Crítica: Trails in the Sky 1st Chapter – Tempos mais simples

Por Pedro Ladino

Nota: 9.5

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Não vou mentir que, quando Trails in the Sky 1st Chapter foi anunciado, tive sentimentos mistos. Trails se encontra em sua reta final e usar recursos para um remake em vez de continuar a série a essa altura do campeonato foi algo que não descia inicialmente. Para mim, um simples port da trilogia original para os consoles atuais já seria o suficiente, afinal, diferentemente de uma parte do público, eu não acho esses jogos datados, ou que possuem um combate complicado, eles são perfeitos do jeito que se encontram atualmente no PC.

Ao mesmo tempo, assim como a Nihon Falcom certamente percebeu, um remake do primeiro jogo da série seria a melhor tentativa de conceber uma boa porta de entrada para essa longa franquia, após múltiplas tentativas de engatar um recomeço, com Trails of Cold Steel III e Trails through Daybreak, que requerem bastante informação de jogos anteriores.

Isso, combinado com Sky 1st sendo o primeiro lançamento simultâneo da série, incluindo um port para PC feito internamente, é a melhor tentativa dessa série enfim engatar.

Após jogar a demo, eu comecei a ficar mais calmo em relação à existência do remake, mesmo durante todo seu tempo de marketing ainda tinha aquela pulga atrás da orelha se iriam mudar algo, não apenas em relação à história, mas sim sobre o sentimento de estar jogando Trails in the Sky.

Um retorno a tempos mais simples

Trails in the Sky 1st Chapter segue a história de Estelle e Joshua Bright, que partem numa jornada pelo Reino de Liberl para se tornarem Bracers, ao mesmo tempo que investigam o desaparecimento de seu pai após a abdução de uma aeronave.

Na perspectiva de um veterano, voltar para Trails in the Sky é um grande whiplash quando comparado à loucura em que a franquia se encontra atualmente. Uma das grandes virtudes do jogo é o quão slow burn ele é, seja na apresentação de seu mundo, quanto nas introduções de suas características, personagens e lore. Ele vai te tomar o tempo que for para apresentar tudo, sem precisar correr.

É o começo de uma franquia inteira, daquela construção de mundo pela qual a série é conhecida até hoje. É aqui que se inicia a rotina de rondas de NPCs, onde eles atualizam a cada vez que você progride na história, ajudando aquele mundo a se tornar vivo, as de sidequests aparecendo do nada, fazendo com que você desvie da campanha, mas que aquela sensação de dever cumprido, como um bracer.

Todos os elementos que fazem Trails ser Trails, sejam eles bons ou ruins, começam aqui em Sky.

 

Eu lembro quando comecei a jogar essa série em meados de 2018, o jogo demorou para clicar comigo no começo, ainda mais por não saber o que estava esperando. Mas foi no capítulo 1, na cena do pôr do sol em Valleria Shore, que o jogo me ganhou. Quando essa mesma cena ocorre no remake, eu tive a confirmação de que eu estava de fato jogando Trails in the Sky novamente e que a Falcom fez algo muito especial aqui. 1st Chapter mantém todo o espírito do jogo original e o atualiza de forma primorosa.

Eu não acho que seja um substituto para o jogo de 2004, que ainda tem seu charme e envelheceu bem com o tempo, mas certamente esse remake é o ideal para novos fãs.

A melhor coisa até agora do remake foi ter visto pessoas ao meu redor que já se interessavam pela série e que estão dando oportunidade para ela. Trails é uma série bem nichada, e mesmo entre os fãs de JRPG é algo bem difícil de se adentrar, então a existência de uma ótima demo, que contém todo o prólogo e já dá um gostinho do combate, foi um grande acerto.

Isso combinado com a nova engine da Falcom, a FDK, utilizada desde o primeiro Daybreak, ajuda também essas pessoas a superar a barreira de gráficos “defasados”.

Mesmo que você discorde de como o marketing foi feito, a Falcom tomou todas as medidas certas com esse jogo pré-lançamento. Se vai dar certo ou não, não tem como saber. A única coisa que sabemos é que o jogo é um dos mais vendidos na loja do Switch 2 japonesa e seu lançamento no PC é o melhor da série, tanto na versão global, quanto na versão asiática.

Familiar porém moderno

Não tem como negar que jogar Trails in the Sky 1st Chapter é basicamente como jogar o original, mas agora com uma nova roupagem. Não há invenções, não há mudanças drásticas na narrativa, é simplesmente o mesmo jogo, mas nos padrões modernos da empresa. Gráficos atualizados com a nova engine, um combate híbrido e lotado de qualidades de vida. 

A grande mudança em questão de história é a introdução de seis novas sidequests. Elas são bem simples, e está tudo bem. Não precisa ser algo exagerado apenas por ser. Uma outra preocupação que eu tinha é sobre retcons, algo que acontece relativamente nesta série. Tem um aqui, baseado em uma informação que apenas descobrimos no jogo mais recente, Trails beyond the Horizon, mas em vez de ser algo expositivo para chamar atenção, decidiram por manter low profile, é só visual e quem vai notar são apenas as pessoas que já conhecem a série.

O combate segue a fórmula dos mais recentes, com o sistema híbrido introduzido em Daybreak, que mistura ação e combate em turnos. Aqui nós temos uma versão mais simples do sistema de batalha, sem as partes tecnológicas do arco de Calvard. Mas não só do arco atual o combate puxa inspiração, temos aqui uma variante do sistema de links de Cold Steel, mas sem os links de fato. A Falcom conseguiu incluir ambos os sistemas de uma maneira em que o lore não é quebrado.

Quando surgiu em Daybreak, o combate híbrido foi algo refrescante para a franquia pelo quão fluído ele funciona ao combinar os dois estilos. Fazer Sky 1st tê-lo é uma ótima escolha para também atrair aqueles que não gostam de combate em turnos. Poder movimentar livremente mesmo em turnos já ajuda a remediar isso.

Minha grande preocupação em relação ao combate é se iriam trazer de volta o sistema de quartz do original, onde você precisa somar os elementos para poder liberar novas artes, e estou bem feliz que trouxeram, é uma das coisas que eu mais gostava de fazer e fiquei triste quando Cold Steel removeu em prol de um sistema mais simples e limitado.

O balanceamento é muito bem feito, não faço ideia de como eles acertaram nisso após errar constantemente ao longo de todo arco de Erebonia e Calvard. Talvez pelo sistema ser simples, eles conseguiram focar bem nesse aspecto. Claro que pela reta final você já está bem forte, mas não tem aquele sentimento de um crescimento drástico, dá para sentir que a curva de crescimento de seus personagens.

Renovação

Outra coisa que me corroeu a cabeça durante todos esses meses foi o fato do elenco japonês, com exceção de quatro personagens, ter sido totalmente substituído, incluindo personagens com vozes icônicas. Aos poucos, eu fui me acostumando com as novas vozes, em alguns momentos elas soavam muito igual aos originais.

Eu acho que Estelle e Joshua estão muito bem no papel, especialmente nas cenas mais emocionantes. A mais estranha para mim é a nova voz da Schera, ela não combina com a personagem e, como não tem tanto tempo de tela, nunca dá para se acostumar com ela, algo que deve mudar no próximo jogo. A nova voz da Kloe faz um bom trabalho, mas o tom de voz dela lembra outra atriz que tem um papel na franquia, então é um sentimento muito estranho quando ela fala. Os novos Agate e Tita são bons, esse não é o jogo em que eles vão brilhar, mas fico bem indiferente quanto a eles.

Talvez minha grande reclamação com esse remake seja que a transição para o 3D da exploração não ficou boa. As áreas ficaram enormes, e mesmo que dê para remediar com turbo mode e viagem rápida posteriormente, ainda fica um pouco cansativo andar pelo mundo. Pensando em como SC é, eu tenho medo de como um certo capítulo daquele jogo será traduzido em um remake.

Em relação à nova localização, ela é bastante competente em vários aspectos. Admito que fiquei preocupado quando falaram que iriam refazê-la, mas o resultado final é bom. Não é tudo perfeito, claro, o texto é um pouco cru em alguns momentos e há alguns erros de terminologia que são bem gritantes, ainda mais em uma série como Trails. Vejamos se teremos algum patch nos próximos dias, visto que a Gungho ouviu feedbacks da demo e ajustou algumas coisas no jogo final.

Nem o maior fã da Falcom imaginaria que, após 17 anos sem desenvolver internamente um port para PC, a empresa conseguiria entregar uma versão não apenas competente, mas que compete com as de várias empresas maiores. Claro que, se comparado aos ports da PH3, responsáveis pelos jogos da Falcom publicados pela NIS America, ele tem algumas features ausentes, mas é bem perceptível que a Falcom olhou para o trabalho já feito e pegou algumas dicas.

Eu joguei no Steam Deck e o jogo funcionou perfeitamente. Enquanto eu jogava na tomada, eu conseguia deixar o jogo permanentemente em 60FPS no low sem perder drasticamente a qualidade.

Trails in the Sky 1st Chapter é especial. Dar uma nova vida a um jogo, sem perder sua essência e característica originais, é algo raro nessa indústria. Acompanhar e reviver as aventuras de Estelle e Joshua pelo Reino de Liberl é reconfortante, assim como o jogo original. Uma das melhores franquias dos videogames agora está acessível para um novo público com uma verdadeira porta de entrada.

 
 

 

 

Nome do jogo:

Trails in the Sky 1st Chapter

Publisher:

GungHo Online Entertainment America

Desenvolvedora:

Nihon Falcom

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 5, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2

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