Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
No ano de 2024 foram lançados cerca de 18 mil jogos na Steam. O número de jogos aumenta exponencialmente se considerarmos outras plataformas, como Itchio. Com tantos lançamentos anualmente, é natural que nossas atenções fiquem presas aos grandes lançamentos e jogos com orçamento de marketing gigantesco.
É cada vez mais difícil se destacar no meio de tantos jogos. Porém, alguns jornalistas e criadores de conteúdo se dedicam a explorar projetos independentes, ou de menor escopo. Foi em um desses canais que vi pela primeira vez Artis Impact.
Sua direção de arte por si só já seria o suficiente para chamar minha atenção, mas fiquei ainda mais intrigado ao descobrir que este projeto foi desenvolvido por um único desenvolvedor, chamado Mas, e além disso foi criado no RPG Maker.
Eu tenho um certo fascínio por projetos autorais, ou feitos por equipes muito pequenas, e que utilizam ferramentas tão específicas. Por esse motivo, quis conhecer mais do jogo. Tivemos a oportunidade de receber acesso antecipadamente a Artis Impact e conto agora minhas impressões sobre o jogo.
Artis Impact é ambientado em um mundo pós-apocalíptico. Mas diferente da maioria dos jogos, essa é uma versão um pouco mais otimista da situação. A vida continuou e a civilização humana segue com uma certa normalidade, na medida do possível.
Jogamos como Akane, que trabalha em uma organização que combate os AI. Essas máquinas, que estiveram em guerra contra os humanos muitos anos atrás, não parecem dar sinal de trégua. Ela é acompanhada por Bot, uma AI amigável, mas que tem uma certa dificuldade em processar empatia.
Os dois vivem em Sunnyside, uma pacata cidade onde está localizada uma base da organização. Você irá realizar uma série de missões, ao mesmo tempo que desvenda um pouco mais do passado de Akane, conhece seus vizinhos e amigos e tenta seguir a vida normalmente.
Artis Impact é um RPG de turno que promete não sobrecarregar os jogadores com sistemas complexos. Eu não sou exatamente contra o jogo ter sistemas simples, mas me incomodou como não fez muita diferença o que eu fazia nos combates do jogo.
O combate segue as convenções básicas do gênero: você entra na luta, escolhe entre ataque, defesa, utilizar um item ou usar uma habilidade. Ao realizar seu turno, o inimigo também faz o mesmo.
O problema é que além de ser simples, você não precisa pensar muito para avançar. Eu venci a maioria dos combates utilizando apenas ataques normais ou uma única habilidade. E o jogo não apresentou nenhum desafio.
Também me incomodou a falta de clareza de como funcionam alguns dos seus sistemas, além do seu balanceamento. Eu até agora não entendi como os meus contra-ataques causavam danos massivos aos inimigos, por exemplo. Em diversos momentos eu tive a sorte de ser atacado e contra atacar e o dano aos inimigos era estupidamente alto.
Os inimigos não exigem nenhum tipo de estratégia, então é basicamente seguir atacando até vencer todos os inimigos. Os oponentes também podem causar alguns efeitos negativos com seus ataques, mas também não chega a dificultar as coisas.
Isso provavelmente é intencional, até por ele se apresentar como um RPG simples de ser jogado. Mas é inegável que isso foi um pouco frustrante para mim e possivelmente pode ser para outros jogadores mais veteranos no RPG.
É até irônico que em um RPG de turnos, o sistema de combate tenha sido o que eu menos gostei no jogo. Porque fora do combate o jogo faz algumas coisas que são muito interessantes e que incentivam a experimentação e exploração.
Existem algumas habilidades passivas que são “aptidões” que você aprende realizando ações específicas. Por exemplo, ao realizar uma longa viagem de trem e permanecer sentada por um tempo considerável, Akane adquire a habilidade de “esquentar assentos”. Sim, você precisa sentar e esperar. Com isso ela ganha alguns bônus de status permanentes.
Além disso, o jogo conta com alguns outros sistemas além dos tradicionais do RPG. Para adquirir dinheiro, você pode além de realizar missões e vender espólios de combate, ganhar dinheiro passivamente por meio de alguns investimentos no banco ou comprando algumas propriedades ou simplesmente arranjar um emprego tradicional.
Akane também pode melhorar e expandir sua casa, incluindo novos cômodos que liberam recursos como cozinhar, tomar banho de banheira ou ler livros. Algumas dessas atividades podem fornecer bônus temporários e permanentes para a protagonista.
Artis Impact acaba sendo um jogo meio RPG meio life sim. Você pode gastar um tempo conversando com os personagens e dependendo das suas ações, liberar algumas atividades extras ou aprofundar a relação entre os personagens.
Isso não é diretamente explicado e o jogador precisa explorar para descobrir. Outra coisa que me chamou atenção e que achei interessante é o fato do jogo “dar tempo ao tempo”. O que quero dizer com isso é que algumas ações tomam um tempo real do jogador para serem feitas.
Um exemplo foi em um local onde Bot precisa quebrar a senha de um cofre. Ao invés de ser algo instantâneo ou um corte de cena, você precisa aguardar por algum tempo enquanto Akane espera fazendo flexões. Outra situação, que foi até meio cômica, foi quando eu quis verificar a minha conta bancária. Foi preciso entrar na agência, pegar a senha e esperar ser chamado. O jogo conta com uma série dessas interações que achei bem criativas.
Eu acabei ficando mais engajado com o que o jogo fazia fora do combate, o que é estranho de se dizer quando falamos de um jogo de RPG. Eu particularmente gosto de jogos mais focados em exploração e para ser sincero talvez a única coisa que eu sentiria falta se o jogo não tivesse combate, seriam as animações de luta, que são bem legais. E acredito que não sentir falta do combate em um RPG, caso ele fosse removido, é no mínimo estranho.
Durante o jogo eu tive alguns probleminhas com bugs, mas imagino que eles serão corrigidos em breve. O que mais me atrapalhou foi um bug onde eu fiquei preso em alguns lugares que eu visitei. As portas simplesmente não podiam ser abertas e eu fui forçado a recarregar o último save algumas vezes. Dependendo do quanto você avançou desde o último save, isso pode atrapalhar bem.
Apesar do “climinha de fim do mundo” do jogo, Artis Impact explora bastante o humor. É claro que em alguns momentos há um certo melodrama, mas o que sobressai no jogo é a comédia.
A dinâmica de Akane e Bot é bastante engraçada e bem construída. A protagonista é otimista, muito gentil e por vezes ingênua. Mesmo que por trás de tudo isso, seja uma guerreira bastante habilidosa e forte.
Bot, por outro lado, é uma inteligência artificial que tem muita dificuldade em lidar com noções básicas de civilidade, como por exemplo moralidade. Enquanto Akane está sempre defendendo o que é certo e tentando fazer o melhor pelas pessoas, Bot costuma tentar ser mais “prático”.
Mas por baixo dessa camada de humor, eventualmente vamos descobrindo mais sobre o mundo, a guerra contra as AI e o passado de Akane. Por mais que ela seja otimista e gentil, algumas vezes ela também expressa uma certa melancolia devido às suas lembranças ou por situações que ela presencia, o que resulta em alguns momentos comoventes.
O jogo é relativamente curto, podendo ser terminado entre 6 a 10 horas dependendo da quantidade de side quests que você realizar. Mesmo com a curta duração, Artis Impact conta com 2 finais possíveis, dependendo de algumas ações que você fizer.
Por conta dessa duração, sua história é mais contida. Mas mesmo assim o jogo consegue desenvolver a relação de Akane e os personagens que ela convive, mesmo que em alguns casos de forma muito breve.
Eu particularmente gosto desse humor mais excêntrico. Desde piadas até situações absurdas que os personagens vivem, expressões exageradas e quebras de quarta parede, o jogo é bastante engraçado.
Como ele busca bastante inspiração em mangás, HQs e animações, ele explora bastante diversos recursos destas mídias. As expressões faciais de Akane, alguns efeitos sonoros meio inspirados em desenhos como os da Hannah-Barbera, etc. Tudo isso funciona muito bem no jogo e agrada quem curte jogos com essa pegada de humor.
Algumas situações bastante absurdas envolvem Akane acordar no meio da noite para fazer um review da cama em que está dormindo ou ela fazendo comentários sobre como se sente mal em não usar o elevador em um local, pedindo para Bot imaginar se eles estivessem em um jogo e o desenvolvedor tivesse demorado muitas horas criando um elevador funcional.
Artis Impact nesse sentido se destaca bastante. Seu roteiro é leve e muito divertido, a dinâmica entre os dois protagonistas é bem construída e mesmo os outros personagens, que interagem bem menos com Akane durante o jogo, tem um desenvolvimento legal. Ações simples, que poderiam ser apenas uma linha de diálogo ou uma breve cena, são desenvolvidas em cenas e animações mais complexas.
Em um restaurante, o jogo poderia simplesmente te dar a opção de abrir a loja e comprar um copo de cappucino, por exemplo. Mas o jogador precisa ir até o balcão, fazer o pedido e aguardar alguns segundos funcionário fazer o café, em uma pixel art muito bem animada, e só assim receber o item. Tudo isso para deixar esse mundo e os personagens mais vivos, mesmo nas menores ações. E isso é muito interessante, pois esses detalhes acabam enriquecendo mais a experiência de conhecer o mundo e incentiva o jogador a descobrir outros tipos de interação que ocorrem no jogo.
Para quem está fugindo de jogos muito complexos, com histórias muito longas ou com muitos plot twists, Artis Impact agrada bastante. Como quem curte bastante esse humor bem específico, posso dizer que ele é um jogo bem engraçado e que deve agradar também quem tiver esse mesmo senso de humor.
Vale citar que na Steam não consta que o jogo estará localizado em português brasileiro, mas existe essa opção no jogo. Inclusive tradutores são citados nos créditos. Mas estranhamente, pouquíssimos textos foram localizados, então não sei dizer se na versão que recebemos para review isso ainda estava sendo desenvolvido. Vale conferir na página da Steam após o lançamento.
Naturalmente que o que chama atenção em Artis Impact logo de cara é o seu estilo visual e suas animações. O jogo combina uma série de elementos de diversas mídias diferentes para compor seu conjunto artístico.
Sua pixel art é colorida e vibrante, com cenários muito bem feitos. Fica ainda mais impressionante pela quantidade de elementos que você pode interagir e que naturalmente exigem que sejam feitas animações.
Enquanto a pixel art em si não mostra muitos detalhes dos personagens, durante os diálogos e cenas são apresentadas ilustrações muito bem desenhadas. Com inspiração principalmente em mangás e HQs, as ilustrações mostram com mais detalhes o que está acontecendo na cena, mostram as expressões dos personagens, etc.
Assim como nos quadrinhos, essas ilustrações também brincam com expressões excêntricas e exageradas, que combinam bem com o tom de humor do jogo. Um recurso que o desenvolvedor também utiliza é mesclar na cena os personagens ilustrados com fundos feitos com fotografias. Esse recurso é utilizado por exemplo nos mangás do Inio Asano e eu particularmente acho muito bonita essa mistura.
Além de tudo ser muito bem desenhado, as animações são muito bem feitas também. Tudo é muito fluído no jogo, com uma alta taxa de quadros nas animações.
Esse é um daqueles jogos que é muito agradável só de olhar. E evidentemente é o aspecto do jogo que acaba se sobressaindo logo de cara. É muito difícil um fã de pixel art passar por esse jogo e não parar para pelo menos querer saber do que se trata.
E após ser fisgado pela pixel art, você acaba sendo depois surpreendido por ilustrações igualmente bem feitas, que varia em tons mais sérios e tensos com alguns quadros muito cômicos.
É bastante visível a dedicação que o desenvolvedor investiu na arte do jogo e o resultado final não decepciona.
Minha experiência com Artis Impact foi estranha. Ele me agradou em tudo que ele fez quando não estava tentando ser um RPG tradicional. O fato de eu ter jogado ele executando basicamente 2 comandos nos combates me incomodou.
Eu entendo que a proposta dele é ser um RPG mais simples e direto, mas poderia ter um pouco mais de desafio e variedade de estratégias. Existem formas de explorar as possibilidades do gênero e ainda se manter um jogo amigável de se jogar.
Por outro lado, ele se destaca muito pela sua arte. É impossível não se encantar com sua pixel art e suas ilustrações. Um trabalho artístico de excelência e que deve estar entre os meus preferidos do ano.
Artis Impact é um jogo bastante autoral. É aquele tipo de jogo que você nota que algumas coisas foram feitas só porque o desenvolvedor achou legal. Eu particularmente gosto bastante desse tipo de projeto.
E por mais que ele tenha alguns problemas na execução dos seus sistemas tradicionais, isso acaba sendo compensado pela sua história bem humorada, que funciona muito bem mesmo contrastando com um cenário pós-apocalíptico, e com sua direção de arte.
Artis Impact
Mas
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