Crítica: Etrange Overlord – Ambição Infernal

Por Matheus Megazao

Nota: 8

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Quando se fala em jogos ambiciosos, a imagem mais comum que vem à cabeça é a de um jogo que tenta impressionar na parte técnica ao fazer algo que nunca (ou pouco) foi feito em sua geração. Essa é uma percepção recorrente justamente por ser um objetivo relativamente comum que jogos mais populares – especialmente no âmbito AAA – buscam para ter algo do que se vangloriar para o público mais casual.

Dito isso, existe um outro tipo de ambição que certamente é menos impressionante, mas que me interessa muito mais: a ambição temática. Um time de desenvolvimento que escolhe um ângulo ou um tema e foca em extrair o máximo que consegue disso para entregar uma experiência memorável consegue prender minha atenção muito mais do que qualidade técnica pura, e eu sinto que é justamente isso que Etrange Overlord tenta entregar. Um jogo de ação cuja filosofia de design central é inspirada em esteiras de sushi, tudo é cercado de uma história sem medo de ir onde for necessário para alcançar as ambições de sua protagonista, custe o que custar.

De vilãs o inferno está cheio

Etrange Overlord é um jogo sobre uma nobre que é falsamente acusada de traição em um reino, é guilhotinada, e acaba no inferno. Lá, seguindo o molde de história de vilã, ela começa a subjugar seus inimigos e montar seu próprio exército sem necessariamente intenção de escapar do inferno, mas sim de viver uma vida luxuosa por lá. O começo da narrativa é bem clichê até pra alguém que não costuma consumir essas histórias, mas depois do primeiro terço o jogo começa a assumir cada vez mais uma identidade própria e acaba entregando uma história muito maluca, mas que tem tons extremamente familiares pra quem já jogou qualquer Disgaea – afinal, ambos os jogos foram escritos pela mesma pessoa. Como um enorme fã da escrita da série Disgaea, não só me senti em casa com a narrativa de Etrange Overlord, como esse jogo me fazia rir alto constantemente. É um humor bem bobo servido com cenas musicais que certamente não vai servir pra todo mundo, mas pelo menos é muito bem entregue.

O que não funciona tão bem na narrativa é como ela também parece Disgaea em partes que isso não a beneficiam. O jogo é dividido em 3 atos, cada um ocupando aproximadamente um terço das 11 horas de jogo, e no total você recruta 15 personagens além de Etrange para usar em campo. Esses personagens funcionam como amigos que a protagonista faz ao longo da história, então todos eles teoricamente têm o mesmo grau elevado de importância, porém só no primeiro ato você recruta treze deles – incluindo uma missão no meio do ato onde são 3 de uma vez. Os personagens não tem espaço nenhum pra respirar e serem desenvolvidos como teriam em um jogo com o escopo de Disgaea, o que me faz pensar que sua duração não foi tão levada em conta durante a escrita.

Já do outro lado do espectro temos a Etrange que, na qualidade de protagonista, é naturalmente a personagem com maior desenvolvimento. O problema é que uma enorme parte dos diálogos das cenas em que ela está presente são monólogos que ela tem dentro de sua própria cabeça, o que serve apenas para desenvolver ela mesma. Em um jogo com tantos personagens brigando por tempo de tela desde o começo, não me parece que se perderia muito em transformar esses monólogos em breves diálogos com outros personagens para acomodar melhor todo mundo.

No fim das contas eu acho que o saldo do desenvolvimento de todo mundo é mais positivo do que negativo, afinal o jogo pelo menos apresenta várias side stories – literalmente “missões” em que você apenas assiste um diálogo em formato de visual novel – que exploram bem a maioria dos seus companheiros quando você chega no final. O problema é que durante a primeira metade tudo acontece tão rápido devido à quantidade de gente entrando pro grupo e o pouco tempo que o jogo dedica a eles que não pude deixar de me sentir incomodado.

Porrada e sushi

Quando você não está assistindo a longos diálogos ou apresentações musicais dramáticas, o gameplay do jogo é, superficialmente, bem básico de ação. Você basicamente tem um botão de ataque, um botão de esquiva, e um botão para ativar um ataque especial. Toda missão você escolhe um time de 4 de seus companheiros e pode trocar entre eles à vontade no meio dela. Como mencionei no começo, o jogo teve parte de seu design inspirado em esteiras de sushi de restaurantes japoneses, então uma mecânica central de todos os mapas são algumas faixas circulares onde itens podem aparecer e ficam sendo levados em círculo até alguém usar. Esses itens podem ser coisas como aumento no ataque, aumento na defesa, uma carga de ataque especial, cura, etc., e até alguns inimigos podem interagir com eles.

Ironicamente, ao contrário da narrativa, a parte mecânica do jogo é arrastada e demora um tempo considerável pra ficar mais interessante, mas quando fica, fica pra valer. Eu disse no último parágrafo que o gameplay do jogo é, superficialmente, bem básico de ação. Isso é porque uma vez que ele começa a ficar criativo com as mecânicas e os cenários (e consequentemente mais difícil), logo me ficou claro que ele é mais sobre movimentação, posicionamento e gerenciamento do seu grupo e das faixas com itens. Em missões mais avançadas eu me peguei precisando trocar de personagem em personagem constantemente pra posicionar todo mundo mais ou menos onde eu precisava, com certos “papéis” pra cada um na batalha, e tudo isso enquanto ficava atento aos pontos que inimigos apareciam e onde estavam (e quais eram) os itens acessíveis. Etrange Overlord tem missões e chefes muito criativos que fazem uso sagaz dos cenários e das faixas, o que torna essa mecânica muito mais que uma mera gimmick e mostra como os desenvolvedores se empenharam em explorar fundo essa ideia tão única.

A única coisa que não é muito satisfatória no combate é que o sentimento tátil do gameplay é bem pobre. Golpes, animações e efeitos sonoros de personagens e inimigos são frequentemente muito rígidos e não têm impactos ou movimentos satisfatórios. Isso é mais evidente nas fases iniciais – porque têm menos inimigos e eu também estava me divertindo menos com o combate – mas a sensação não te abandona completamente até o final.

Complementando o combate em campo, o jogo tem um sistema de melhorias pros personagens e pras faixas de itens, além de um sistema de cozinhar que pode te dar buffs antes de uma missão, tudo isso exigindo gerenciamento e coleta de uma gama de itens diferentes. A coleta de itens é mais indireta, vindo de missões de exploração que você manda os NPCs irem sozinhos ou de recompensa de uma missão, o que pode ser um pouco frustrante se você quiser um item específico que não vende na loja pra melhorar algum personagem. Ainda assim, como mesmo na dificuldade padrão o jogo não é muito difícil uma vez que você saca como “resolver” cada missão, você não sai necessariamente prejudicado se não puder fazer uma melhoria especificamente quando quer.

Imagem e som filé (de sashimi)

A parte visual de Etrange Overlord é bem peculiar, pois adapta os designs de personagem de Shinichiro Otsuka (artista de Re:Zero) para um 3D meio chibi bem parecido com os Disgaea mais recentes. Na minha cabeça os dois estilos não combinam muito entre si – o que acaba sendo bom porque, sendo bem sincero, eu não gosto muito do estilo desse artista. Já os designs 3D acho bem mais simpáticos, apesar de alguns parecerem uns BuddyPoke às vezes. Já os cenários são mais limitados, sendo um mapa por ato e as missões não fugindo muito do design do mapa, mas não foram um problema justamente dado a brevidade do jogo.

Parte do jogo sendo um musical, não é muito surpreendente que a música é tratada com bastante carinho aqui. As faixas normais não são nada pra se ouvir no ônibus, mas são boas e acabam sendo superadas pelas várias músicas cantadas ao longo da aventura. Mesmo que você não goste de musicais, essas cenas são tão infrequentes e breves que não têm nem tempo de incomodar.

Conclusão

É um pouco engraçado pensar como minha experiência jogando Etrange Overlord foi quase tão dramática quanto o jogo em si. Ficando incomodado com o ritmo bizarro da primeira metade e a sensação que o jogo estava pra acabar com 4 horas, afinal eu já tinha recrutado quase todo mundo da capa, só para vê-lo finalmente alinhar completamente o ritmo das coisas e entregar uma jogabilidade que me fisgou e uma história que não parava de me surpreender. Essa é uma obra cujas imperfeições são marcas de sua ambição – a mesma que quis desenvolver 14 personagens de uma vez, e a mesma que criou um gameplay fascinante em volta do conceito de esteira de sushi – e esse é um preço pequeno a se pagar por criar uma experiência tão marcante.

Nome do jogo:

Etrange Overlord

Publisher:

NIS America

Desenvolvedora:

Gemdrops, Inc., Superniche LLC, BROCCOLI Co.

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 4, Playstation 5, Nintendo Switch

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