Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
A parte mais importante da mistura de múltiplos gêneros em um jogo é a intersecção deles. Quanto mais diferentes são os elementos trabalhados, e menos espaço se cria nessa sobreposição, maior é a chance de que o resultado será algo, no mínimo, interessante. Quando Village in the Shade foi anunciado como uma mistura de jogo de fazendinha e de terror, não conseguia nem imaginar como ele faria bom uso desses gêneros praticamente antitéticos, mas conceitualmente isso me gerou grande interesse. E agora, após 60 horas vividas naquela vila, posso afirmar que a união dessas ideias superou todas as minhas expectativas para suas partes individuais, resultando em um jogo muito mais profundo do que pode parecer.
Como o nome sugere, o foco central de Village in the Shade é Kagatsu, uma pequena vila tradicional japonesa que vive isolada em meio às montanhas. O protagonista acorda um dia em suas redondezas e, após ser reconhecido como a criança descrita por uma lenda que viria para salvar a vila, se torna parte da mesma e passa a cuidar de um pequeno terreno. A história, então, começa a se desenrolar com o passar de cada dia, integrando-a muito naturalmente à sua progressão na sua fazenda – e ela é, justamente, o ponto de intersecção entre a parte de fazendinha (de dia) e as seções de terror (à noite). Isso não se aplica ao modo que remove as partes assustadoras, o Village in the Sunshine, mas não o recomendaria, pois, como você verá a seguir, o que torna esse jogo especial é justamente a interação entre esses opostos.
No começo do jogo, você é introduzido a 8 regras que ditam a convivência em Kagatsu. Elas vão desde coisas mais óbvias, como “coopere pelo bem da vila”, até as que você não tem certeza se quer saber da origem, como “não responda às vozes da montanha”. Essas regras estabelecem um mistério central para o jogador e acabam sendo um ponto de partida para abordar os moradores e seus segredos, criando uma atmosfera acolhedora e sinistra que lembrou meu aspecto favorito de Higurashi When They Cry. A progressão do jogo acontece conforme você vai lentamente desafiando essas regras e descobrindo o que exatamente elas estão tentando te prevenir de fazer. Um exemplo disso é a primeira delas, “não saia de casa após as 23 horas”, que você logo descobre existir porque a vila fica cheia de yokai nesse horário.
Graças a essa progressão, a narrativa assume um aspecto quase episódico, em que cada regra explora um arco semifechado sobre a vila ou algum de seus moradores. Isso faz com que a lenta progressão ao longo dos dias não se torne exaustiva, já que você recebe peças substanciais da história com uma boa frequência. O contraponto aqui é que os vários mistérios são tão bem construídos que a solução/explicação eventual da maioria deles não é tão satisfatória, mas felizmente, ao menos a espinha dorsal que conecta todos eles conseguiu me surpreender, mesmo já com altas expectativas. Além disso, os temas de tradição, religiosidade e convivência em uma pequena comunidade são abordados de forma muito interessante aqui – clicando especialmente comigo, que cresci em (e carrego traumas de) uma cidade pequena de interior bem religiosa.
Não posso dizer como o aspecto de fazendinha de Village in the Shade se compara a jogos similares, pois esse não é um gênero que eu costumo jogar, mas o que eu posso afirmar com tranquilidade é que ele é muito maior e mais profundo do que eu esperava – até um pouco em seu detrimento. Isso porque, mesmo te ensinando várias de suas mecânicas de forma bem prática ao longo de vários dias, existem muitas delas que são particularmente úteis da metade em diante e que nunca são ensinadas explicitamente. Nesse ponto, o jogo lembra um pouco a progressão de Minecraft, onde você tem receitas e dicas de como começar, mas existem tantas possibilidades do que fazer depois disso que só é possível descobrir muitas delas trocando informações ou lendo uma wiki – algo que, durante meu tempo jogando o jogo sob embargo, não era possível fazer. Ainda assim, quando é possível encontrar informações online, eu não sou contra esse tipo de progressão, mas Village in the Shade é um jogo um pouco impiedoso com sua economia se você não aprende como ela funciona, o que me custou alguns dias sem progresso, apenas juntando dinheiro para itens importantes.
O que também dificultou um pouco esse processo de domínio da minha produção foi o número assustador de itens que podem ser feitos, dos quais a maioria não tem uso prático no jogo e também não compensa economicamente. Para ilustrar, supondo que uma estação específica tenha 8 tipos de semente para cultivo, a princípio é necessário levar em conta o preço e o tempo de crescimento de cada uma delas. Uma vez que você tenha cultivado suas escolhidas, vender as frutas e vegetais diretamente não compensa, então a melhor escolha é processá-las através de alguma de suas máquinas. Cada uma delas pode ser processada de forma diferente entre coisas como uma câmara de desidratação, um moinho, um extrator de óleo, uma defumadora, um barril de conserva – dentre outras. O aumento no preço de revenda varia muito entre tipos de processamento e tempo que eles levam, além de vários processados ainda servirem unicamente para serem cozidos com outros ingredientes. Agora leve em conta que, além do cultivo de sua fazenda, você também pode pescar e caçar, e que essas carnes também podem ser processadas da mesma forma, acho que é possível entender o quão exaustivo e intimidador esse jogo pode ser. Mas como disse antes, o custo de não fazer as coisas de forma otimizada é apenas mais tempo focado na fazenda, sem progresso na história. Então, quando entendi melhor o que funcionava pra mim e mantive um fluxo constante de lucro lá pelo terço final, admito que foi extremamente recompensador.
Outro aspecto essencial do jogo são as melhorias que você faz em seu equipamento, e, para isso, você precisa coletar material em dois lugares diferentes. O primeiro, que te permite melhorar suas ferramentas, é uma pedreira que funciona como uma grande dungeon onde você progride de 10 em 10 andares, derrotando monstros e minerando pedras no caminho. Esse é talvez o aspecto do jogo que mais parece estar lá só por “obrigação” do gênero, já que o ato de coletar minérios é tão básico e nem os inimigos apresentam qualquer ameaça real. Além disso, a pedreira é um dos poucos lugares praticamente não utilizados durante a narrativa, o que faz dela uma peça estranhamente deslocada de todo o resto – mesmo que ainda tão inofensiva. Já o segundo lugar é a própria vila durante a noite, onde você consegue material para desbloquear novas máquinas e habilidades para seu personagem, além de poder aumentar sua vida e sua energia.
Frequentemente, de forma aparentemente aleatória, seu personagem é acordado no meio da noite por batidas na porta e você pode sair pela vila. A exploração é quase sempre opcional, mas voltar a dormir vai te privar de coletar materiais e segredos muito importantes para seu dia a dia. Toda noite tem um yokai “principal” com mecânicas próprias que vai navegar a parte central da vila, enquanto existem aparições menores que permeiam os arredores da mesma. Desenvolvido pelo time dos Yomawari, jogos simplesmente aterrorizantes onde você só pode fugir das aparições, a noite de Village in the Shade pode ser – especialmente no começo – igualmente assustadora de navegar. O diferencial aqui é que todo yokai pode ser derrotado com uma mecânica meio puzzle pouco intuitiva, e sua única consequência por morrer é ser forçado a perder o resto da noite e ir para o dia seguinte. Enquanto isso, parece trabalhar contrário a atmosfera de terror, na verdade, é uma forma eficiente de te encorajar a experimentar contra as criaturas que, inevitavelmente, perderiam o fator medo devido à exposição prolongada.
Além dos yokai, a vila também tem várias aparições e eventos que funcionam como mini puzzles para serem resolvidos. Essas aparições podem exigir desde itens específicos a ações feitas durante o dia, e frequentemente precisam de mais de uma noite – ou até estação – para serem resolvidas. Ficando majoritariamente na periferia da vila, elas funcionavam como boas variações na fórmula dos yokai “principais”, e muitas delas eu não descobri como resolver nem após terminar o jogo. Isso tudo dá um tom de survival horror para as noites que, ainda que com poucas consequências, as manteve no mínimo interessantes, mesmo em meio à repetição de um jogo tão longo.
E enquanto os yokai durante a noite funcionam um pouco como chefes, o jogo tem chefes propriamente ditos em alguns pontos da história. Dado o quão sagazes são algumas mecânicas dos yokai, é um pouco decepcionante que os chefes de verdade sejam tão básicos na maior parte, usando o sistema Nintendo de fugir deles o suficiente até abrir uma brecha para ataque e derrotá-los no terceiro. Até um dos chefes finais, que tem um dos designs mais legais do jogo todo, só é uma versão maior e mais cheia de efeitos dessa mesma estrutura.
Quem já jogou Yomawari vai perceber que o estilo muito característico do estúdio está presente (e ainda mais bonito) em Village in the Shade. Os cenários de uma vila rural tradicional japonesa nesse estilo feito à mão nunca deixavam de surpreender ao longo das diferentes estações, enquanto o contraste entre o fofo dos personagens e os horrores dos yokai à noite está ainda mais desconfortável – num bom sentido. E, complementando tudo isso, o jogo tem um design de som surpreendentemente detalhado, onde o mero ato de andar sobre diferentes objetos produz uma variedade de sons maior que a média. O uso do som para criar a atmosfera assustadora da noite também é impecável, especialmente com os perturbadores grunhidos e gemidos das criaturas antes que elas apareçam sob a luz de sua lanterna. Até mesmo a trilha sonora é um destaque aqui, com uma variedade grande de músicas para diferentes horários e estações que em nenhum momento me cansou. Visuais e sons imersivos como esses contribuem imensamente para tornar Kagatsu uma vila tão intrigante e memorável.
No começo do jogo, Rin, uma espécie de prefeita local, te dá o objetivo: “torne-se parte da vila”. Com o tempo, você assume outros focos e, se abrir sua lista de missões, percebe que ela está lá constantemente, meio que como um objetivo final após se aproximar dos moradores e descobrir mais sobre aquele lugar. Ao final do jogo, durante uma sequência de créditos animada e bem tocante, me veio a cabeça que eu – a pessoa jogando o jogo – sentia que tinha cumprido aquele objetivo. Village in the Shade me agarrou com o quão fácil era me perder nele, seja pela belíssima apresentação, pelo gameplay de constantes “só mais um dia”, pelos moradores tão multifacetados e carismáticos, ou até por como sua narrativa se conecta constantemente e vai a lugares surpreendentes. Ele não é um jogo de fazendinha tão sólido quanto os expoentes do gênero, nem um jogo de terror tão bom quanto os próprios Yomawari; mas é na pequena intersecção entre os dois gêneros que ele cria algo capaz de se sustentar como uma experiência tão única e marcante.
Village in the Shade
NIS America, Inc.
Nippon Ichi Software, Inc.
PC, Playstation 5, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2
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