Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Durante a Brasil Game Show do ano passado, nós tivemos a oportunidade de testar Dune: Awakening e entrevistar um dos diretores de arte do jogo. No artigo em questão, que pode ser lido aqui, eu mencionei que tinha pouquíssima familiaridade com o universo de Duna, mas que o jogo tinha me deixado empolgado o suficiente pra querer mais mesmo assim. De lá até aqui eu assisti os dois filmes, influenciado pelo evento, e me tornei fã desse universo tão interessante, o que me deixou ainda mais ansioso por Awakening. Então agora, na condição de um fã de Duna, eu pude revisitar o jogo de forma definitiva e ver todas as surpresas que Arrakis ainda tinha para me mostrar.
Dune: Awakening é um survival MMO, um jogo de sobrevivência em que você coabita um mundo com outros jogadores. O aspecto sobrevivência dele é o pilar central do jogo, afinal Arrakis é um planeta hostil que precisa de muita familiaridade e tecnologia própria para ser explorado. Assim, você começa sua jornada como um cidadão normal enviado para o planeta, que sofre a queda de sua nave e precisa começar do zero sua vida local. Isso inclui coletar recursos espalhados pelo vasto mapa, usar esses recursos para construir ferramentas, armas e armaduras mais fortes, explorar novas regiões, etc. Tudo isso enquanto cuida de seus pontos de vida e hidratação, que é crucial em um ambiente desértico.
Eu já gastei muitas horas em Rust, que é outro survival MMO com uma jogabilidade parecida com Awakening, porém mesmo estando acostumado com esse gênero, eu não estava preparado para o quão brutal Arrakis consegue ser. Enquanto os itens têm durabilidade, ao contrário de jogos em que você só os substitui ao quebrarem, aqui você pode consertá-los ao custo de uma porcentagem da durabilidade máxima. Isso permite que os recursos sejam balanceados de forma que construir um item essencial para sua sobrevivência seja uma verdadeira conquista, o que aumenta exponencialmente o prejuízo ao perder tais itens. Por sorte, a maioria das situações em que você pode morrer não vão custar seu inventário todo, apenas alguns itens e durabilidade, mas mesmo essas poucas perdas tornam o simples e necessário ato de sair de casa em busca de recursos algo estressante da melhor forma. E quando eu digo que a maioria das situações de morte não envolvem perda total de itens, é porque temos uma exceção: a sandworm. Uma criatura clássica do universo de Duna, a sandworm é literalmente uma minhoca gigante que vive nas areias do deserto e ataca pessoas que fizerem barulho ao cruzá-lo. Dada a natureza da criatura, um bicho gigante que engole você e seu veículo de uma vez, faz sentido que ela seja a única ameaça do jogo que leva todos os seus itens embora ao te engolir e o maior perigo das areias do vasto deserto.
No artigo que mencionei no começo, eu dediquei parte das minhas impressões do jogo a como eu tinha ficado um pouco decepcionado com a sandworm na ocasião. Mesmo descontando o fato que não existia a tensão de morrer em uma demonstração limitada, senti que a inteligência artificial da minhoca era muito leniente e irregular, a ponto que ela não me impressionou. A versão final, porém, sanou todas as minhas preocupações, entregando uma presença ameaçadora e consistente. Cruzar trechos mais longos do deserto enquanto checa o medidor de vibrações (que indica quando a sandworm te nota) nunca deixou de ser assustador, principalmente quando o jogo começa a introduzir diferentes tipos de areia que podem chamá-la mais rápido ou te deixar preso no meio do nada. Com o quão devastador pode ser um deslize que te coloque em meio aos dentes dessa criatura, cada retorno seguro de uma exploração passou a ter mais significado e trazer um grande alívio.
Toda essa mecânica de sobrevivência está, invariavelmente, ligada à parte MMO (sigla para multiplayer massivo online) do jogo. Durante seu progresso, você vai constantemente encontrar jogadores pelo mapa e, mesmo que indiretamente, se beneficiar da cooperação. Esse talvez seja o aspecto mais polarizante do jogo para algumas pessoas, visto que muita gente pode não ter amigos que joguem e não querer jogar com desconhecidos, mas existem formas de mitigar essa necessidade. O jogo é dividido em duas partes: a “campanha”, que é o mapa PvE quase que exclusivamente cooperativo onde você segue uma narrativa e vai ficando mais forte no processo; e a zona PvP, que é uma área acessível apenas ao fim dessa “campanha”, onde você vai competir com outros jogadores por recursos mais raros.
O primeiro mapa é onde eu passei as primeiras 50 horas de jogo, e onde ainda pretendo passar mais umas dezenas antes de focar na segunda zona, portanto é parte crucial da experiência. É lá que você vai passar os maiores perrengues de sua jornada, afinal o segundo mapa só pode ser acessado com um ornithopter (espécie de helicóptero daquele universo), o que facilita muito a locomoção em geral. Jogar sozinho é perfeitamente possível (afinal eu o fiz por bastante tempo), mas toda a tensão em volta das atividades pelo mundo pode acabar facilmente se excedendo, principalmente caso você seja vítima de uma sandworm e seja obrigado a recomeçar sozinho. Ainda assim, foi nesse período que tive algumas das minhas interações emergentes mais legais, principalmente ao encontrar outros jogadores dentro de uma base inimiga que eu estava invadindo e formar uma aliança temporária, afinal os itens ali podem ser obtidos por todo mundo. Então, enquanto é perfeitamente possível jogar sem companheiros, tenha em mente que o jogo fica exponencialmente mais difícil nessa condição.
Ainda no primeiro mapa nós temos algumas pequenas zonas de PvP nas naves caídas. Essas zonas são opcionais, afinal seus itens podem ser comprados em lojas locais, mas servem para te familiarizar com a segunda área, o deep desert. Ele é onde você tem acesso a itens necessários para criar os equipamentos mais fortes do jogo, que simultaneamente servem para combate nessa zona, já que a esse ponto os inimigos do primeiro mapa não são mais páreos para você. Em teoria eu gosto da ideia de um conteúdo “infinito” por meio do combate com outros jogadores, já que é algo mais orgânico, mas na prática o PvP tem mostrado problemas que não existiam no modo PvE. De acordo com relatos de jogadores, afinal eu ainda não estou preparado para enfrentar essa zona, grandes grupos de pessoas têm dominado os combates de forma que grupos menores e jogadores solo não possuem a menor chance. Infelizmente isso parece a conclusão lógica de um jogo que passa boa parte de sua jornada te incentivando jogar com outras pessoas, o que muda completamente a proposta do pós-jogo.
No momento existe uma divisão bem clara entre a experiência PvE e o pós-jogo, com a segunda ainda em processo de balanceamento. Mesmo quando estiver pronto para encarar a zona PvP, eu não me vejo passando muito tempo lá, afinal não é a parte que me atrai nesse tipo de jogo. Ainda assim, baseado no suporte oferecido a seus títulos anteriores e no feedback que eles têm recebido da comunidade, eu imagino que a Funcom ofereça mais conteúdo PvE em updates futuros e talvez balanceie mais as atividades para quem terminar o primeiro mapa.
Faz todo o sentido que a parte PvE seja a aparente preferida dos jogadores, já que explorar o mundo do jogo é constantemente interessante. O deserto de Arrakis possui inúmeras bases e segredos espalhados pelas zonas rochosas que são seguras de se navegar, e o jogo faz uso de muitos elementos dos filmes e até dos livros para contar suas histórias. Eu me referi previamente à campanha entre aspas pois o jogo não tem uma história linear, apenas uma sequência de desafios que você precisa cumprir com cutscenes no começo e no final. Essa “campanha” serve exclusivamente para te guiar pelo mundo e garantir que você explore zonas de interesse, mas por sorte ela não é a única história que o jogo quer contar. Ao longo do tempo você vai encontrar e interagir com NPCs que vão te dar missões secundárias que vão desde histórias contidas, até longas correntes de missões com uma narrativa maior. Você vai explorar bases abandonadas e encontrar rastros de acontecimentos horríveis e gravações de pessoas que estavam presentes em tais eventos. A forma com que essas narrativas insulares são contadas não é particularmente criativa, mas a presença tão constante e a variedade tão grande delas permite que aqueles jogadores interessados em saber mais sobre aquele mundo tenham muito material para explorar.
Vale ressaltar também que o jogo é totalmente amigável àqueles que não conhecem esse universo, afinal ele se passa em uma realidade alternativa em que o personagem que dá início a todos os grandes eventos dos livros nunca nasceu, o que permite que eles façam basicamente o que quiserem com a narrativa. Claro que muitos conceitos e habitantes daquele mundo ainda se mantém, porém o jogo oferece explicações em texto para a maioria das coisas e, sinceramente, a maioria do conhecimento necessário para entender algo trabalhado no jogo vai ser propriamente apresentado pra você.
Enquanto o jogo apresenta conceitos narrativos muito bem, ele deixa um pouco a desejar na explicação das mecânicas. Dune: Awakening é um jogo complexo com muitas engrenagens e diferentes formas de se portar naquele mundo, e muita coisa acaba mal explicada ou deixada de lado completamente. Me peguei inúmeras vezes tendo que pesquisar como certas partes do jogo funcionavam, ou assistindo vídeos sobre o jogo com dicas em geral para, constantemente, pensar “caramba, eu não tinha ideia que dava pra fazer isso”. Existe um certo charme em descobrir como um jogo mais “cabeçudo” funciona, digo isso talvez de uma síndrome de Estocolmo por ter jogado anos de Minecraft e Terraria dessa forma, mas não deixa de ser frustrante para novos jogadores.
O último ponto que gostaria de destacar quanto ao mundo é o sistema de criação de bases. Como disse antes, eu joguei muito Rust e portanto gosto bastante desse processo e das formas criativas que você pode tornar sua base mais funcional conforme progride. O que eu não esperava, porém, era um sistema tão profundo e agradável de se usar. Bases são parte integral da sua experiência no jogo, afinal durante o primeiro mapa você vai movê-la constantemente e vai ter acesso a equipamentos capazes de tornar sua produção cada vez mais industrial para atender as demandas do jogo. Além desse grande progresso, o simples ato de construir e remodelar sua base é incrivelmente prático, com a possibilidade de mover partes e maquinários livremente e reembolso total de tudo que precisar ser demolido. O reembolso em particular é importante para mitigar a frustração de ter que mover uma base, ao passo que também incentiva uma criatividade maior no design pela liberdade de experimentar. Honestamente não imaginava que esse seria um destaque da experiência para mim, porém já coleciono prints de bases com bons designs que pretendo usar de inspiração no futuro.
Eu tenho a impressão que a maioria das pessoas vai amar ou odiar Dune: Awakening, sem um meio termo. Ele é um tipo de jogo extremamente dedicado à experiência que quer entregar, mesmo que seja uma experiência frequentemente opressora e exaustiva. É um jogo pra quem gosta de ser desafiado e levado a extremos, para depois sentir aquele alívio de poder voltar para sua base com o material que precisava ou, pelo menos, ainda vivo. É um jogo que faz um excelente uso da propriedade em que é baseada, ao mesmo tempo que serve como uma porta de entrada competente para novatos que, assim como eu, podem se interessar pelo resto e descobrir esse universo maravilhoso.
É um jogo que pede comprometimento do jogador para tentar entender melhor suas mecânicas e até socializar, mas que ainda acomoda quem quiser jogar de formas diferentes. É um jogo com uma pequena crise de identidade quanto ao pós-jogo no momento, mas que promete se encaminhar para algo mais sólido dada a natureza de um jogo online e o feedback que a comunidade, que o abraçou em peso, vale ressaltar, tem dado. É um jogo que eu tive dificuldade de parar de pensar nos últimos dias, e que me vejo revisitando frequentemente no futuro. É um jogo vasto como um deserto, abundante como uma floresta, e imperdoável como o universo.
Dune: Awakening
Funcom
PC