Crítica: Trails in the Sky 2nd Chapter

Por Pedro Ladino

Nota: 9.0

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Por mais que eu discorde do timing do lançamento dos remakes, afinal a série se encontra no meio de um arco e com um cliffhanger em aberto, é inegável o carinho e qualidade que a Nihon Falcom vem entregando com os relançamentos de Trails in the Sky. Novos e velhos desenvolvedores da Falcom se juntando para entregar um produto redondinho e com poucas mudanças, tirando o sistema de combate, mantendo-se fiéis ao que fez o jogo original se tornar especial. Então chegamos a Trails in the Sky 2nd Chapter, remake do segundo jogo e sequência direta de Sky 1st.

Um fato curioso é que, para mim, Trails in the Sky SC é o mais fraco da trilogia. Talvez seja uma opinião incomum na comunidade, enquanto o primeiro jogo normalmente costuma ser um grande alvo de críticas quanto ao seu ritmo mais lento, mas é algo que nunca me causou incômodo. SC, por outro lado, foi uma experiência conflitante para mim. Ele era melhor em vários aspectos, mas pior em outros, especificamente, vejam só vocês, por causa do seu ritmo. Assim como Trails in the Sky 1st, o remake do segundo jogo é praticamente fiel em adaptar sua história para a modernidade, e com isso tem seus prós e contras.

Trails in the Sky 2nd Chapter começa logo após de onde o primeiro jogo acaba, com Estelle acordando após Joshua revelar seu passado e ir embora. Estelle decide então continuar seu treinamento de Bracer a fim de encontrar Joshua e acabar com os planos da Ouroboros.

Um pequeno parêntese, que não necessariamente vai influenciar na análise do jogo, na perspectiva de um veterano, retornar a Second Chapter pode ser um pouco enfadonho, não por conta do jogo em si, mas sim por causa do quão formulaica a série se tornou em sua estrutura, e aqui foi o começo disso. Como falei, não é um ponto que levarei em conta, mas é de pensar que, em uma franquia com 13 jogos, essa mesma estrutura tenha se repetido em mais da metade dos títulos. Só mostra o quão estagnado Trails ficou em diversos aspectos, e que a raiz do problema esteja presente desde cedo.

Mudança de tom

A primeira coisa que se destaca entre os dois jogos é a sua mudança de tom. Sky 1st é uma aventura, com nossos dois jovens indo em uma jornada por Liberl, enquanto treinavam para serem bracers seniors e, ao mesmo tempo, procurar pistas de seu desaparecido pai. Sky 2nd já abre mais dramático, devido ao término do primeiro jogo, mas também é o começo de um grande épico contra um grupo de vilões.

Saindo de um golpe de estado promovido pelo exército, aqui nós temos como inimigos a Ouroboros, a grande equipe de vilões da série (algo que nem sempre serão, mas isso é papo para o futuro), e temos a presença de alguns personagens bem mais espalhafatosos do que o Coronel Richard e seus capangas.

Também é estranho para mim rever esses personagens em sua forma introdutória e ser relembrado do quão maníacos, especialmente Walter, eles eram.

A introdução desses personagens é o grande foco da primeira metade do jogo. Cada capítulo da parte inicial de Sky 2nd é direcionado a eles e como eles refletem alguns de nossos amigos. Então, falando novamente de estrutura, você acaba retornando para todas as cidades já visitadas e descobrindo quem e quais peripécias estão acontecendo ali.

Falando desse jeito, parece até que é algo ruim, mas muito pelo contrário. Apesar de todos os capítulos “serem basicamente o mesmo”, o jogo faz um bom trabalho de usar esses personagens e acontecimentos para expandir os membros da nossa equipe que não tiveram tanto destaque anteriormente, e a presença da Ouroboros tem grande influência nisso. É uma organização diversas vezes difícil de ser compreendida. Acho que nem a Falcom em si sabe direito o que fazer com ela em vários momentos, mas aqui a presença e motivos fazem bastante sentido.

Em meio a tudo isso, temos Estelle, que continua perfeita. É uma das personagens mais fortes em termos de personalidade da série e sinto que é algo em que a Falcom parece tropeçar nos vindouros jogos. É muito fácil comprar suas batalhas e motivos e torcer para dar tudo certo até o final.

Estelle é largada sem rumo após os acontecimentos de Sky 1st. Não apenas o quê, mas como aconteceu. Desamparada e em negação, ela se desespera a princípio, mas ela não é apenas mais uma jovem inocente. Agora ela, uma bracer de verdade, precisa ter responsabilidades, mas também sem ignorar seus conflitos e sentimentos pessoais. E isso é muito bem executado, tanto no original quanto no remake. Estelle é ótima. 

Kevin, meu onion bro favorito, é introduzido aqui, e fiquem de olho nele, é um dos melhores bonecos dessa franquia.

É realmente especial rever várias das cenas icônicas refeitas em 3D, e em um ótimo 3D. Não consigo parar de elogiar o quão eficaz é a FDK, a engine própria que a Falcom utiliza, e o quão rápido eles aprimoraram o uso dela. Um dos grandes acertos da companhia foi não ter se rendido a um motor gráfico de terceiros e conseguir desenvolver algo próprio, que reflete as características e estilos da empresa.

Quase 100% fiel

Assim como em Sky 1st, aqui nós temos alguns conteúdos extras, que não estavam no jogo original. Entre elas, algumas sidequests novas (uma muito boa e outras completamente descartáveis), a presença de um certo boneco retcon em um determinado momento chave da história, e uma sessão nova durante a dungeon final que é completamente desnecessária não só pela narrativa, mas por ser uma piscada de olhos barata para o futuro. Fora isso, o jogo é praticamente 1:1 em relação ao jogo original.

A mudança mais drástica continua sendo no sistema de combate, que é praticamente o mesmo do primeiro remake, usando um combate híbrido de ação e combate em turno. Mas eu queria tirar um tempo para falar sobre a mecânica que teve mais presença aqui: o Rage Boost e suas variações. 

Em Sky 1st, certos inimigos tinham acesso ao Rage Boost, que é basicamente um grande buff em seus status, especialmente em força e velocidade. Aqui, vários dos mobs e TODOS os bosses têm. Inclusive alguns contam com variações, como, por exemplo, os Enforcers da Ouroboros, que possuem o Enforcer Boost. É algo bastante irritante, ao mesmo tempo que oferece uma dificuldade extra, algo que a série peca desde o primeiro Cold Steel. A combinação de Rage Boost e S-Break é uma receita para a revolta.

O sistema de quartz ainda é meu sistema favorito da série, com o de Daybreak/Horizon vindo logo atrás. É fácil, intuitivo e muito legal de se mexer e criar algumas builds. Caso não seja seu cup of tea, o autoequip funciona muito bem, especialmente se você joga na dificuldade normal ou hard. Aqui nós temos acesso a mais quartz, a mais acessórios, mas nada foge muito do padrão estabelecido em Sky 1st. Algumas mecânicas que só liberavam na segunda metade do jogo anterior já estão disponíveis logo de cara.

Grande escala

Em minha crítica de Sky 1st, eu mencionei minha preocupação em relação ao tamanho das áreas do jogo e como isso iria acabar se refletindo em um determinado capítulo desse jogo. Não gosto de quão grandes as áreas ficaram, e, mesmo podendo usar a viagem rápida, ainda tinham momentos em que o jogo bloqueava o uso desse recurso para manter a consistência na travessia, além de adicionar elementos novos via vozes ativas (ocasiões em que os personagens falam algo fora das cenas ou interações com NPCs), então me perguntava como o capítulo 8 seria traduzido em Sky 2nd e, bom, posso dizer que é consideravelmente melhor aqui.  Como imaginei, a gente ainda precisa caminhar a pé diretamente aos pontos, mas, assim que chegamos lá, a viagem rápida é liberada. Isso altera consideravelmente o ritmo do capítulo e para melhor, já que temos sidequests que necessitam de bastante travessia.

Isso também se reflete na dungeon final, em que, no jogo original, nós precisamos ficar vindo e voltando até o hub em prol de obter certas cenas que acabam sendo perdidas. Isso é algo, inclusive, que eu queria que mudassem nesses jogos. A gente só pode usar quatro personagens por vez, enquanto os outros ficam em stand-by. Isso faz com que diversas e importantes interações sejam perdidas. Tirando um momento do jogo, em que o jogador é avisado de que x personagem é requerido, esse aviso não existe na dungeon final e pessoas podem acabar perdendo muito do desenvolvimento de alguns personagens, amigos e inimigos.

Falando na dungeon final, a escala desse negócio é algo de louco. Eu já imaginava que seria grande, algo que já era em SC, mas, nossa senhora, é gigante e aqui eu não falo como algo negativo. É para ser assim e eles transportam essa sensação com maestria. Eu preciso de algo assim no arco atual, já que a última vez que fizeram algo desse tamanho foi em Trails to Azure, e agora eles têm a tecnologia para isso.

Em termos técnicos, esse jogo se sobressai bastante. As animações estão melhores do que nunca, e de verdade espero ver isso refletido também em outros títulos da Falcom, não só Trails. Esse ano tivemos o lançamento de Kyoto Xanadu no Japão, que foi um título B, então dá para ver que muita coisa foi negligenciada.

A localização, dessa vez, não tenho o que reclamar. Em Sky 1st, grande parte das minhas críticas foram em relação à terminologia, mas também ao quão cru o roteiro era. Aqui, além de termos mais do que três pessoas trabalhando na tradução, a Gungho aproveitou o lançamento do jogo e lançou um patch para o jogo anterior, corrigindo vários dos erros, deixando toda a terminologia consistente com o restante da série. O texto em Sky 2nd é melhor e flui muito bem.

Sobre a trilha-sonora, eu mantenho os mesmos sentimentos que tive em relação às músicas de Sky 1st. Alguns remixes são bastante seguros, outros causam uma estranheza, alguns são obras-primas reencarnadas, e tem uns que são bem tristes. Ou seja, é um som que a Falcom moderna produz com regularidade, seja com a participação de terceirizados ou não.

Enfim, que venha a sequência de Trails beyond the Horizon ano que vem, mas também espero que a Falcom refaça Trails in the Sky the 3rd. Não apenas é um dos melhores jogos da série, mas também um dos mais importantes para o futuro da franquia.

Não há muito o que falar sobre Trails in the Sky 2nd Chapter, a não ser o quão especial ele é. Uma das melhores histórias dos JRPGs agora está modernizada e disponível para todo o mundo. Desfrutem.

Nome do jogo:

Trails in the Sky 2nd Chapter

Publisher:

Nihon Falcom, GungHo Online Entertainment

Desenvolvedora:

Nihon Falcom

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 5, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2

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