Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Poucas franquias fazem o que Trails faz, uma longa e contínua história sendo construída e explorada por tanto tempo, é algo muito complicado e as chances de dar ruim são sempre grandes. Não digo que Trails é perfeito, afinal existem certos títulos da série que não são necessariamente ótimos jogos, alguns chegam a ter momentos ofensivos à minha (baixa) inteligência, mas é algo feito com muito carinho e cuidado, além de existir um charme que nenhuma outra obra consegue ter.
The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon tem dois objetivos: continuar o arco de Calvard e dar o pontapé inicial para a conclusão dessa série de até então 20 anos de existência. É uma tarefa árdua, onde a possibilidade de erro é muito alta. No entanto, estamos falando da Nihon Falcom, que mesmo quando erra, tem de onde se tirar, não que esse seja o caso de Horizon, que para mim já figura entre os melhores jogos da franquia.
A estrutura de três rotas e a presença de uma dungeon procedural com direito a hub onde os nossos personagens se encontram, podem remeter diretamente a um jogo como Sky the 3rd ou Reverie, mas aqui não é o caso, Horizon é literalmente Daybreak III. Van e a Arkride Solutions são o grande foco do jogo, enquanto as outras duas rotas servem de fundo para algo muito maior acontecendo em Zemuria.
Após o prólogo, acontece uma grande quebra de expectativa, onde nos vemos controlando Van e companheiros em um dia completo como Spriggan por toda a Edith. O ato 1 talvez seja o ato mais Trails possível, seja para o bem ou para o mal. Na real, esse jogo inteiro entra nesse contexto, mas aqui é onde isso é mais forte.
O ato 1 talvez seja a parte mais importante do jogo pelo quanto ele constrói tudo que vem pelas próximas 70 horas, mas é algo que não está na superfície e sim onde a Falcom separa os dodóis dos normais. Durante mais ou menos 15 horas, você vai explorar Edith, visitando distritos já conhecidos e novos locais que completam a capital de Calvard.
Existem duas funções principais para esse ato: servir de breve recapitulação e introdução de personagens e temas para aqueles que não jogaram os jogos anteriores, mas que vieram para Horizon porque o menino de ouro, Rean, apareceu, e fechar algumas storylines (como o arco dos imigrantes) em aberto de Daybreak I e II, antes de partir para “o que realmente interessa”. Não existia um lugar melhor para isso nesse jogo, mas estamos falando da Falcom, onde o roteiro inchado se faz presente e a execução acaba ficando mais ou menos. Durante ⅔ do ato, o ritmo é bem lento e talvez incomode algumas pessoas.
Porém, eu, como um dodói, adorei esse ato. Edith é um dos meus hubs favoritos da série e seus NPCs são sensacionais. Então você me dá 15 horas onde tudo que eu faço é explorar a cidade e fazer sidequests, não tem como eu não gostar.
Eu sei que falo isso para todos os jogos da série, mas Horizon é O JOGO para se falar com NPCs, a quantidade de conteúdo perdível se você apenas segue o símbolo vermelho da história principal é admirável. Nada aqui é opcional, e é provavelmente o jogo mais maníaco da série e é totalmente a minha geleia. O ato 1, assim como Daybreak II (o tal jogo que pessoas insistem em chamar de filler), é a grande fundação para Horizon.
Vamos então falar das rotas, que, para mim, são a verdadeira parte bagunçada do jogo. Deixaremos a do Van de lado por um momento, mas adianto que é a melhor rota do jogo.
Começaremos pela do menino de ouro Rean, a mais decepcionante do jogo. Vamos lá, quando Toshihiro Kondo, produtor da série e presidente da Falcom, falou que a participação do Rean foi algo que entrou de última hora no desenvolvimento, eu já imaginava algo bem desconjuntado. A rota do Rean, com exceção de três cenas super daoras e, como os jovens falam, de aura farming, é praticamente feita para o Van. As sidequests, as interações entre NPCs, são todas escritas como se fossem para o nosso querido Spriggan. O jogo até brinca com isso quando um personagem comenta sobre estarmos fazendo 4SPGs em vez de missões de Bracers com a Fie em nosso time.
O retorno de certo personagem para esse jogo é completamente inútil, ocupando lugar de gente que poderia ser mais interessante para a história. Apenas a última parte da rota do Rean parece de fato escrita para ele, mas deixar esse personagem gigante de escanteio por tanto tempo no jogo seria muito corajoso para a Falcom.
Até os Connect Events da rota não chegam a ser tão inspiradores assim, algo que esse arco soube fazer muito bem desde o primeiro jogo.
Agora, na rota do Kevin, temos uma desculpa melhor para estarmos fazendo missões do Van, que é a participação da turma do piquenique. Devo dizer que a pessoa que deu a ideia de juntar Kevin com esse grupo tem que receber um belo aumento. A química entre eles funciona logo de cara, muito por conta do nosso Padre favorito. Kevin retorna à série após 7 jogos, sendo jogável após 9, e não tinha papel melhor para ele do que o que ele está cumprindo aqui.
Ambas as rotas são relativamente mais curtas do que as do Van, além de se passarem em locais menores. Como falei no começo, elas funcionam como pano de fundo para algo muito maior.
Quanto ao Van, é a rota mais Trails possível. Em estrutura, em ritmo, em importância, aqui é a engrenagem principal de Trails beyond the Horizon, sendo o grande centro das atenções e consistindo em quase 80% da campanha principal do jogo. Do slow burn ao final grandioso, tudo que faz Trails ser Trails está presente aqui.
O jogo continua se utilizando de recursos narrativos de outros jogos, como já esperado, mas sinto que aqui foram melhores explorados. O que quebra é que vem de uma fadiga e do tanto que isso foi utilizado até então, e não bate como deveria.
Horizon não chega a levar a franquia a 90% de conclusão como Kondo falou ao longo do ano em que o jogo foi lançado no Japão (e depois parou de falar quando percebeu que não funcionou para o marketing), mas responde sim várias perguntas sobre esse universo, mesmo que isso tenha aberto muitas mais no processo. O fim da série de fato se aproxima, não sei quantos mais jogos teremos, mas no momento estou mais preocupado em como a história do Van será encerrada.
O personagem, que foi um tanto escanteado em Daybreak II, novamente não chega a ser explorado aqui, mas temos um pequeno avanço em sua narrativa própria. Esse é meu grande medo e decepção até o momento, mas é, novamente, esperar para ver o que a Falcom vai querer fazer.
Eu não sou contra a ideia de rotas, inclusive acho que no geral é algo que Trails deveria explorar mais, só que depende muito do jogo em que elas são utilizadas. Funcionou para Reverie, em DB2 já não chega a ser necessariamente bom, e aqui uma delas é completamente inútil em sua grande maioria.
Já comentei sobre os NPCs, mas Horizon tem uma quantidade enorme de sidequests, além do retorno do Garten, aqui nomeado de Grim Garten, que funciona muito melhor do que a versão do jogo anterior. Há mais coisas a se fazer, com direito aos Mementos (equivalente às Portas de Sky the 3rd e aos Daydreams de Reverie), que são curtas memórias do passado que podemos reviver, e um hub onde os nossos personagens podem interagir entre si. Porém, mais do que isso, existe uma história no Grim Garten, relacionada a Ouroboros, e deixar isso como opcional chega a ser uma loucura. As sidequests então, temos até algumas que possuem linhas dubladas, com personagens sendo introduzidos lá.
Existem dois Connect Events específicos na rota do Van que eu quebro a cabeça para tentar imaginar o porquê de eles não fazerem parte da história principal. São dois eventos focados no Van, algo que muita gente reclama que esses jogos não fazem, e deixaram isso de lado. Um deles me ofende, pois literalmente vamos para o local onde ele acontece durante a campanha.
Horizon é, até então, o Trails com melhor gameplay. A Falcom conseguiu refinar o seu novo sistema de batalha, alterando e adicionando novas funcionalidades a esse sistema. Juntando isso com o Grim Garten, batalhar nesse jogo ficou ainda mais divertido, por mais que eu não queira mais a presença dessas dungeons novamente na série por um bom tempo (pedido em vão, pois vai voltar no próximo jogo).
Esse jogo foi onde eu senti que enfim valeu a pena perder uns minutos pensando nas Shard Skills para explorar as habilidades ativas e passivas, que não sejam Ark Feather e relacionadas, e a introdução dos Shard Commands (que são basicamente as Brave Orders de Cold Steel III~Reverie) veio bem a calhar. O Cross Charge teve uma alteração e agora não troca o personagem automaticamente, deixando o combate ainda mais fluido.
Além disso, temos o Z.O.C., que, quando usado no combate em ação, causa um slowdown na tela, e quando usado no combate em turno, lhe permite ter dois turnos seguidos. No modo ação, ele tem uma barra própria que carrega com o tempo, já em turnos ele se utiliza de duas barras de boost.
Outra novidade é o B.L.T.Z., que é um novo bônus que pode ser utilizado por membros que estão na reserva da party, podendo gerar um ataque em sequência ou um reforço na hora de usar arts ou crafts.
Por fim, temos Awakening, uma habilidade do modo de ação que faz os personagens entrarem em um estado único. Alguns podem se transformar ou entrar em certos modos, como o Van se transformando no Grendel, os Dominions ativando seus Stigmas, a Judith virando a Grimcat e Rean e Shizuna entrando no modo Spirit Unification. Isso causa um aumento em todos os atributos, permitindo stunnar inimigos mais facilmente.
O que eu acho que a Falcom perde a mão é na quantidade de HP que os inimigos, principalmente bosses, possuem. Mesmo em níveis de dificuldade mais padrões, alguns mobs são esponjas, e isso se mantém até o chefe final do jogo.
Desde que o remake de Trails in the Sky foi anunciado, um debate surgiu sobre como o estilo de Trails deveria se manter daqui para frente. Continuar com a vibe mais realista e moderna de Calvard ou mudar para o estilo QUASE cel shading/anime do remake de Sky. Eu particularmente não possuo uma preferência exata, contanto que o estilo case com a história sendo contada, que é o que acontece nesse arco atual. Sky remake, por ter sido lançado após Horizon no Japão, possui animações e cenas em mocap melhores, mas aqui não fica muito atrás, a qualidade das sequências de ações é bastante alta. A charabans, empresa responsável pelas animações desde Daybreak II, mudou completamente os jogos da Falcom e para melhor.
Porém, tem algo que me chamou a atenção, e que Horizon faz muito melhor que Sky, que é a cinematografia nas cenas básicas. A composição, os ângulos e as coisas acontecendo em volta são bem superiores ao que vimos anteriormente nessa engine e é algo que Sky 1st não faz. A mise-en-scène talvez seja a grande adição na narrativa de Trails e espero que continue e se estenda para outros títulos.
No dia em que a Falcom conseguir diminuir o inchaço do roteiro, mesmo que a esse ponto já tenha se tornado uma característica de Trails, e melhorar o ritmo dos jogos, talvez cheguemos novamente perto do ápice dessa série.
Quanto à trilha sonora, eu gosto demais. Para mim, é a melhor trilha desde Reverie (de 2020…) e, mesmo com algumas inconsistências, dá para sentir que existiu um mínimo de direção de som aqui. Koguchi continua evoluindo como compositor e arranjador, e Sonoda tenta ao máximo manter vivo o som clássico da Falcom. Jindo é um mestre e Singa talvez tenha lançado o melhor pacote de músicas dele em anos, mesmo com memes aqui e ali.
Por fim, a localização da NIS America está ótima, por mais que eu não concorde com uma certa mudança em relação ao original, ainda mais por eu jogar com vozes japonesas, o que deixa vários dos momentos onde utilizam o termo, meio broxas, sem mencionar que não conseguiram manter o callback do primeiro jogo em certa cena. Gostei que mantiveram várias das referências utilizadas em vez de mudar como fizeram em Daybreak I.
The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon começa a pavimentar o caminho para o final da franquia Trails. Não é um jogo perfeito, mas incorpora tudo que tem de bom e ruim sobre a série, resultando no jogo mais Trails possível. Combinado com um combate mais polido, foi a receita certa para tornar um dos melhores jogos da série.
The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon
NIS America
Nihon Falcom
PC, Playstation 4, Playstation 5, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2