Crítica: Digimon Story: Time Stranger – Uma DigiAventura boa e viciante, mas com deslizes

Por Leonardo Costa

Nota: 9.5

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Digimon Story: Time Stranger é o mais novo jogo da franquia Digimon, desenvolvido pela Media.Vision e publicado pela Bandai Namco. Essa nova entrada para a franquia era muito aguardada pelos fãs, depois dos maravilhosos Digimon Story Cyber Sleuth e Hacker’s Memory, e demorou bastante tempo para sair, algo em torno de 7 a 8 anos para ser lançado, pelas informações que se têm disponíveis.

Já foi dito em entrevistas que o jogo foi pensado inicialmente para o PS4 (e então passado para o PS5) e isso aumentou o escopo do jogo, já que o Cyber Sleuth usava o PS Vita como base, fazendo com que a equipe tivesse que refazer muita coisa para cá, como as animações e modelagens dos Digimon. A equipe de desenvolvimento também quis garantir que a ideia central que eles queriam para o jogo, que é “o laço entre os humanos e Digimon”, fosse passada corretamente e de forma aprofundada. Eles também tiveram o cuidado e o trabalho de representar os 12 do Olimpo no jogo. Esses são alguns fatores que ajudam a explicar a demora em lançar o jogo.

No meio desse processo, mais especificamente em 2023, a gente teve o ex-produtor do jogo, Kazumasa Habu, saindo do cargo. Quem assumiu em seu lugar e deu prosseguimento ao desenvolvimento foi Ryosuke Hara.

Digimon Story Time Stranger - Traje Digimon Adventure

Habu estava em cargo de produtor dos jogos Digimon há mais de 10 anos, então ele esteve na frente de jogos como Digimon Re: Digitize, Digimon Cyber Sleuth e Hacker’s Memory, Digimon World Next Order, Digimon Survive e vários outros. Ele ajudou a criar a era atual dos jogos, guiando os lançamentos para um público mais velho, que é quem mais consumia a franquia, e vendo que Digimon tem uma parcela boa de fãs no ocidente e ficando marcado na comunidade como alguém que conhecia a fundo a lore dessa franquia e buscava passar isso em seus jogos, se atendo a vários detalhes.

Hara já vem agregar em outro aspecto do jogo, que é na parte de jogabilidade. Habu era incrível na parte de enredo, com sua construção de lore e mundo, mas a questão de jogabilidade não acompanhava com a mesma maestria esse lado.

Com todo esse leque de informações para situar vocês de alguns percalços que esse jogo passou, vamos propriamente à minha experiência jogando Digimon Time Stranger no Xbox Series X.

Laços através do tempo

No jogo, nosso personagem é um agente da ADAMAS, que é uma organização secreta que caça lendas urbanas. Essas lendas acabam por ser casos misteriosos envolvendo seres de elétrons fasais ou “monstros digitais”, os Digimon. Durante uma investigação do personagem, em uma área que a população foi proibida de acessar, acabamos sendo envolvidos num embate entre Digimon. No meio disso tudo, quando uma sombra misteriosa aparece, uma explosão que toma o lugar todo acontece e vamos parar 8 anos no passado.

Depois disso, vira nosso dever, não só apenas descobrir como voltar para o nosso tempo, mas também descobrir mais do que aconteceu naquele momento, já que as consequências da explosão foram devastadoras. No meio desse processo, acabamos por nos juntar a Inori, uma estudante que tem um pai detetive que investiga Digimon, e ao Aegiomon, um Digimon misterioso. Durante a nossa missão, vamos (claro que vamos) parar no DigiMundo e conhecer mais do local e o que tem se passado por lá e como isso influenciou os acontecimentos que buscamos evitar.

Digimon Story Time Stranger - Trajes de banho

Tendo essa premissa e setup que dá início à nossa jornada, Time Stranger aborda temas comumente vistos em Digimon, que são laços dos seres humanos com as criaturas digitais e como esses laços afetam ambos os lados. Como nosso personagem é mudo, o jogo usa, principalmente, a relação da Inori e Aegiomon para mostrar aos jogadores a mensagem que eles querem passar.

Do lado dos humanos, os Digimon são muito mais misteriosos e poucos sabem o que eles são de fato. Vemos também como é difícil não só os investigar, mas lidar com as consequências de seus atos no mundo humano, sem criar um pânico geral na população. Do lado dos Digimon, os humanos já são bem mais conhecidos, seja no DigiMundo ou até mesmo pelo fato de existirem Digimon escondidos vivendo no mundo humano tranquilamente.

Ver essas peculiaridades e interações aqui é bem legal, pois, como o jogo é mais robusto comparado a outros, como Cyber Sleuth, temos uma maior sensação de mundo aqui, com mais NPC na rua, maiores construções, e isso é melhor sentido no DigiMundo. Acabamos por ter o sentimento de que aqueles lugares realmente são vivos e a vida ali acontece de verdade, causando uma imersão maior e te ajudando a mergulhar no jogo. Também temos muitos personagens legais de acompanhar, sejam humanos ou Digimon, e suas interações com a turma principal ou entre si são ótimas.

Digimon Story Time Stranger - Zudomon

As cutscenes também estão bem maneiras de acompanhar e elas existem em bem mais momentos que jogos anteriores. Elas também têm um ar cinematográfico embutido e deu para ver que fizeram um bom trabalho e deram atenção a elas. A maioria do jogo tem voz, mas ainda temos momentos de silêncio, o que geralmente acho bem ok, por ser usado em momentos bem secundários, mas ainda tem momentos de diálogo principal sem isso e aí eu acho bem estranho e sinto a falta.

Só que nem tudo acaba por se sair tão bem. O começo do jogo é num ritmo que talvez pudesse ser mais dinâmico, não o acho lento assim como já vi outros falarem, mas rápido com certeza ele não é. Isso talvez nem fosse considerado um problema se numa metade mais final do jogo não tivéssemos a sensação de que as coisas acontecem meio apressadas e de que certos personagens são bem escanteados ou poderiam ter sido mais e melhor trabalhados. Então, temos um ritmo inicial mais cadenciado e, indo para o final, ele parece estar pulando algumas etapas e detalhes.

Essa sensação aparece também, pois no final, antes de encarar a batalha derradeira, o jogo abre muitas missões secundárias para fazer. Isso deixa um sentimento de que talvez algumas dessas tramas tenham sido jogadas para escanteio. E, como dito bem no início, foi um desenvolvimento longo do jogo, com seus problemas e até troca de produtor. Isso deixa no ar aquela dúvida do quanto isso pode ou não ter influenciado nessas questões, já que Cyber Sleuth não deixava essa impressão.

Digimon Story Time Stranger - Templo Junesmon

Outra coisa que sinceramente me incomoda é o protagonista mudo. Eu sei que foi uma escolha da direção e tudo mais, mas isso acabou cortando muito a minha imersão no jogo, que eu elogiei na hora da construção dos ambientes do jogo. O começo todo da história martelando a ideia de que os Digimon são misteriosos e não sabemos do que eles são capazes e coisas do tipo, e o nosso personagem lá com 200 Digimon na box, fazendo os escambau e resolvendo usando Digimon de parceiro. Passa a sensação de que nosso personagem influencia na trama, mas é invisível ao mesmo tempo.

Esse é também o primeiro Digimon Story que vem em português e isso é ótimo, uma pena só não ter dublagem. Só que a localização infelizmente tem uns errinhos meio chatos, principalmente chegando no final. Os erros nem sempre são de gramática, mas de as frases estarem montadas de um jeito estranho. Enfim, a localização funciona, mas poderiam ter passado um pente-fino melhor na versão final.

A jogabilidade Digievoluiu

Como dito no início do texto, a jogabilidade talvez fosse o ponto que mais poderia evoluir nessa linha de jogos. Nunca achei que Cyber Sleuth tivesse uma jogabilidade ruim, mas claro que sempre teve espaço para melhorias. E esse jogo mostrou bem como (digi)evoluir esse aspecto da série de maneira bem feita.

Uma coisa que acabava ocorrendo em Cyber Sleuth e Hacker’s Memory é que, quando o jogo afunilava, os Digimon que os jogadores tendiam a usar eram de uma seleção meio restrita. Isso acontecia porque, nesses dois jogos, as habilidades de certos Digimon eram tão melhores e mais fortes que eles acabavam por ser a maneira otimizada de continuar com o jogo. Isso deixava muitos monstrinhos sendo escanteados por não conseguirem acompanhar esse gap no poder.

Só que em Time Stranger é possível equipar e desequipar os golpes a qualquer momento, fazendo com que mais criaturas tenham acesso a golpes fortes, o que permite que o jogador se sinta bem usando diferentes monstrinhos. E isso ocorre enquanto eles conseguem manter uma individualidade no elenco, tornando os Digimon únicos também. É claro que existem lá no final das linhas evolutivas os que são mais fortes e roubados que os outros, os Digimon têm seu nível de poder, só que aqui você não se sente punido por querer variar ou usar um Digimon favorito seu em vez de um mais meta.

Digimon Story Time Stranger - Batalha ToyAgumon

Uma adição que eles fizeram foi o sistema de personalidade. No jogo, cada Digimon tem uma personalidade diferente e essa personalidade vai influenciar algo no status da criatura e fornece uma habilidade passiva especial. As personalidades são divididas em 4 grupos: Bravura, Filantropia, Amigabilidade e Sabedoria. Cada grupo tem 4 personalidades dentro, então temos 16 opções no total, cada uma aumentando diferentes atributos do Digimon.

Essas personalidades adicionam um fator legal ao colecionismo do jogo, já que não necessariamente todo Digimon da mesma espécie vai ser igual. Só que a melhor parte para mim é que essas personalidades não são definitivas, você pode mudá-las facilmente conversando com os Digimon ou treinando-os na DigiFarm.

Com isso, você não cai na situação de ter se esforçado para conseguir um bicho em específico e ele vir “ruim”, já que você consegue buildá-lo da sua maneira. O mesmo vale para os status, onde cada bicho tende a ser melhor em determinado status, mas você pode treiná-lo e deixar tudo 9999. Então, ao mesmo tempo que eles criam mais diversidade nos mesmos Digimon, eles não te limitam a permanecer daquele jeito. Deixando a sua mente livre para brincar de montar equipes, estratégias e tudo mais.

O dinamismo da batalha está muito melhor também. A começar pelo fato de que você pode dar um ataque surpresa e, se o seu Digimon for muito mais forte que o adversário, a luta nem começa, você já o derrota e ganha integralmente o XP e itens que receberia na luta. Isso ajuda demais com o grind de XP, de monstros e de passar por áreas mais simples, tornando a experiência durante o jogo mais agradável.

Dentro da batalha existe a ‘Batalha Automática’, que funciona bem, e é possível lutar em 1x, 2x, 3x e 5x, deixando o jogador ir no ritmo que quiser. Eu mesmo usava o 1x para chefes e lutas mais importantes, ou para ver golpes pela primeira vez, e o resto era no 3x ou 5x. Isso ajudou bastante com o ritmo em vários momentos e no farm que fiz.

Nesse jogo também existem as Artes Cruzadas, que são habilidades especiais que nosso personagem pode usar ao juntar pontos de combate o suficiente. Vamos ganhando esses pontos ao realizar ações em batalhas e, ao encher a barra, usamos as habilidades que vão de cura, aumento de status dos Digimon no campo a ataques que dão um dano massivo.

Vamos liberando essas Artes Cruzadas, gastando pontos de anomalia para adquirir habilidades de agente. Os pontos de anomalia são pontos que recebemos ao terminar missões e que gastamos comprando as habilidades de agente, que é uma grande árvore de habilidade dividida em grupos. Não só desbloqueamos as artes cruzadas, mas também vantagens para nossos Digimon, como aumentar o XP ganho, os status, otimizar o treinamento na DigiFarm, entre outras opções. As habilidades de agente não permitem que você realoque os pontos, então, uma vez gasto em uma habilidade, você fica com ela até o final.

Um outro ponto muito elogiável aqui comparado aos seus antecessores são as batalhas de chefe, que realmente parecem mais especiais que outras batalhas. Elas costumam vir acompanhadas de uma cutscene bacana, o chefe costuma ser mais imponente que outras criaturas e tem uma dinâmica a mais que outras batalhas.

O chefe tem muito mais vida e ele vai ter momentos de carregar um ataque super poderoso e você tem que, enquanto ele carregar, atacar pontos fracos para interromper o golpe. Caso não consiga, você tem que pensar numa estratégia para mitigar o dano e não perder seus Digimon. Isso realmente deixa legais as batalhas e eu senti realmente estar enfrentando um chefe e não um NPC qualquer.

Claro que nem tudo são flores, e um dos maiores problemas desse jogo é uma mecânica que é marcante da série Story, a DigiFarm. A DigiFarm é basicamente uma ilha digital que você tem e pode enviar um número limitado de Digimon e lá eles podem treinar enquanto você se joga normalmente e eles podem achar itens para vocês também.

Só que, se eu elogiei o dinamismo que eles deram para as batalhas, na DigiFarm é totalmente o contrário. Um dos grandes motivos da DigiFarm existir é para deixar Digimon treinando, só que dentro da DigiFarm você não pode abrir a linha evolutiva do bicho. Então, toda vez que você esquece qual o status que você queria melhorar ou coisa do tipo, você tem que tirar ele da DigiFarm, ir na sua box, ver o que você precisa e então mandar ele novamente para a DigiFarm. É um caminho totalmente desnecessário e que só complica o que podia ser fácil.

A falta da possibilidade de definir uma personalidade a alcançar ou uma meta de status é sentida aqui. Fazendo com que seja um incômodo ter que usar a DigiFarm. E não só na parte de treinamento, mas colocar/retirar Digimon e itens customizáveis na fazenda é um incômodo também, é tudo um por um, não tem algo para grande quantidade para te facilitar. Tudo envolvendo essa mecânica parece uma escolha de menu ruim e não intuitiva.

Digimon Story Time Stranger - SkullGreymon

E se eu elogiei a presença das personalidades e sua facilidade em trocá-las, tem uma coisa nelas que me incomoda. Como dito, você pode trocar a personalidade de um Digimon ao conversar com ele, só que muitas vezes eu tive que escolher uma resposta que eu não queria para não atrapalhar a personalidade do meu Digimon. Dando um exemplo: ele fala “Vamos pescar?” e eu sou obrigado a responder “Vá sozinho”, porque se eu responder “Claro”, vai para uma personalidade que eu não quero. É algo besta, mas eu ser obrigado a ser escroto com o Digimon por puro status me tirava a imersão. Acho que essas conversas deveriam ser melhor trabalhadas.

A customização do jogo é bem básica, com você basicamente tendo umas camisas legais que dá para comprar da loja, como camisas de outras franquias da Bandai (Tekken, PacMan, Tales of, Taiko no Tatsujin e The IdolMaster) ou de coisas mais genéricas. As roupas legais e que mais mudam o visual só são acessíveis nas versões mais caras do jogo. Poder mudar penteado, cor de cabelo ou escolher um acessório mais diferente seria muito bem-vindo.

Uma coisa negativa para mim é que cada roupa de DLC vem associada a uma missão secundária, então você precisa necessariamente pagar as versões mais caras para poder fazê-las. São missões bobas? São, mas ainda assim acho que são práticas não saudáveis para o jogo e preferia que não tivesse isso.

Digimon Story Time Stranger - Trajes Cyber Sleuth

Outro péssimo ponto relacionado a conteúdo extra pago é que eles têm uma DLC, fora de qualquer pacote que venda no jogo, para farmar de maneira fácil XP, dinheiro e materiais. A versão mais cara do jogo custa uns 600 reais e ainda assim essa DLC está fora desse pacote. A existência de uma DLC com esse conteúdo já é ruim, mas ela estar à parte de qualquer pacote do jogo consegue ser ainda mais absurda. Por sorte, você ainda consegue farmar todas essas coisas dentro do jogo, como nos anteriores, mas obviamente não de maneira mamão com açúcar como nessa DLC.

Uma coisa que fiquei pensativo durante minha jogatina é perceber que esse jogo controla bem aonde você vai estar e onde você vai ter acesso a cada momento do jogo. É um jogo bem linear, como eram os antigos, mas aqui parece bem mais controlado. Em Cyber Sleuth, você fica solto e tem mais áreas de farm no começo do que a gente tem aqui. Aqui eu muitas vezes fiquei parado numa área farmando e coletando bicho, porque eu não fazia ideia de quando ia poder voltar (ou até se eu ia poder voltar).

E eu teria só achado curiosa a diferença entre esse e o jogo anterior, mas a existência da DLC das marmorras de farm me deixou pensativo no quanto dessa escolha de design era pensada em conjunto com a existência dessa DLC. E, infelizmente, mesmo que não fosse pensada para ser assim essa questão, a sensação que ficou é que eles só estão sendo sacanas e gananciosos com isso.

Ansioso pela próxima DigiAventura

A verdade é que Digimon Story: Time Stranger é um baita de um jogaço. O jogo tem muitos acertos, com uma jogabilidade mais aprimorada e dinâmica, possuindo um escopo maior que seus antecessores, o que cria cenários mais imersivos e boas cutscenes, tem um visual bom, está em português e tem um elenco de Digimon bem legal. Obviamente, ele tem problemas que incomodam e o fazem passar longe de ser perfeito, só que, apesar desses problemas, a sensação de jogá-lo é boa demais, vicia de verdade e eu saí feliz dessa experiência. Perdi horas nesse jogo grindando por um bicho que nem ia usar, só porque era divertido colecionar e liberar novos Digimon.

Digimon Story Time Stranger - Pandamon

Aqui é uma boa porta de entrada para quem nunca jogou nada da série Story, principalmente por ter um português e uma boa base para se trabalhar para jogos futuros (que eu espero que venham). Agora é aguardar o que o jogo vai adicionar de monstros e história em suas DLCs já programadas para sair. Possibilidades legais que não faltam.

Nome do jogo:

Digimon Story Time Stranger

Publisher:

Bandai Namco

Desenvolvedora:

Media.Vision

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 5, Xbox Series S|X

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