Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Quando Steins;Gate Re:Boot foi anunciado, assim como muitos, eu fiquei extremamente apreensivo e receoso com um suposto “remake” que possivelmente iria mudar completamente a história de uma das minhas narrativas favoritas, afinal, quando se lê o subtítulo “reboot”, já é de se imaginar as implicações que essa decisão poderá levar.
Eu adoro Steins;Gate, como muitos, meu primeiro contato foi com o anime de 2011, alguns anos após sua estreia, e também fui ler a visual novel algum tempo depois. É uma série pela qual tenho muito carinho e apreço, ainda mais se tratando de viagem no tempo, um dos meus temas favoritos. Steins;Gate instantaneamente se tornou uma obra muito querida para mim.
Porém, isso foi só com a história original, todas as tentativas da MAGES de expandir o universo de S;G nunca me interessaram muito, Steins;Gate 0, por exemplo, nunca clicou muito comigo, todos os OVAs, filmes, CD Dramas, versão ELITE, e entre outros nunca me atraíram e sempre pareceram muito desinteressantes.
Então, ao ver o anúncio de Steins;Gate Re:Boot, já me levantou o desânimo e a apatia que seria só mais uma tentativa da MAGES de tentar vender Steins;Gate de novo pela terceira ou quarta vez, e bom, meio que por parte é isso mesmo, visto que a empresa está meio mal das pernas, depois de seu último lançamento Anonymous;Code não ter ido tão bem quanto esperavam, o completo abandono da série de light novels Occultic;Nine que continua sem conclusão, e entre outras promessas nunca cumpridas da MAGES.
Eu consigo ver o desespero deles em querer voltar para sua IP mais popular, é compreensível visto a atual situação da indústria também, porém, após jogar o remake e pesquisar mais a fundo sobre o assunto, eu consigo entender qual é a visão que a MAGES tem para RE:BOOT, e para o futuro de Steins;Gate.
Originalmente lançada no Xbox 360 em 2009, Steins;Gate é uma visual novel desenvolvida pela MAGES (na época, ainda 5pb) e a Nitro Plus, que tem como temática principal viagem no tempo, onde nosso protagonista Okabe Rintarou acidentalmente acaba desenvolvendo uma máquina do tempo com um micro-ondas modificado e deve lidar com as consequências de suas decisões ao usar irresponsavelmente o aparelho.
Popularizado pelo anime de 2011 aqui no ocidente, Steins;Gate instantaneamente se tornou um clássico da última década, onde realmente se tornou um projeto multimídia, gerando filmes, OVAs, merchandise entre outros, se tornando a peça mais popular dos Science Adventures.
Abreviados de SciADV, o gênero consiste em Visual Novels e outras mídias da MAGES que se interconectam entre si, levando temáticas similares e parecidas entre os títulos, entre eles Chaos;Head, Steins;Gate, Robotic;Notes, Chaos;Child, Steins;Gate 0, Occultic;Nine, Robotics;Notes Dash e Anonymous;Code, todos os jogos se passam no mesmo universo, com o último jogo supostamente tendo sérias implicações com o restante da série, e os fãs da franquia estavam aguardando para a próxima continuação temática desse universo.
Em 2020, Chiyomaru Shikura, ex-presidente da MAGES e atual escritor e produtor da série, anuncia “Steins;???” Anteriormente conhecido como Steins;God, o novo título será uma sequência temática para Steins;Gate, porém, desde então pouco se sabe sobre esse projeto e seu atual estado, e se de fato estaria conectado à timeline da série principal. Avançamos para 2024, quando a MAGES anuncia o titular dessa crítica, Steins;Gate Re:Boot, um remake da visual novel original de 2009, que segundo eles construiria em cima dos fundamentos de Steins;Gate com novos gráficos e arte (lembrando que “ReBoot” e “Steins;???” não são a mesma coisa).
Por causa de seu subtítulo ambíguo, reboot, muito se especulava sobre o que seria esse jogo, afinal, com a nova onda de remakes disfarçados de sequências, era de se esperar que esse tivesse algum truque na manga para mostrar também.
E bom, após jogá-lo, eu diria que boa parte do meu medo e preocupação em relação a isso ficaram de lado. Eu ainda tenho minhas ressalvas, mas eu diria que Steins;Gate Re:Boot, mesmo que por um lado decepcionante e meio redundante, foi uma experiência mais positiva do que eu esperava.
Começando pela grande questão, por mais que seu subtítulo engane, não, Steins;Gate Re:Boot não é uma sequência disfarçada de remake ou um completo reboot do jogo original como o nome propõe, e por incrível que pareça é um remake bem fiel ao original, com algumas coisinhas “novas”, mas é fiel o suficiente, então um dos meus medos já se foi logo de cara.
Eu digo o fiel o “suficiente” porque o texto desse remake é baseado na versão ELITE de Steins;Gate, que utiliza cenas do anime e que possui um roteiro significativamente reduzido, e isso foi bem notável durante meu tempo com o jogo, eu terminei ele notavelmente bem mais rápido, levando em torno de 35h~40h para completar todas as rotas.
Sobre as rotas, temos uma nova adição no jogo “Hide in Darkness” que adapta o conteúdo do CD drama, dando mais ênfase à personagem Kiryu Moeka. Essa nova rota acontece no capítulo 9, onde não só tem conteúdo novo, como também restauram parte do script que havia sido cortado na versão ELITE deste capítulo.
E bom, a rota nova é decepcionante, além de não ser conteúdo novo de verdade, ela explora um cenário forçado demais e também não adiciona nada muito substancial para nenhum personagem, é bem esquecível no geral, mas sendo sincero também todas as rotas adicionais são bem qualquer coisa e mesmo na Visual Novel original eu nunca liguei muito para elas, além de que são todas bem curtas, levando pouco menos de 1h em cada.
Sobre os aspectos mais técnicos, a apresentação visual e melhorias de qualidade de vida aqui são excelentes e muito bem-vindas, todos os menus e interfaces estão visualmente mais impactantes com um estilo visual bem diferenciado, uma das adições que mais gostei no remake foi o flowchart do jogo que mostra a timeline de eventos separando em diferentes “linhas do tempo” (literalmente) que ocorrem durante a história.
Outra grande mudança aqui é o que eles chamam de “E-mote”, que são Live2D dos sprites dos personagens, que ganham animações realistas como se estivessem “vivos”, com a boca movendo, olhos piscando, gestos com a mão e por aí vai. Eu, pessoalmente, não sou muito fã desse tipo de implementação em visual novels, acho que fica extremamente uncanny e fora de lugar, mas devo admitir que após um tempo dá para acostumar e acaba ficando mais natural e tolerável.
O jogo também conta com novos arranjos para a trilha sonora de Takeshi Abo, que para mim foi um dos melhores momentos da minha experiência com o jogo. Eu já gostava muito da trilha sonora original e não tenho muito o que reclamar aqui. Também temos uma nova dublagem completamente refeita, que também está excelente.
Steins;Gate ainda é uma história muito culturalmente enraizada na década passada, e Re:Boot não faz muita questão em não mudar nenhum dos aspectos e decisões estranhas da narrativa. Eu ainda acho que eles não lidam lá muito bem com algum dos temas mais sensíveis do original, mas é em grande margem a mesma história do original, com os mesmos eventos acontecendo da exata mesma forma. Se você estava esperando algum twist ou algo muito diferente, esqueça, a MAGES jogou bem seguro nesse aspecto aqui, o que me leva ao questionamento do motivo por trás desse jogo e por que ele existe, e para quem é esse jogo.
E a verdadeira resposta para essas perguntas é que Steins;Gate Re:Boot só existe para preparar o terreno para o próximo jogo da série: “Steins;???”, como eu havia mencionado, será a sequência temática da série, que foi anunciada em 2020, e que possivelmente vai reutilizar muitos dos assets criados pelo RE:BOOT para tocar os jogos da série daqui para frente, principalmente a parte dos Sprites “E-Motes” que já haviam experimentado com eles em Anonymous;Code e agora são assets mais solidificados.
E para quem é esse jogo? É justamente uma tentativa de atrair um novo público e servir como uma recapitulação, e refrescar a memória para deixar tanto os fãs quanto os novos públicos preparados para futuros jogos da série. O problema é que não é o que os fãs de SciADV estavam querendo e, pelo que olhei, a grande maioria não está muito feliz com esse jogo existir. A impressão que fica é que a MAGES só largou mão de todos os seus outros projetos que os fãs estavam aguardando para focar na sua IP mais popular, e bom, é realmente isso…
É uma aposta ousada da MAGES, mas é justificável de certa forma. Eu acho que a resposta se isso vai dar certo ou não, só o futuro nos dirá, dependendo do que eles vão fazer com Steins;??? e de como vai ser a recepção tanto do novo público quanto dos fãs para esse remake.
Em conclusão, eu ainda assim recomendaria esse remake para quem quer experienciar essa história. As novas adições gráficas e qualidade de vida deixam a experiência mais confortável e agradável de ler, e é bom ter todas as rotas em um só pacote também. Lembrando que o jogo não está localizado em português, mas está disponível nas principais plataformas, e com o preço dele praticado aqui fica difícil recomendar, é um daqueles jogos que é bom esperar uma promoção.
Eu diria que não substitui 100% a Visual Novel original, o charme e o encanto dos sprites originais do Huke ainda carregam para mim, e também o fato de ter o script mais completo, então acaba virando mais uma questão de preferência visual mesmo, justamente por não mudar muita coisa, o jogo original ainda é completamente viável.
Steins;Gate Re:Boot é decepcionante em alguns aspectos, mas ele acerta bem mais que a versão ELITE, por exemplo. Mesmo com suas falhas, eu ainda me diverti relendo essa história, justamente pelos personagens e a narrativa serem tão envolventes, e isso ainda se mantém completamente aqui. E, por mais que eu não concorde 100% com as decisões sendo tomadas pela MAGES, eu ainda gosto muito de Steins;Gate e estou curioso para ver qual vai ser o futuro da série daqui para frente.
Steins;Gate Re:Boot
Spike Chunsoft.
MAGES./Chiyo St. Inc MAGES./Nitro Plus
PC, Playstation 5, Xbox Series S|X, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2
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