Crítica: Silent Hill f – dei nota 10 porque não sou covarde

Por Jean Kei

Nota: 10

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Silent Hill f  é o mais recente jogo da franquia de survival horror da Konami. O título chamou atenção logo de cara pelo envolvimento de Ryukishi07, conhecido por Higurashi When They CryUmineko When They Cry na escrita, 

O jogo conta a história de Shimizu Hinako, uma jovem que vive num vilarejo do interior do Japão na década de 60. Após uma briga com o pai, Hinako sai de casa e vai conversar com amigos, para muito rapidamente o vilarejo ser tomado por uma neblina bizarra, junto de flores que logo se demonstram mortais junto de monstros, assim dando início a uma aventura de horror psicológico.

Sillent Hill f é um jogo que tem vendido muito bem, contudo, olhando discussões sobre o jogo, percebi que ele está tendo uma recepção divisiva.

Dar uma nota para Silent Hill f foi um processo complicado. Ao mesmo tempo que adorei o jogo e quanto mais penso nele, mais ele cresce, Sillent Hill f possui estruturas e mecânicas que ficam cansativas, e a cada rejogada suas falhas ficam mais aparentes. Paradoxalmente, parte dessas falhas também são parte do que amo no jogo. Não sou do papinho de “o combate de Sillent Hill sempre foi ruim propositalmente”, mas no caso de f, mesmo falho, o combate e a estrutura de múltiplas jogatinas não estão lá apenas por estar e fazem parte intrínseca do jogo. Inclusive, diria que o jogo é até “bonzinho” por te fazer jogar três vezes para ver o final verdadeiro, porque sinto que a visão enrijecida do jogo, o final verdadeiro seria numa quarta jogada (que bom que não foi).

Mas o que tem de ruim na estrutura e no combate?

O jogo tem duas questões em sua estrutura narrativa que podem afastar: mais da metade da história está em documentos ao invés de cutscenes e o jogo não responde tudo na primeira jogatina. Como disse no primeiro parágrafo, você precisa terminar no mínimo três vezes para ver o final verdadeiro e ter a conclusão completa. Cada nova jogatina possui documentos novos, algumas cenas diferentes e outras mudanças com variados níveis de sutileza. Muita gente vai terminar o jogo pela primeira vez cansada (especialmente porque o fim do jogo é cansativo mesmo) e se ver indisposta a rejogar.

Caso não queira jogar várias vezes, prefira assistir a alguma playthrough do new game+ que mostre os documentos e cenas diferentes, e não apenas literalmente os finais diferentes, já que muito do impacto que os finais têm vem do que se é construído até lá, e não apenas neles em si. Pessoalmente, comecei incomodado e quase não joguei a terceira vez, mas a experiência que tive com o caminho para o final verdadeiro foi tão boa que a canseira deixou de incomodar.

Essa estrutura se mostra mais cansativa devido ao combate, especialmente nas horas finais.

O combate do jogo é truncado, com pouco impacto e os inimigos são chatos de se lidar. Em boa parte do jogo, essa questão do combate é super tolerável, pois te incentiva a evitar confrontos e escolher bem quando bater de frente e quando fugir. O jogo fica progressivamente com mais ação, e narrativamente faz sentido com algumas das temáticas do jogo. Em dado momento, que há mecânicas novas, o jogo fala sobre perda de identidade, e isso se reflete na abordagem do combate de certa forma.

O problema é que no terço final o jogo te joga diversas situações, lhe obrigando a enfrentar vários inimigos de uma vez, não é desafiador, é chato, muito. Não fossem as lutas obrigatórias no terço final do jogo. Recomeçar o jogo me cansava por antecipação, lembrando daquelas lutas. Dito isso, não me incomodo com as lutas contra os chefes do jogo, achei que funcionaram bem.

Mas esses problemas são menores do que todo o resto que amei

Entendo quem desgosta desse jogo, mas pessoalmente adorei com força. A ambientação está excelente, explorar o vilarejo de Ebisugaoka é tenso e fascinante, adoro a estrutura do local. Teve momentos em que me senti bem impactado com tensão e horror do jogo devido à direção incrível em diversos pontos. A trilha do jogo é ótima também.

E claro, o que me cativou principalmente foi a narrativa do jogo. Silent Hill f é bem claro em sua temática, abordando não apenas como ser uma mulher naquele contexto afeta Hinako, mas sobre ela em si. É um jogo sobre expectativas, identidade, tradições, estruturas enraizadas e conflitos geracionais. Geralmente, não gosto de jogos em que sua história depende mais de documento do que de cenas no jogo em si, mas aqui funciona. Nas 3 jogadas, me envolvi e me impactei com o que ia descobrindo sobre a vila, suas crenças e seus habitantes. Acho incrível que Sakuko, a personagem que efetivamente tem menos tempo de tela do jogo, se tornou minha queridinha no fim das contas.

A maioria dos textos é curta, eles são muito bem escritos e aparecem num ritmo legal. É incrível como todos os personagens apresentados têm complexidade. Jogar várias vezes até engrandece algumas cenas que nem são novas, mas revistá-las com mais contexto gera novos significados. Há personagens que, ao longo de jogatinas, fui mudando minha percepção sobre. Sem entrar em detalhes, mas por duas jogatinas, eu fiquei tão imerso na percepção da Hinako em relação a um personagem, que, em uma cena que acrescenta mais uma camada de nuance e afeta um tanto a percepção dela perto do final verdadeiro, me vi chorando um pouquinho junto com a personagem.

Beleza no horror

Uma das primeiras coisas ditas sobre o jogo antes de seu lançamento foi sobre a dualidade entre o terror e o belo. Isso é bastante presente na estética do jogo, envolvendo flores, e sinto que isso se aplica também à narrativa. Silent Hill f é um jogo pesado, fala de traumas, abusos e contém cenas viscerais. E quando terminei o jogo, senti que presenciei uma conclusão de história genuinamente muito bonita.

O jogo tem problemas claros, é divisivo, e é especial

Silent Hill f definitivamente não será uma experiência positiva para todos, mas tem muito o que se falar dele por muito tempo.

No Game Lodge usamos sistema de notas, e se fosse fazer uma análise fria, olhando esse jogo como um produto tentando quantificar sua qualidade, provavelmente ele teria uma nota mediana. Mas não sou covarde para falar desse jogo sem expor minha experiência pessoal com ele, que foi uma das mais impactantes do ano. Quanto mais penso nesse jogo, mais suas qualidades são enaltecidas e seus defeitos ofuscados em minha mente, me envolvi e até me identifiquei em coisas específicas do jogo.

Silent Hill f está longe de ser perfeito, mas para mim, o que ele entrega é mais valioso do que um produto polido e perfeitinho.

Nome do jogo:

Silent Hill f

Publisher:

Konami

Desenvolvedora:

Neobards

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 5, Xbox Series S|X

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