Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Schrodinger’s Call é um jogo majoritariamente visual novel e com pontuais momentos que remetem a adventures point & click. O jogo conta uma história melancólica que se passa no limiar entre a vida e a morte, no qual você está preso nos últimos 21 nanosegundos de vida do planeta. Num tempo menor que um suspiro, toda a vida acabará, e a única coisa que resta é aceitar a partida.
Você acompanha Mary, uma garota sem memórias presa num quarto com um telefone. Mary descobre ser a “última confidente do mundo” e que cabe a ela telefonar para almas cujos arrependimentos e angústias a impedem de morrer em paz, ouvir seus anseios e salvá-las de suas dores, permitindo assim que possam partir em paz.
O começo pode parecer um pouco confuso, mas o jogo vai te apresentando bem todo conceito e ambientação.
Senti que este jogo se inspirou na pandemia, fui dar uma pesquisada e, de fato, a diretora do jogo declarou que este é o caso. Isolamento é um tema forte do jogo, e a busca por conexão e incapacidade de se conectar fisicamente também. Durante a pandemia, boa parte do planeta compartilhou a angústia de isolamento e usou diversas ferramentas para remediar o sentimento. É possível dizer que, pelo menos em alguns aspectos, boa parte do planeta ganhou algo em comum, algo com que ter empatia.
Apesar de tudo, sinto que a gente fala muito pouco sobre a pandemia. Não é incomum relatos de que 2020 e 2021 são borrões na memória de alguém. E algo curioso que veio à mente enquanto jogava é que o jogo, propositalmente ou não, aborda esse aspecto também. Todos os personagens estão inicialmente sem memórias, e suas resoluções e paz só chegam após lembrar de suas angústias e confrontá-las. O ato de querer esquecer os problemas e fingir uma normalidade é abordado no jogo, e é algo que sinto que muita gente faz com os eventos de 2020.
No jogo, suas principais ações serão realizar ligações, conversar com os personagens e anotar informações num caderno. Durante cada capítulo, você irá adquirir o telefone de uma pessoa e de algumas outras que possuem ligação a ela, e a dinâmica consiste em conversar com um personagem, ajudá-lo a lembrar de eventos, trazer informações para outro personagem e assim entendendo quem aquelas pessoas eram, quais exatamente são seus arrependimentos e angústias, o que levou àquilo e como lidar. A grosso modo, você pode classificar o jogo como um lindo simulador de fofoca.
Cada capítulo é centrado num personagem, que compartilha alguma dor com Mary. Ela não tem memórias, mas se identifica com a história de seus ouvintes e, no ato de ajudá-los, acaba descobrindo um pouco mais sobre si. Ao mesmo tempo que o jogo tem uma estrutura episódica separada em 5 capítulos, o mistério de quem é Mary é algo contínuo e que vai sendo construído do começo ao fim.
O texto do jogo é muito fácil de se engajar, intuitivo e achei tudo contado num bom ritmo. Não me senti perdido em nenhum momento por excesso de informação e tudo foi se revelando de um jeito satisfatório para mim. A arte linda do jogo e momentos muito caóticos em certas animações fortalecem diversos momentos narrativos. Algo que eu gosto muito é como o jogo te conta coisas não só através de escolhas que você faz, mas também com a ausência de escolhas; Mary não é um papel em branco, ela tem uma personalidade bem definida e suas próprias crenças, e muitas vezes as opções de diálogo limitadas ou a recusa que ela faz de dizer algo que o jogador escolheu, destaca a identidade da personagem e aonde a narrativa está te levando.
O único problema com texto e ritmo que tive com esse jogo foi a repetição. O jogo gosta de lhe fazer ver diálogos repetidos sob um novo contexto, repetir algumas informações e isso chega a ser cansativo. Mas, sendo honesto comigo, esse problema nem me incomodou tanto porque a repetição e ciclos também fazem parte do que o jogo quer contar. Não gosto do argumento de “esses problemas não são um problema, é tudo proposital”, mas coincidentemente ou não, o jogo se repetir muito em certos momentos conversa com parte das mensagens que ele quer passar. Não é à toa que parte do cenário de momentos críticos do jogo faz alusão à roda de samsara.
É muito difícil explicar por que a narrativa desse jogo foi especial para mim sem dar spoilers. O que eu consigo dizer de forma ampla é que cada capítulo deste jogo possui histórias com alta carga dramática, daquelas que não têm medo de exagerar nem de parecer brega. É aquele tipo de história que, nas mãos erradas, vira uma galhofa, mas em Schrodinger’s Call funciona bem, pois o tom está no lugar certo e o foco não está no drama e acontecimentos em si, mas nos sentimentos dos envolvidos. Mesmo dentro de um acontecimento gigante, o que você capta dos sentimentos do personagem em relação ao ocorrido são emoções singelas e genuínas. Mesmo não vivendo uma grande novela, é fácil se identificar com sentimentos comuns como insegurança, inveja de alguém ou desejo de afeto.
Durante o jogo todo, fiz questionamentos, me incomodei com coisas e ficava me perguntando aonde o jogo chegaria com essas indagações criadas em mim. O jogo propositalmente deixa lacunas abertas à interpretação e não explica tudo, mas o último capítulo abordou tudo que havia questionado ao longo do jogo de uma forma que me pegou de surpresa.
Eu não esperava ser tão impactado pelo jogo quanto fui. Ao final do jogo, eu estava tão investido naquele mundo e nos personagens que não teve jeito, quando os créditos subiram, minhas lágrimas desceram; chorei durante os créditos inteiros, daqueles choros feios de embargar a voz. Apesar de tudo, saí do jogo genuinamente feliz com a história que presenciei. Óbvio que, pela natureza da premissa, é uma história melancólica e pesada, mas dentro do que ela se propõe a ser e de forma coerente, sai tirando algo feliz de tudo isso.
Schrodinger’s Call é um daqueles jogos que me pegou de maneira pessoal. A forma com que ele abordou os temas, o jeito que a arte e o ritmo da narrativa foram usados para contar sua história me impactou demais. Dias após ter terminado o jogo, sigo pensando nele. Se dissesse que Schrodinger’s Call não foi minha coisa favorita do ano até agora, estaria sendo mentiroso.
Schrodinger’s Call
Shueisha Games
Acrobatic Chirimenjako
PC, Nintendo Switch