Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Em seus mais de 30 anos de história, uma constante da série Ace Combat foi como ela é gostosa de jogar. O gameplay rápido e preciso, as constantes disputas aéreas com inimigos desafiadores e as fases com escala gigantesca para pontuar a narrativa estão aí desde o primeiro jogo, o que garante que mesmo os “piores” ainda sejam pelo menos muito sólidos. Em contrapartida, o que não é constante entre seus 9 jogos numerados é o que gira em torno dos momentos em que você está disputando os céus – particularmente as narrativas. A forma com que cada jogo (especialmente a partir do 3) conta sua história de formas, pontos de vista e em escalas diferentes tornou esse o aspecto mais interessante desses jogos para mim, e grande parte da razão do porquê considero essa série tão especial. Como esperado, Ace Combat 8: Wings of Theve segue essa tradição à risca e traz, junto de um excelente jogo de pilotar jatos, uma história coberta com uma inesperada camada de realismo.
Aqui o jogo te coloca mais uma vez na pele de um piloto anônimo em meio a uma nova guerra, porém, dessa vez, você participa de um esquadrão liderado pelo titular Wings of Theve, um piloto lendário que se torna um símbolo de esperança para o povo em meio a um conflito tão devastador. O problema é que Cope, o piloto em questão, nunca derrubou uma aeronave inimiga e é apenas proficiente em fugir estrategicamente para manter seu esquadrão vivo – o que faz do lendário Wings apenas uma jogada de marketing militar. Na sua primeira missão com Cope, vocês são emboscados por um esquadrão inimigo e ele acaba morto, o que leva seus superiores a te repassar o título do piloto líder e a responsabilidade de manter seus companheiros – e a esperança de um povo – vivos.
A premissa de Ace Combat 8 é uma das mais elaboradas da série até então, e abre espaço para o jogo trabalhar temas como propaganda em tempos de guerra, a influência de redes sociais na percepção da realidade e interferência de grandes corporações nesses conflitos em uma eterna busca por lucros. São temas, na maior parte, familiares à série, mas que nunca antes haviam sido abordados de um ângulo tão pessoal como aqui – coisa que acontece, principalmente, pelas cutscenes em primeira pessoa. Isso porque, fora das missões no céu, o jogo frequentemente te insere em meio a seu esquadrão e outros aliados nessa perspectiva, o que dá uma dimensão muito mais intimista e impactante para os eventos da história. A construção da sua relação com esses personagens (e a observação da relação entre eles) acaba sendo o pilar emocional da narrativa, então essa forma de contar sua história (algo que muda praticamente todo jogo da série) se solidifica como um dos pontos altos do jogo – mesmo que às vezes a falta de agência do jogador, além de só olhar em volta, trabalhe contra pontuais cenas mais ambiciosas de ação.
A escolha dos temas abordados pela história é particularmente interessante pelo posicionamento de Ace Combat 8 na linha do tempo da série, já que ele se passa uma década antes do excelente Ace Combat 3: Electrosphere (a versão original japonesa, não a reimaginação bizarra que saiu no ocidente). Servindo como uma ponte mais direta entre o aspecto mais realista dos jogos até então e o mundo completamente futurista do 3, não esperava ver a incorporação de tecnologias modernas que associamos com um futuro distópico – essencialmente tudo que gira em torno da internet e sua onipresença em nossas vidas – mas que não tinham a mesma significância quando o futuro de Electrosphere foi escrito. Para além da forma com que essas tecnologias são utilizadas nesse jogo, isso me deixa ainda mais empolgado para o que vier a seguir para a série, seja um remake do 3 ou algo novo.
Para quem já jogou o resto da série, esse maior protagonismo do seu esquadrão na narrativa remete muito a Ace Combat 5: The Unsung War, então não é surpresa nenhuma que ele traga de volta as interações com seus parceiros nos combates. Aqui você pode mais uma vez dar comandos de formação e responder perguntas com sim ou não enquanto voa, o que contribui bastante para que você sinta a presença de seus aliados durante as missões. É uma pena que essa mecânica de “conversa” não tenha usos mais criativos, como algumas fases do 5, porém ela ainda cumpre bem o papel de te manter atento a seu esquadrão e te dar mais agência nas interações.
O resto do gameplay é, em grande parte, apenas expandido sobre a fundação muito sólida estabelecida em Ace Combat 7: Skies Unknown. Com exceção de algumas mudanças pontuais, das quais um aumento da sensação de peso dos jatos (especialmente durante um high-G turn) é a mais notável, voar em Ace Combat 8 se mantém preciso e recompensador. Tendo jogado no PlayStation 5, inclusive o feedback háptico nas diferentes vibrações, que acontecem desde quando você está pilotando até cutscenes de briefing, trouxe uma imersão bem surpreendente ao jogo. É nesses momentos que você percebe como a vibração, uma tecnologia de mais de 30 anos no meio dos videogames que frequentemente passa despercebida, pode incrementar a experiência se bem implementada com os avanços de controles modernos.
Outra coisa que Wings of Theve herda de seus predecessores é o excelente design de fases. Com 30 delas – o maior número em um jogo numerado até agora – o jogo tem tempo de sobra para incluir desde as mais típicas para a série até os maiores espetáculos visuais dela. Não acho que houve uma fase em que eu tenha terminado e pensado: “não pretendo jogar essa de novo tão cedo”, o que é ainda mais significativo pelas fases que exigem uma contagem de pontos mínima para você vencer. Enquanto o 7 parecia fazer um trabalho um pouco pior que seus antecessores com esse tipo de fase, o 8 faz um trabalho excelente de balanceá-las e adicionar momentos de narrativa para que elas se pareçam mais com as tradicionais. No geral, a qualidade consistente desse jogo com um número tão alto de missões é uma de suas qualidades mais impressionantes.
E ainda no tópico de coisas que ele melhora em relação ao 7, a aquisição de novas aeronaves e peças através da aircraft tree parece ter sido mais balanceada para a progressão inicial do jogo. Até a escolha de jatos aqui ganha uma nova dimensão, já que – assim como no quinto jogo – você também é responsável por equipar seu esquadrão, o que me incentivou a buscar um caminho além de uma progressão em linha reta para o melhor tipo de jato no fim da árvore. Infelizmente, dessa vez, se falta muito pouco dinheiro para desbloquear algo que você precisa, não é possível dar um pulo no multiplayer para jogar uma partidinha e completar o valor, já que agora a aircraft tree é exclusiva da campanha.
O último grande trunfo de Ace Combat 8 é, para a surpresa de ninguém, sua apresentação. Seus visuais, já muito bonitos no 7, são ainda mais impressionantes durante a variedade de locais pelos quais você passa. Os personagens nos trechos em primeira pessoa também são incrivelmente detalhados, a ponto que eles parecem ter ido um pouco longe demais, já que a performance dessas cenas não é das mais consistentes. Até onde esses jogos sempre entregaram excelência, esse jogo consegue impressionar, com uma trilha sonora que está entre as melhores da série, e cujo uso nas fases finais torna elas algumas das mais memoráveis para mim.
Algo que me pegou um pouco de surpresa em Skies Unknown foi como o modo online dele era divertido. Simples e direto, você buscava salas, equipava um jato dentre os que liberou na campanha e rapidamente estava em uma partida de algum tipo de PvP. O modo online de Ace Combat 8 é praticamente um segundo jogo dentro dele, em que qualquer resquício de simplicidade é substituído por uma progressão lenta e complexa, um lobby de avatares 3D com performance pífia e uma miríade de moedas e formas de gastar dinheiro real para cosméticos ou acelerar a progressão. É a aplicação do modelo mais tóxico e irritante de modos multiplayer modernos a um estilo de jogo onde o que é vendido como “conveniência” (novos jatos e peças para melhorá-los) é a base na qual a experiência é construída. Um modo que antes oferecia mais da experiência que te conquistou na campanha, “elevado” a um que quer te vender essa mesma experiência e umas roupinhas maneiras para o seu avatar. A maior variedade de modos, particularmente os co-op e um que aparece de tempos em tempos, que funciona como uma raid contra inimigos gigantescos, é sim legal. Mas ser tratado como um consumidor, em vez de um jogador,é o que me manteve longe de jogos online nos últimos anos, e não vai ser diferente aqui.
É muito raro eu ter expectativas altas para um jogo e ele conseguir superá-las, mas Ace Combat 8: Wings of Theve foi um desses casos. Um jogo incrivelmente divertido, que expande seu universo de formas interessantes e que consegue contar uma história relevante e humana, que só é feito imperfeito por um modo online que adota o que há de pior nesse meio. Ainda assim, é um título que certamente disputará um lugar no topo dos favoritos da série – lugar de concorrência acirradíssima. E, fazendo jus a seu subtítulo, esse é um jogo que me traz grande esperança para o futuro dessa série.
ACE COMBAT 8: WINGS OF THEVE
Bandai Namco Entertainment Inc.
Bandai Namco Aces Inc.
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