais bárbaros possíveis.

Hell is Us - Jaffer

Ao mesmo tempo, Hell is Us apresenta uma longa linha do tempo da origem dos conflitos. Hadea é um país bastante rico culturalmente, com inúmeras ruínas e monumentos antigos, muitos deles com pouquíssimas informações até que vamos descobrindo mais sobre eles. E é muito interessante o trabalho que o jogo fez de construir a História de Hadea, chegando a desenvolver uma mitologia própria sobre a origem do país, seus principais personagens, etc.

Hell is Us utiliza da ficção e da fantasia para discutir temas atuais da nossa realidade. Por mais que ele trace uma longa linha do tempo de conflitos entre dois grupos distintos, o jogo faz comentários sociais bastante pertinentes sobre como conflitos também são de responsabilidade de agentes externos.

E não é preciso citar nominalmente cada um deles, pois é bastante perceptível quais momentos históricos, passados e atuais, o jogo busca retratar. Eu fico até curioso sobre os discursos que podem vir a ocorrer entre os jogadores, visto que é possível notar similaridades com conflitos que ainda estão acontecendo.

Todos esses elementos narrativos da história e da construção do mundo acabaram superando diversos momentos anti-climáticos da jornada de Remi. A história pessoal dele acaba deixando a desejar, não sendo exatamente bem desenvolvida. Isso só não se tornou um problema maior para mim porque eu estava mais engajado com a história de Hadea.

Hell is Us - Mural

O jogo deixa também algumas pontas soltas e não explica tudo sobre o país e sobre os eventos históricos que antecederam o jogo, o que torço para que seja explorado no futuro em uma sequência, porque tem bastante coisa muito interessante.

Entre a realidade e o sobrenatural

Outro ponto que me chamou atenção quando o jogo foi revelado, foi sua direção de arte. Naturalmente que os humanoides bizarros chamaram atenção logo de cara, mas conforme fui jogando fui apreciando também os cenários criados.

Hell is Us - Castelo

Hell is Us conta com uma série de cenários muito bem feitos, bem como da mistura de elementos realistas com outros mais surreais. Grandes monumentos que lembram antigas construções da Europa medieval se misturam com representações surreais de divindades antigas e humanoides, criando um ar de mistério muito interessante.

A exploração é uma parte fundamental do jogo e por isso é importante que os cenários sejam prazerosos de se explorar. Eu gosto de observar os detalhes de cada cenário que visito nos jogos, pois acredito que eles ajudam a contar a história. Em Hell is Us, é possível ver parte da história sendo contada em pinturas na parede, inscrições antigas, estátuas, etc.

E nem todos esses elementos de alguma forma te levam a alguma recompensa ou a avançar na história. Estão ali apenas para contextualizar eventos e locais, ou para fornecer alguma informação a mais sobre o mundo do jogo, ou seja, enriquecer a obra.

É possível encerrar o ciclo de violência?

Hell is Us reflete sobre a violência e como o seu uso político desperta o pior nas pessoas. Por mais que existam diferenças entre essas pessoas, por vezes essas diferenças são radicalizadas por interesses políticos e econômicos.

Hell is Us - Êxtase

E apesar de o jogo estar recheado de criaturas bizarras que tentam nos matar o tempo inteiro, diversas vezes ele nos questiona: quem são os verdadeiros monstros? O que nos leva a fazer coisas que talvez nem imaginávamos sermos capazes de fazer? 

Mesmo tendo me frustrado com um combate não tão bom e com a forma que o jogo conduz a história do protagonista em alguns momentos, acho que ele ainda deixa reflexões infelizmente bastante atuais.

Nome do jogo:

Hell is Us

Publisher:

Nacon

Desenvolvedora:

Rogue Factor

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 5, Xbox Series S|X

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