Crítica: DRAGON QUEST I & II HD-2D Remake – sempre foram bons ou é apenas nostalgia?

Por Arthur Tayt-Sohn

Nota: 9

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

É difícil, para não dizer impossível, falar de RPGs de videogames sem falar de Dragon Quest. Uma das séries mais importantes e influentes do gênero, sua história tem origem ainda no Nintendinho, no ano de 1986. De lá para cá muita coisa mudou na indústria, mas é fato que Dragon Quest nunca deixou de ser relevante.

Com isso, a Square Enix relançou os três primeiros jogos. Curiosamente, o primeiro remake foi Dragon Quest III, mas isso até que faz sentido pois ele é o primeiro em ordem cronológica, sendo ambientado muitos anos antes do primeiro jogo.

Agora a Square Enix finaliza o relançamento com a coletânea Dragon Quest I & II HD-2D Remake, que traz os dois primeiros jogos lançados da série, contando a história dos descendentes do grande herói Erdrick, de Dragon Quest III.

Tive a oportunidade de jogar essa coletânea, sendo essa a primeira vez que posso considerar que de fato joguei um Dragon Quest, já que essa é uma série que eu acabei não tendo muita oportunidade de jogar anteriormente.

Os herdeiros de Erdrick

Os jogos da coletânea se passam em momentos diferentes, após a vitória de Erdrick em Dragon Quest III. Como previsto, o mal não foi totalmente eliminado e cabe aos herdeiros da linhagem do herói salvar o mundo quando o mal despertar novamente.

Em Dragon Quest I, somos um herói solitário que deve completar sua jornada sozinho, mas contando com a ajuda de aliados em alguns momentos. Já no segundo jogo, conhecemos seus descendentes, primos herdeiros de três linhagens geradas a partir da união do herói do primeiro jogo com a princesa de Tantegel.

DRAGON QUEST I II Remake - Hero

Os dois jogos seguem premissas bastante parecidas: um momento de crise, onde forças malignas despertam e tentam dominar o mundo, enquanto heróis profetizados em contos e lendas partem em uma jornada para impedir que o mundo caia na escuridão. 

Nos dois jogos, o “protagonista” é mudo. Coloco protagonista entre aspas porque no segundo jogo temos novos personagens jogáveis, que são igualmente importantes. Protagonistas silenciosos eram bastante comuns em RPGs clássicos. Além de economizar recursos técnicos, eram uma forma de imersão para que o jogador projetasse sua própria personalidade no herói.

O Remake optou por manter essa característica, o que não é um problema. Há um momento no primeiro jogo que essa convenção é quebrada e isso gera um momento bastante interessante, com o protagonista de fato tomando a iniciativa na história.

Em Dragon Quest II, os personagens já são melhor desenvolvidos. Há um grande salto no desenvolvimento dos personagens. O protagonista ainda é mudo, mas seus primos possuem personalidades e motivações próprias, sendo personagens bastante interessantes e que demonstram evolução ao longo da jornada.

Os dois jogos seguem premissas bastante clássicas dos RPGs dos anos 80 e 90, mas apesar disso o segundo jogo apresenta uma notável evolução tanto na construção dos personagens quanto no roteiro.

DRAGON QUEST I II HD-2D Remake - Grupo completo

Enquanto Dragon Quest I é muito mais focado na luta do “bem contra o mal”, Dragon Quest II abre espaço para que os protagonistas se desenvolvam ao longo da jornada, entrem em conflitos pessoais e questionamentos, mas também deixa um espaço para alívios cômicos.

Um ponto que achei muito interessante, e que em diversos momentos me surpreendeu com desfechos inesperados, é a não linearidade dos jogos. Eu não sei dizer o quanto disso está presente nos originais, mas nos Remakes você recebe seus objetivos mas não é guiado passo a passo sobre o que fazer para alcançar esses objetivos.

É claro que existem alguns pontos “chave” no jogo que acabam te guiando, mas muitas coisas podem ser feitas em outra ordem, caso você explore mais o mundo ou já saiba o que fazer. Por exemplo, no Dragon Quest II recebemos a missão de ajudar um local sendo atacado e de reunir alguns itens. Mas você é livre para decidir o que fazer primeiro. 

Dependendo da ordem que você realizar os objetivos, alguns momentos terão desfechos bem diferentes. E isso levou à uma cena bastante cômica, onde meus personagens levaram um esporro gigantesco de uma personagem, o que me pegou bastante de surpresa. 

Essa não linearidade também pode afetar a dificuldade do jogo. Você pode chegar em uma área do jogo mais fraco do que deveria e pode seguir por duas opções: realizar outro objetivo mais fácil, subir alguns níveis no processo e retornar para essa área, ou simplesmente fazer um grind por ali mesmo e avançar. A escolha é totalmente sua.

DRAGON QUEST I II Remake - Luz

Eu particularmente gosto dessa liberdade que o jogo dá, pois incentiva a exploração. Principalmente no segundo jogo, onde você adquire um navio bastante precocemente, você tem liberdade total para explorar o mundo, conhecer os locais e descobrir sem querer, e da pior forma possível, que talvez você esteja fraco demais para estar em algum lugar.

Mas é claro que isso pode confundir alguns jogadores e eu entenderia a frustração. Pensando nisso, o jogo conta com alguns recursos, como um marcador que pode ser habilitado para indicar onde estão seus objetivos.

Vale destacar que apesar de o jogo ser fiel ao original, existem adições na história original que devem agradar bastante os fãs dos jogos clássicos. Eu não sou exatamente um grande conhecedor da série, mas acompanhei algumas discussões de fãs e vi alguns bastante enlouquecidos com alguns novos detalhes, então fiquem atentos.

Combate clássico por turnos

A coletânea preserva os combates por turnos dos RPGs clássicos, preservando inclusive a perspectiva que o jogador tem dos combates. Com algumas mudanças, como os personagens aparecerem na tela, mas funcionando essencialmente da mesma forma dos clássicos.

Eu tenho a opinião que não existe uma forma errada de se fazer um remake. Alterar o funcionamento do combate ou manter os sistemas originais são decisões que, a meu ver, são meramente criativas.

No caso de Dragon Quest I & II, a ideia é manter o jogo com a experiência mais próxima dos originais, mas com algumas melhorias. Por isso foram mantidos os combates tradicionais, mas com algumas adições.

Senti que apesar de serem jogos com um sistema idêntico, os dois são jogados de formas um pouco diferentes. Isso ocorre principalmente porque enquanto Dragon Quest I conta com apenas um personagem, no segundo jogo controlamos um grupo.

DRAGON QUEST I II HD-2D Remake - Combate DQ1

Ou seja, enquanto o herói do primeiro jogo é mais “balanceado” com relação ao seus atributos e concentra todas as magias e habilidades nele, no segundo temos uma divisão de funções entre os quatro protagonistas.

Isso se reflete nas estratégias utilizadas e na variedade dos combates, bem como na complexidade. Esse é um dos outros motivos que me fez gostar bem mais do segundo jogo. Ele acaba sendo uma evolução do seu predecessor.

O primeiro jogo principalmente tem alguns probleminhas de balanceamento, mesmo no remake. Alguns combates, sobretudo contra grupos de inimigos, acabam sendo meio injustos se tratando de um jogo com um único protagonista.

Além de danos massivos que podem causar, alguns deles possuem habilidades que podem causar morte súbita. Sim, a chance de acerto é baixíssima, mas ocorreu algumas vezes comigo. Isso poderia ter sido especialmente frustrante se o jogo não tivesse um recurso de auto save que me permitiu voltar bem rápido para o ponto que morri.

Já em Dragon Quest II, os combates ficaram mais balanceados, já que conseguimos administrar um grupo com funções mais definidas. O segundo jogo também dá mais abertura para o uso de buffs, algo que praticamente não utilizei no primeiro, bem como em estratégias mais complexas.

Alguns momentos exigiram um pouco de grind, mas para ser sincero foi menos do que imaginei. E como o jogo conta com uma opção de acelerar os combates, não foi tão demorado assim também. 

DRAGON QUEST I II HD-2D Remake - Combate DQ2.jpg

Os dois jogos são exatamente o que se espera de um RPG de turno: navegar por menus, escolher as ações que você quer realizar, esperar os resultados e tomar novas decisões. Ele é bem tradicional nesse sentido, exatamente o que se espera de jogos com mais de 30 anos de idade.

São jogos bem fáceis de se aprender a jogar, o que talvez explique o imenso sucesso que fizeram em seu lançamento. E o salto de evolução do primeiro para o segundo jogo parece proposital. Se observarmos o intervalo curtíssimo de lançamento deles, de apenas um ano, me parece que a ideia dos desenvolvedores foi introduzir o jogador lentamente ao gênero de RPG.

Isso é bem visível em como Dragon Quest I conta com apenas um personagem e um mapa menor, para quatro personagens no segundo jogo, um mapa consideravelmente maior e com a adição de novos elementos, como a exploração naval e até mesmo subaquática.

Para nós que já estamos acostumados com jogos do gênero, que já estão por aí há décadas, parece algo bobo, mas se pensarmos que na época o gênero ainda estava dando seus passos iniciais nos consoles, foi uma estratégia genial.

Nesse sentido eu gosto de como a Square Enix tentou preservar ao máximo a experiência original, para termos uma nova perspectiva, agora como jogadores mais amadurecidos, sobre jogos clássicos lançados há tanto tempo.

DRAGON QUEST I II HD-2D Remake - Belial.jpg

Por outro lado, eu ainda acredito que o Dragon Quest I poderia ser melhor balanceado. Faz sentido os inimigos agirem duas vezes por turno no segundo jogo, onde controlamos um grupo inteiro, mas no primeiro jogo isso o torna meio injusto às vezes.

Vejam Dragon Quest I como um tutorial do segundo jogo. Pode ser um pouco frustrante às vezes, mas sinceramente não chega a ser uma barreira gigantesca. E vale todo o esforço, porque Dragon Quest II é um jogo muito melhor e que vale muito a pena ser jogado.

Equilíbrio entre o clássico e o novo

Sempre que um remake é anunciado, existe a preocupação sobre o quanto a arte original será afetada, tanto para o bem quanto para o mal. Principalmente quando se trata de artes de pessoas muito consagradas, como o saudoso Akira Toriyama.

A Square Enix parece ter se encontrado muito bem com o estilo HD-2D. É um estilo de arte que busca preservar o estilo artístico original, sobretudo pixel art, mas com melhorias nos pixels, bem como possibilitar que o jogo fique bonito em telas modernas, com resoluções maiores, etc.

Eu gosto bastante desse estilo artístico e acho que Dragon Quest se beneficiou demais disso. Eu consigo identificar facilmente o estilo do Toriyama nos designs dos personagens, o que para mim mostra que seu estilo não foi descaracterizado.

DRAGON QUEST I II HD-2D Remake Gato

E isso é importante, porque Dragon Quest é uma série em que seus visuais são bastante característicos e são responsáveis por boa parte da memória afetiva que são criadas com eles. Veja bem, como disse anteriormente eu não tenho experiência com a série mas é inegável que eu consigo reconhecer facilmente os jogos só pelo seu estilo visual.

É um jogo visualmente lindo e que grita sentimentos de nostalgia a todo momento. Mesmo sendo minha primeira experiência de verdade com Dragon Quest, foi impossível não lembrar da minha infância, principalmente por conta de Dragon Ball e até mesmo Chrono Trigger, que compartilham o mesmo artista.

Ao mesmo tempo é visível que é um jogo desenvolvido em 2025. As pixel arts são muito bem elaboradas e feitas com o que há de mais moderno, ou seja, possuem animações muito fluídas como é normal em jogos atuais.

DRAGON QUEST I II HD-2D Remake - Galenholm

Fora que o jogo mescla modelos em 3D e muito bem animados também, em seus cenários, efeitos de magias e habilidades, etc. Definitivamente é um estilo que combinou perfeitamente com os jogos, de forma que fosse modernizado mas ao mesmo tempo trouxesse uma experiência nostálgica.

Eram bons mesmo ou era só nostalgia?

Dragon Quest I e II são jogos que trazem uma experiência dos clássicos do início dos RPGs nos consoles e mostram que não era apenas nostalgia. Esses jogos sempre foram bons de verdade e não é a toa que foram um sucesso enorme. E é ótimo que jogos daquela época sejam estejam cada vez mais disponíveis hoje, seja como ports fieis ou como remakes.

Gosto bastante de jogos de turno e me senti bastante confortável com eles, mas tentando me colocar no lugar de novatos, e lembrem-se que existem pessoas que irão jogar um RPG pela primeira vez, são jogos bastante acessíveis de se aprender.

Infelizmente esses são mais jogos que a Square Enix não localiza para português brasileiro, o que ainda segue sendo bastante frustrante, visto que temos uma base sólida de fãs de RPG em nosso país e que pode tornar eles menos acessíveis para fãs brasileiros.

Dito isto, se você não tem problemas em jogar em inglês e gosta de RPGs, recomendo bastante Dragon Quest I e II. Seja você um veterano ou para jogar pela primeira vez, como eu, pois são jogos que se tornaram pilares e inspiração para muitos outros que vieram depois.

Nome do jogo:

DRAGON QUEST I & II HD-2D Remake

Publisher:

Square Enix

Desenvolvedora:

Square Enix

Plataformas Disponíveis:

Playstation 5

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