Crítica – Mortal Shell II

Por Arthur Tayt-Sohn

Nota: 9.5

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Desenvolvido pela Cold Simmetry, estúdio fundado por veteranos da indústria AAA em 2017, Mortal Shell II é a sequência do primeiro título do estúdio, lançado em 2021. O jogo na época chamou atenção pela sua estética e proposta, mas que acabou não sendo tão bom quanto o esperado. Você pode inclusive conferir nosso review do primeiro jogo clicando aqui.

A sequência do jogo, que é totalmente independente do título anterior e não exige conhecimento prévio, promete uma experiência muito mais completa e satisfatória.Tivemos a oportunidade de jogar antecipadamente Mortal Shell II e conto agora se ele é realmente tudo que promete.

O caos retorna ao mundo

Apesar de ser independente, Mortal Shell II inicia apresentando o evento final do jogo anterior. Algum tempo após a ascensão do escolhido, chega ao mundo a Mãe Umbral, uma criatura que rapidamente passa a ser venerada.

Algum tempo depois, uma corrupção assola o mundo, colocando uns contra os outros e levando a inúmeros conflitos. Os “ovos” da Mãe Umbral vão gradativamente se perdendo, até que sobre apenas um.

Sobrevivente desses eventos, você é o Arauto, uma criatura esbranquiçada e sem voz, que recebe a missão de recuperar os ovos da Mãe e cumprir o seu objetivo, seja lá qual seja ele.

Um mundo expandido

Mortal Shell II resgata boa parte do que foi feito no primeiro jogo. A proposta inicial é a mesma: você é uma criatura que tem o poder de habitar carcaças de guerreiros mortos para utilizar suas habilidades para cumprir seu objetivo. Essas carcaças mudam não apenas a aparência do protagonista como também suas habilidades.

O jogo segue o padrão de jogos do estilo, assim como seu antecessor. Combate cadenciado e desafiador, onde você precisa entender os padrões de movimentos dos inimigos e evitar erros para não ser punido. Nada muito diferente do que estamos acostumados a ver.

Com relação ao primeiro jogo, o estúdio fez algumas mudanças significativas. O número de carcaças é maior que o primeiro Mortal Shell, com consequentemente mais armas disponíveis. Cada carcaça possui habilidades ativas e passivas que alteram a forma de se jogar, de acordo com a preferência do jogador.

Alguns são mais tanks, focados em defesa e vida, outros mais ágeis e agressivos e por aí vai. As armas disponíveis também são variadas, indo de clássicas espadas, martelos, foices estranhas e até mesmo um alaúde.

Outras novidades que Mortal Shell II traz são a ausência da barra de vigor, a clássica stamina, e a adição das Pedras de Tar, acessórios que acrescentam efeitos passivos ou habilidades ativas, sendo algumas restritas para algumas armas.

Mecânicas do primeiro jogo também retornam, como o sistema de familiaridade com os itens do jogo. Por se tratar de uma criatura estranha a esse mundo, o Arauto vai ganhando mais “afinidade” com os itens comuns do jogo, como itens de cura por exemplo, e conforme você encontra mais desses objetos, efeitos adicionais são revelados.

Além disso, os itens podem ser utilizados ou equipados para dar um efeito passivo ao protagonista. Um item de cura de veneno, por exemplo, pode ser usado para remover o efeito negativo ou equipado para de forma passiva aumentar a resistência a veneno.

Essas combinações dão um leque de opções grande ao jogador e a evolução com relação ao primeiro jogo é gritante. Eu gostei da escolha de remover a barra de vigor, pois deixa o jogo muito mais agressivo, sem deixar de ser cadenciado e sem punir jogadores que jogam agressivamente de forma correta.

Outra barra importante é a de determinação, que permite usar habilidades. Semelhante à mana muito presente em outros jogos. Ela não depende de ser recarregada somente com itens, podendo ser preenchida atacando inimigos, reforçando o caráter agressivo do jogo.

As Pedras de Tar também são uma ótima adição. Com um número limitado de armas, elas aumentam a diversidade de opções para o jogador. Você não precisa criar mais opções de armas, já que as Pedras podem exercer essa função. 

Mortal Shell II consegue dar muita variedade de opções ao jogador, sem nos sobrecarregar de itens e informações. Você escolhe sua carcaça, sua arma preferida e combina isso com alguns itens até achar a build que melhor se adequa ao seu estilo de jogo.

O jogo mantém sua proposta de ser desafiador, afinal essa é uma das principais características desse estilo de jogo. Apesar disso, eu achei ele inicialmente menos desafiador que o primeiro jogo. Pelo menos na época que eu joguei, não sei se posteriormente ele foi balanceado.

Talvez pelo jogo contar com mais opções de builds, ou por eu simplesmente já estar acostumado com esse estilo de jogo, achei ele mais tranquilo que o primeiro. Inclusive durante o tempo que fiquei com o jogo, um patch já tinha sido anunciado com alguns balanceamentos de inimigos, itens e carcaças já para o dia do lançamento. Então imagino que isso resolva boa parte dessas questões pelo menos.

De qualquer forma, existe ainda um modo mais difícil desbloqueável, que não só torna o jogo mais desafiador, como muda todo o aspecto do mundo, revela novos inimigos e dá mais recompensas ao jogador.

No geral, achei o combate consideravelmente melhor que o primeiro jogo, contando com mais variedade e com um estilo bastante agressivo que eu gosto bastante. A variedade de inimigos também é maior, com padrões diferentes que exigem que o jogador entenda o padrão de ataques de cada um.

Mesmo os soldados normais não possuem todos exatamente os mesmos ataques. Há sempre algo diferente, um inimigo que faz uma finta que engana o jogador e faz ele perder o tempo o parry, recebendo muito dano. É um combate bastante satisfatório, notavelmente melhor que do primeiro jogo e que demonstra o quanto o estúdio ganhou de experiência nesses anos.

A exploração no jogo também é outro ponto que melhorou muito em relação a Mortal Shell 1. Enquanto o jogo anterior se passa em uma pequena área do mundo, que serve como um hub central para as dungeons, Mortal Shell II conta com um mundo aberto compacto e interligado de forma natural.

O Covil Lúgubre é a sua base principal, onde ficam os NPCs mais importantes, lojas, etc. Saindo dele, você irá explorar diversas áreas, desde fortalezas, vilarejos devastados, masmorras entre outros. Além de tudo que está à sua vista, existem diversas dungeons escondidas pelo mundo, que você precisa explorar para descobrir e não estão marcadas no mapa.

Mesmo o que é marcado no mapa precisa ser encontrado de alguma forma, exigindo atenção ao explorar o mundo. Eu fui surpreendido algumas vezes no jogo com itens e locais que estavam escondidos por alguns feitiços de ilusão, o que me deixou muito mais atento em minha exploração.

Durante a exploração você também encontrará os bastiões, que são os locais de recuperação e descanso do jogo. Esses bastiões podem ser purificados realizando desafios, dando mais recompensas ao jogador e liberando novos caminhos, além de permitir viagens rápidas. Mas você sempre precisará explorar primeiro novas localidades até ser possível realizar essas viagens rápidas.

Esse é outro ponto que é muito melhor que no primeiro jogo. Os locais são muito mais interessantes de explorar, o design tanto do mundo quanto dos dungeons são muito melhor trabalhados e tudo é conectado de forma mais orgânica e natural.

É esperado que você se perca em alguns momentos mas honestamente isso nunca foi algo frustrante pra mim. Conseguir chegar ao local que eu precisava era tão satisfatório quanto vencer os combates e eu particularmente gosto quando um jogo solta um pouco a mão do jogador para que ele encontre o caminho por conta própria, sem dar tantas indicações do que fazer.

Sombrio e brutal

Mortal Shell, desde o primeiro jogo, se destaca pela sua direção artística mais voltada para fantasia sombria, com toques de grotesco e puxado para o horror. E com essa sequência isso não é diferente.

O jogo não economiza na violência gráfica e visceral, no horror corporal, horror cósmico e agora trazendo mais alguns elementos, como inspirações em horror étnico e paganismo e uma dose de melancolia. Se black metal fosse um jogo, seria Mortal Shell II.

Logo no início do jogo vemos essa inspiração em elementos que lembram bastante o filme Midsommar, incluindo inclusive uma referência direta ao filme. Ao longo da jornada, vários outros elementos vão aparecendo.

E é claro que elementos das artes de H.R. Giger e de Zdzisław Beksiński estão presentes, sendo esses duas grandes referências do estilo. A inspiração para o protagonista, o horror corporal, a atmosfera melancólica e sombria, o estilo estético que mistura elementos biológicos e mecânicos, o surrealismo sombrio que envolve todo o jogo, e por aí vai.

É um mundo bastante rico, melancólico, brutal e paradoxalmente belo em diversos momentos, outra grande evolução com relação ao primeiro jogo. Me surpreendeu o quanto Mortal Shell II é muito mais interessante artisticamente que o primeiro.

Não só na parte visual, mas na construção do mundo como um todo. Na sua história, por mais que ela siga esse estilo de narrativa muito focada em leitura de documentos e diálogos, com muito pouca coisa expositiva ou narrada diretamente, mas ao mesmo tempo interessante.

Eu senti que de fato existe um mundo ali, coisas acontecendo, por mais que eu não entenda, e talvez nunca descubra, o que de fato aconteceu. E há uma série de segredos, diálogos que ocorrem em situações especiais, como conversar com alguns NPCs usando uma carcaça específica, revelando um pouco mais dos personagens e do mundo.

Há também a mecânica do vínculo com a carcaça, que não apenas fornece alguns bônus para o personagem, mas também revela mais do passado em vida daquele personagem, enriquecendo mais ainda a história do jogo.

Uma carcaça completa

No meu review do primeiro jogo, eu disse que o jogo era “uma carcaça meio cheia meio vazia”. Agora posso dizer que a carcaça está “completa”. Mortal Shell II aprende com seus erros e melhora tudo que já era bom no primeiro jogo.

O jogo precisa apenas de alguns ajustes de balanceamento e correções em alguns bugs que ocorreram durante minha gameplay, mas nada que prejudique de forma grave a experiência.

Eu não sei dizer o que aconteceu de lá pra cá, se foi o time que cresceu, ou se foi somente a experiência adquirida, mas é fato que essa sequência mostra todo o potencial do estúdio.

Mortal Shell II é a experiência definitiva da série da Cold Simmetry. Uma evolução gigantesca com relação ao primeiro jogo e, para mim, um dos jogos de ação mais interessantes desse ano até agora.

Nome do jogo:

Mortal Shell II

Publisher:

Playstack

Desenvolvedora:

Cold Simmetry

Plataformas Disponíveis:

Playstation 5

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