Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Surgido de uma parceria dos estúdios brasileiros Statera Studios, desenvolvedor de Pocket Bravery, e Wired Dreams, selo do desenvolvedor Thiago Oliveira, de jogos como Frogue e Undergrave, o jogo Arashi Gaiden é um spin off do jogo brasileiro de luta da Statera Studio.
Uma parceria inusitada e que chamou minha atenção, já que Arashi Gaiden surge como spin off de um jogo de luta, em parceria com um desenvolvedor de jogos táticos por turno. Por já acompanhar há algum tempo o trabalho do Thiago, fiquei bastante curioso com o resultado desse trabalho.
Tivemos a oportunidade de jogar Arashi Gaiden e conto agora como foi minha experiência.
Ambientado no mundo de Pocket Bravery, Arashi Gaiden conta a história do ninja Shinji Arashi. Ao receber uma visita inesperada do seu antigo mestre Lobo, você é contratado para recuperar artefatos místicos que caíram nas mãos de um grupo criminoso.
Você deverá atravessar diversas fases com dezenas de “salas”, cada uma delas com um design único e com inimigos e armadilhas diversas. Para avançar para a próxima sala, é necessário eliminar todos os inimigos ou resolver alguns quebra-cabeças em alguns casos.
O jogo funciona como um jogo tático de turno, mas ao contrário de avançar “casas” específicas, Arashi Gaiden funciona como um dash n’ slash. Ou seja, você irá sempre avançar até encontrar o primeiro obstáculo na sua trajetória.
Os inimigos, por sua vez, possuem movimentos mais variados. Alguns vão se movimentar uma ou duas casas, outros terão um alcance de movimento maior e alguns deles ficarão até mesmo parados atacando de longe.
É preciso planejar a sua rota pelas salas, analisando o design de cada uma delas para encontrar a melhor forma de eliminar todos os inimigos. Essa é a mecânica principal do jogo e que você irá utilizar em todos os desafios.
Posteriormente iremos encontrar habilidades especiais, como a shuriken, o desvio de rota, o teletransporte e as correntes do tempo. Cada uma delas alteram a forma de se jogar e criam um leque maior de opções de estratégia para avançar.
Por exemplo, a shuriken permite atacar os inimigos a distância ou ativar armadilhas que estiverem pelo mapa. O desvio de rota permite que você altere a sua direção de movimento, podendo se locomover para locais mais distantes em um único turno ou eliminar mais inimigos.
Arashi Gaiden é uma combinação dos trabalhos anteriores do Wired Dreams, mas com alguns novos elementos. Isso exigiu um trabalho bastante aprimorado de level design, para que o jogador tenha a liberdade de escolher a melhor estratégia com os recursos que são adquiridos.
O jogo começa com mapas mais simples e conforme vamos adquirindo novas habilidades, eles vão ficando mais complexos. Em um primeiro momento os mapas de certa forma exigem que você utilize habilidades recém adquiridas, como forma de aprendizado. Mas com o tempo você vai tendo mais liberdade para escolher como quer avançar.
Além disso, o jogo vai progressivamente ficando mais desafiador, conforme você adquire mais recursos e entende melhor o funcionamento do jogo. E ele chega ao ponto de ser realmente desafiador, exigindo que você planeje com cuidado cada movimento e administre bem suas habilidades e sua vida.
Enquanto nas primeiras salas eu consegui de forma bem tranquila o ranking mais alto, conforme eu avancei no jogo isso foi se tornando cada vez mais difícil, ao ponto que chegar à próxima sala vivo já era um alívio. O jogo não assusta os novatos e vai gradualmente acentuando sua curva de dificuldade.
Arashi Gaiden conta também com batalhas com chefes únicos, que exigem estratégias totalmente diferentes, combinando tanto as mecânicas mais básicas do jogo quanto as habilidades adquiridas.
Em seus aspectos mecânicos, eu senti que o jogo foi uma evolução de tudo que o Wired Dreams desenvolveu até aqui. Me senti confortável jogando Arashi Gaiden, visto que joguei jogos anteriores do estúdio, mas ao mesmo tempo ainda me senti desafiado devido aos mapas mais complexos, novas habilidades e mecânicas e inimigos únicos.
Além de desafiador, o jogo é bastante divertido. Também oferece experiências para aqueles que gostam de se desafiar ao máximo. Após o final de cada fase, você recebe um ranking que considera seu tempo de jogo, número de mortes e outros critérios. Vejo grande potencial nesse jogo para speedruns, por exemplo.
Mas ao mesmo tempo ele também é ótimo para quem é um jogador de jogos táticos mais casual, como eu. É possível jogar algumas salas, parar e retornar depois. Também é possível rejogar fases já vencidas para melhorar seu ranking ou testar estratégias diferentes. Dependendo da recepção do jogo e da comunidade que se criar em torno dele, é possível até pensar em atualizações com novos mapas e desafios. Mas vamos com calma, né?
O estúdio Statera Studio já tinha feito um ótimo trabalho em Pocket Bravery, que justamente por ser um jogo de luta exige um trabalho cuidadoso em suas animações. E nesse caso, a qualidade das pixel arts das animações seguem muito boas em Arashi Gaiden.
Eu sou suspeito para falar porque genuinamente acho que o Brasil conta hoje com artistas e animadores em pixel art de nível altíssimo e Arashi Gaiden é mais uma prova disso. Além das artes em si serem muito bonitas, as animações também não ficam atrás.
A pixel art, toda feita a mão, foi animada de forma bastante detalhada. O jogo é graficamente bastante violento, o que me lembrou Katana ZERO, mas ele é ainda mais explicitamente violento. Diversos personagens ao morrer são amputados, soltam tripas ou jorram bastante sangue, tudo muito bem animado.
Além dos personagens, os cenários também foram muito bem criados, cada um deles com identidades muito únicas. Galpões, templos, subúrbios com luzes neon, florestas de bambu, entre outros, são muito bem feitos.
Por mais que o principal de Arashi Gaiden seja sua mecânica e seus desafios, é claro que ter boas animações e uma arte bonita deixam o jogo ainda melhor, além de ajudarem a chamar a atenção dos jogadores logo de cara. E o jogo acerta muito nisso também.
Imagino que o trabalho da Statera Studio tenha sido fundamental na parte artística e de animação do jogo. Eu me lembro de ter ouvido no podcast Controles Voadores, do meu amigo Lucas Toso, justamente em um episódio que o Thiago participou, e que ele fala sobre não gostar muito de fazer animações. E o Statera Studio já tem experiência trabalhando com esse tipo de arte.
Vale citar também a trilha sonora, que é totalmente inspirada em músicas tradicionais japonesas e conta com instrumentos tradicionais, mesclados com elementos mais modernos. As músicas se alternam em trilhas mais suaves, outras mais agitadas, e ajudam a colocar o jogador no clima tanto dos combates quanto dos ambientes das fases. Instrumentos mais tradicionais ficam bem marcados em ambientes mais tradicionais japoneses, ambientes mais urbanos levam um toque a mais de instrumentos modernos, etc.
Eu curto bastante música tradicional japonesa e claro que uma trilha sonora de qualidade em um jogo inspirado no país é algo fundamental. Nesse aspecto, Arashi Gaiden também não decepciona.
2025 tem sido um bom ano para os jogos brasileiros, na minha opinião. Arashi Gaiden é mais um jogo que vem reforçar o bom ano que estamos tendo de lançamentos. A parceria entre o selo Wired Dreams e a Statera Studio rendeu bons frutos, resultando em um jogo divertido, desafiador e com uma pixel art bonita e distinta.
A recém formada publisher Nuntius Games vem formando um portfólio de jogos bastante diversificados e interessantes, de diversos gêneros, e acerta mais uma vez ao abrigar esse jogo em seu “guarda-chuvas”.
Arashi Gaiden é divertido e desafiador, sem se tornar frustrante. O jogo é o resultado de anos de aperfeiçoamento das mecânicas dos jogos anteriores da Wired Dreams, resultando em um jogo que é fácil de aprender mas que não deixa de desafiar o jogador. Combinado a isso, o ótimo trabalho de arte e animação em parceria com a Statera Studio faz com que o jogo se destaque e torne a experiência ainda mais agradável.
Arashi Gaiden
Nuntius Games, Vsoo Games
Statera Studio, Wired Dreams
PC