Crítica: Demonschool – Eu queria te amar, mas…

Por Jean Kei

Nota: 6

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Demonschool é um jogo que, em teoria, teria tudo para ser um queridinho pessoal meu. Um RPG tático numa pegada que abraça Persona, terror italiano e tem um tom às vezes cômico e outras vezes bizarro me chama atenção. Me interessei pelo jogo de cara e, ao jogá-lo antecipadamente para análise, me deparei com uma experiência peculiar, tanto pelo jogo em si quanto por razões fora do controle dele.

Uma experiência cheia de ressalvas

Demonschool é um RPG tático que se passa numa ilha na qual Faye, a protagonista, vai estudar. O jogo já começa apresentando um clima de estranheza, com Faye falando de demônios e fim do mundo. Ao chegar à ilha, ela já se depara com gangues controlando o local e te impedindo de se matricular na universidade. Faye e seus colegas vão viver uma vida universitária estranha e perigosa enfrentando demônios.

A estrutura do jogo é semelhante a Persona 3 e posteriores, no qual o jogo avança com um calendário e você escolhe como passar o tempo, vivendo uma vida social universitária enquanto enfrenta demônios e tenta impedir o fim do mundo. E é já nesse começo que tenho algumas ressalvas.

O combate tático do jogo é a parte que mais gostei. O jogo em si não é muito difícil, mas houve batalhas em que me diverti tentando ganhar com nota máxima, otimizando meus movimentos. Porém, também tenho algumas ressalvas com esse aspecto do jogo.

Outro ponto de destaque do jogo é sua trilha sonora, que possui diversas músicas que ficaram comigo e aclimataram bem a ambientação do jogo. Sim, eu também tenho ressalvas com a trilha sonora.

Senti que não teve quase nada que gostei plenamente em Demonschool, foi uma experiência de constante sentimento de “isso está cru” ou “a execução aqui foi estranha”. Muitos dos meus problemas se foram ao longo das atualizações antes da versão 1.0, porém o cerne de muitas questões permanece.

Os acertos e ressalvas narrativas

A começar pela estrutura e narrativa: eu não sinto que o jogo a utiliza da melhor forma. Aqui tudo é linear e, até uma atualização futura, inconsequente. Você poder repetir minigames que aumentam o nível de relacionamento, tira toda sensação de planejamento. A estrutura de cada semana ser relativamente parecida me cansou também, sentia que estava fazendo as mesmas coisas frequentemente. A ambientação universitária também é um pouco desperdiçada, pois o jogo faz muito pouco uso disso efetivamente. Na prática, se fossem alunos de ensino médio, não haveria nenhuma diferença substancial. Particularmente decepciona um pouco porque uma ambientação universitária tem muito o que se explorar, especialmente quando o jogo vende “school-life” como um dos elementos dele, mas aqui não foi feito quase nada.

Também sinto que o jogo tem dificuldade em ser coerente com seu tom. Há muitos jogos que conseguem transitar bem entre o humor pastelão e o drama, e Demonschool não é um desses jogos. Senti que diversas vezes ele não levava algumas situações a sério, ao mesmo tempo que parecia querer me envolver emocionalmente com o que estava acontecendo. Tem personagens que terminei gostando e me importando, mas tem outros que me soavam um alívio cômico meio raso e repetitivo. O humor desse jogo é algo que oscilava bastante para mim também, aliás. O jogo tem diversos momentos divertidos, que referenciam cultura pop, ao mesmo tempo que outros momentos em que o humor era quase nível The Big Bang Theory, se ancorando muito no “hey, pegou a referência!?”.

Para não soar totalmente negativo, eu gostava de ver toda semana o jornal dos personagens publicado com alguma piadinha, uma crítica de filme cult e um resumão do que ocorreu na história. O jogo abraça o Horror B e toda a atmosfera esquisita, o que é legal, mas senti a escrita crua.

Os acertos e ressalvas na parte técnica

O jogo é muito bonito. Acho a arte 2D com cenários lowpoly bem ao estilo 32 bits muito charmoso. Uma das coisas que me engajava nas lutas eram os efeitos legais e como alguns golpes eram bem estilizados. O momento a momento tem muita coisa gostosa, o combate do jogo tem lutas divertidas e gostei de todas as lutas contra chefes.

A ressalva que tenho com o combate desse jogo é que ele possui muitos personagens com características únicas, mas raramente me incentivou a explorar a fundo suas mecânicas. Relativamente cedo no jogo encontrei uma combinação de personagens e habilidades que derrubava quase tudo e segui quase todo o jogo utilizando-a com ocasionais variações. Perto do fim do jogo, houve momentos em que ele dividia personagens e me obrigava a sair mais da caixinha, mas foram bem esporádicos.

A trilha do jogo é bem legal, mas achei um tanto repetitiva. Muita coisa perde o impacto quando a trilha de fundo pode até combinar, mas ao mesmo tempo foi tocada em tantas outras situações diferentes que passou a soar mais genérico.

Mesmo após vários updates em novembro, sofri com alguns bugs um tanto problemáticos no jogo, dos quais a esmagadora maioria provavelmente não estará na versão final. E por falar nisso…

Talvez há males que venham para o bem

Entendo que toda a situação do adiamento do jogo por conta de Hollow Knight: Silksong foi bem chata para os desenvolvedores. Apesar de imaginar que o ritmo e a ordem de trabalho mudaram muito com o adiamento e não ter plena noção da realidade, eu tenho muita dificuldade em acreditar que esse jogo realmente estaria pronto na data de lançamento anterior, 3 de setembro.

Quando recebi esse jogo em agosto, ele estava repleto de bugs. Várias ações quebravam o jogo, às vezes os menus não se comportavam direito e tive que voltar o save vez ou outra. Quando anunciaram o adiamento do jogo, eu estava chegando no terço final dele e havia decidido continuar até o fim, para evitar esquecer do jogo caso ficasse semanas ou meses afastado dele. A minha surpresa é que me deparei com um bug que me impedia de progredir, entrava numa batalha que logo no começo me jogava de volta para o menu inicial do jogo. Voltei mais uma vez no save, entrei naquela luta com personagens e equipamentos diferentes, havia tentado de tudo, mas não conseguia avançar. Fui forçado a parar de jogar e esperar esse problema ser corrigido, o que ocorreu entre o fim de setembro e outubro.

Mesmo após esse bug e várias outras correções, ainda me deparei com outros e tive que fazer a batalha final duas vezes, porque na primeira, o jogo me jogou na tela inicial e fechou sozinho logo após o fim da luta.

Provavelmente, ou é o que eu espero, quase nada relatado aqui acontecerá com quem jogar o jogo pós-lançamento, mas essa experiência ficou tão forte enquanto jogava que senti o dever de relatar.

No fim, Demonschool é um jogo que queria amar mas perdeu minha boa vontade

Há coisas a se gostar aqui, de verdade. O jogo tem momentos bons, um combate legal, ideias e conceitos muito interessantes que me deram bastante boa vontade com ele. Talvez Demonschool tentando abraçar tudo, acabou não conquistando nada. O sistema de life-sim é raso, o combate poderia incentivar mais aprofundamento nas mecânicas e a escrita precisava de muito polimento. Meu sentimento com esse jogo é de um potencial não alcançado, no qual uma sequência ou outra forma de revisitá-lo poderia criar algo excelente.

Nome do jogo:

Demonschool

Publisher:

Ysbryd Games

Desenvolvedora:

Necrosoft Games

Plataformas Disponíveis:

PC, Playstation 4, Playstation 5, Xbox One, Xbox Series S|X, Nintendo Switch

Siga o Game Lodge nas redes!

Confira mais dos nossos conteúdos nas nossas redes sociais!