Peguei Labyrinth.os para jogar assim que o jogo foi lançado, sabendo bem pouco dele, mas fascinado com toda a estética. O jogo se apresenta como um Dungeon Crawler inspirado em Shin Megami Tensei e Etrian Odyssey, com uma estética caótica que remete ao fim da década de 90 e início dos anos 2000. É um jogo pouco preocupado em se explicar, e desvendá-lo faz parte de seu apelo.
O jogo foi feito no RPG Maker XP, uma engine antiquada em diversos aspectos e feita antes de diversas padronizações em jogos de PC. Inclusive, ele não leu meu controle nativamente e foi uma leve dor de cabeça configurar tudo direitinho. A sensação que esse jogo traz é a de encontrar um jogo velho, nichado e perdido, mesmo que na verdade seja um jogo de 2026. Definitivamente não é algo para qualquer um, mas quem estiver disposto a explorar esse jogo, ele tem muito a oferecer. Passei quase o mês todo fascinado e tentando destrinchar esse jogo e seus diversos finais, a fim de compreender o que ele quer dizer.
O jogo introduz, falando que, antes da morte, o ser mais inteligente do mundo de outrora deixou uma máquina capaz de resetar o mundo. 13 arquitetos se responsabilizaram por manter tal máquina e a chamaram de “World Egg”. Você é uma boneca sem memórias num labirinto, cujo supostamente no centro contém a pessoa cuja é sua imagem e semelhança e também o tal de World Egg, e lhe informam que seu destino é chegar ao centro deste labirinto.
O jogo todo se passa num labirinto gigante com diversas camadas. A estética do labirinto e de seus habitantes remete muito ao que tudo de alguma forma faz parte de um programa de computador. Você, de início, é guiado por um espírito que te auxilia a salvar o jogo e a criar bonecas para compor sua equipe. Você compõe sua equipe com bonecas de diversos arquétipos, em que cada uma tem suas especialidades. No começo fiz um time básico com dois tanks, uma focada em cura e duas magas, mas, ao longo do jogo, fiz personagens mais diferentões.
É um jogo cheio de sistemas, mas te apresenta as coisas aos poucos, em que, ao mesmo tempo que tem muita coisa obtusa, com experimentação é compreensível.
No geral, achei esse jogo menos punitivo do que aparenta. No começo joguei de forma extremamente cautelosa, mas depois percebi que morrer não só é menos punitivo do que achava, como pode desbloquear sistemas que facilitam sua vida. Houve momentos em que pensei que o jogo estava sendo cruel e potencialmente teria que voltar save, mas, explorando um pouco, me vi em segurança. A minha primeira run inteira desse jogo foi um balanço ótimo entre não estar confortável, mas não me frustrar demais.
Comecei o jogo comparando-o com Shin Megami Tensei e Etrian Odyssey e, na real é que, com poucas horas, ele se revela pender mais para a filosofia de Etrian Odyssey. Digo isso porque é um jogo muito interessante em que você presta atenção no mapa, anota coisas e faz um trabalho de cartógrafo. Aliás, cartografia é um tema nesse jogo e é, em certo nível, tratado como algo transgressor em seu mundo. Quando a personagem Lilim fala de cartografia para mim, muitas vezes eu senti que o jogo dizia: “jogue fora das regras, procure e compartilhe o que achar na internet, se achar um exploit no jogo, use-o sem vergonha.”
Além de Lilim, encontramos alguns outros personagens que têm suas próprias questões e anseios. Em algum momento, é provável que você odeie alguns e se fascine por outros. São personagens bem falhos, complexos e perdidos em seus próprios labirintos. Sinto que identidade é um dos temas principais do jogo e, da forma como um dos personagens se angustia e se rebela com o seu “design original”, diria que disforia também está dentro da temática do jogo.
O jogo possui múltiplos finais, e boa parte deles diz respeito ao que esse labirinto é aos olhos de sua personagem.
Minha primeira run foi quase que totalmente sem ajuda, em que apenas tirei dúvidas pontuais. A partir do New Game+ busquei ajuda, compartilhei mapas, falei de coisas que encontrei e recebi direções. Testei e descobri coisas com algumas pessoas na internet, e essa experiência comunitária foi muito divertida. De certa forma, senti que o próprio texto do jogo incentivou esse tipo de abordagem.
A experiência da primeira partida e NG+ é quase a experiência de dois jogos diferentes. Enquanto a primeira vez que você joga a experiência é mais ou menos linear, já o outro é onde o jogo se abre de maneira surpreendente.
Atalhos, status de personagens e informações são retidos em cada nova partida, e alguns personagens até compreendem que não é sua primeira vez ali. Jogar atrás de novos finais envolve fazer coisas em ordem diferente, pular etapas e, às vezes, percorrer mais de um caminho. Minha primeira jogada durou cerca de 40 horas. A segunda em diante variava de 4 a 10 horas.
Conversando sobre o jogo, percebi que, mesmo na primeira vez jogando, muita coisa pode mudar de acordo com a classe da protagonista. E o jogo se permite apelar com conteúdo que potencialmente será apenas pós-jogo. Há puzzles que envolvem mapas sem a função de automap, e me vi desenhando o mapa à mão.
Também há todo um sistema complexo de alquimia usado para obter itens e fortalecer suas bonecas. Experimentando sozinho, descobri várias coisas, mas, conversando e vendo o que outros faziam, percebi que era relativamente fácil quebrar o jogo depois da primeira run.
Atualmente fiz quatro finais desse jogo e ainda sinto que tem bastante coisa para descobrir.
Vale dizer que o jogo lançou bem bugado, mas recebe atualizações constantes. Tive um bug que crashou o jogo. Mandei e-mail para a desenvolvedora, que me respondeu pedindo detalhes em menos de um minuto, e no dia seguinte veio com patch novo. Nem todos os finais estão concluídos. Inclusive, tem dois que têm um cliffhanger e um “TO BE CONTINUED” safado, o que dá a entender que desses finais ou vai vir uma grande atualização com mais conteúdo, um “Ato 2”.
Até pensei em esperar uma possível versão 2.0 para escrever sobre, mas a experiência que tive até o momento já me deu bastante o que falar.
Labyrinth.os é obtuso, antiquado, às vezes lento e pode frustrar, mas também é fascinante. Explorar e desvendar o labirinto, discutir sobre o jogo com uma pequena comunidade se formando, compreender sistemas e pensar no que esse jogo quer dizer foi um processo muito marcante para mim. É uma experiência pouco convencional e com certeza uma das mais únicas que tive este ano.
Labyrinth.os
DataErase
PC