Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Você já se perguntou qual é a vida útil de um console? Em uma indústria que é pautada pela obsolescência programada, essa é uma pergunta que pode ter várias respostas, dependendo de quem você pergunta.
Se depender de Yuzo Koshiro, fundador do estúdio Ancient Corporation, que existe desde 1990, a vida útil de um Mega Drive será o tempo que ele achar necessário. Seu novo jogo, Earthion, é a prova disso. Sendo desenvolvido nativamente no hardware do console 16bit, e posteriormente portado para consoles e PC’s atuais, o jogo shmup é a prova de que consoles podem ser atemporais.
Tivemos a oportunidade de jogar Earthion antecipadamente e conto agora como foi a experiência.
Em um futuro próximo, a humanidade conseguiu esgotar os recursos da Terra e levou o planeta ao colapso ambiental. Para sobreviverem, os sobreviventes fugiram para Marte.
Porém, nosso planeta natal é atacado por invasores extraterrestres. Não há outra opção a não ser revidar e retomar o antigo lar dos humanos de volta. Para isso, você assumirá o controle da pesquisadora ambiental Asuza Takanashi, que a bordo da nave YK-IIA irá liderar a mais importante missão da história da humanidade.
Earthion segue a fórmula básica dos jogos de navinha. O jogo se divide em 8 fases, onde você irá enfrentar inúmeros inimigos na tela e um chefe ao final. Diferente de muitos jogos do gênero, você não morre instantâneamente ao encostar em algo ou ser atingido. Um escudo protege a sua nave de alguns danos, se recarregando automaticamente após um tempo.
Você também pode coletar armas secundárias, cada uma com vantagens em determinados momentos e inimigos, bem como coletar cristais para aumentar o nível tanto das armas secundárias quanto da arma primária. Porém, esse nível cai conforme você é atingido e você pode inclusive perder sua arma secundária dessa forma.
Também como nos jogos clássicos, você conta com vidas e continues limitados. Após esgotar todas as suas chances, é preciso recomeçar o jogo novamente. É possível ajustar a dificuldade do jogo, escolhendo desde o modo fácil até o modo mais difícil.
No modo normal, o jogo já se mostra desafiador. Como um bom e velho shmup dos anos 90, você vai precisar se esquivar de uma grande quantidade de tiros e inimigos na tela, que variam de tamanho e padrão. Após isso, lidar com um chefe que é muito mais resistente que inimigos comuns.
Apesar do desafio inicial, o jogo possui uma boa curva de dificuldade. Não existem tutoriais no jogo, então você aprende jogando. Inicialmente são inimigos com padrões mais simples, menos tiros na tela e desafios menores. Gradualmente o jogo vai se dificultando, os padrões mudam, a quantidade de projéteis aumenta e os próprios cenários apresentam novos desafios.
Inicialmente você irá utilizar mais seus reflexos, até que começa a entender os padrões dos inimigos e com isso seus movimentos irão fluir mais naturalmente. Conforme você vai aprendendo mais, desenvolve as melhores táticas e com base na experimentação, erro e novas tentativas, vai dominando melhor as mecânicas do jogo.
No geral Earthion é bem balanceado, mas tenho algumas ressalvas. Alguns chefes foram feitos para serem derrotados mais facilmente com armas específicas. O nível de dificuldade deles aumenta consideravelmente se você não tiver a arma correta. Nesse caso, seria necessário perder um continue e retornar ao início da fase para pegar a melhor arma.
Não que seja impossível passar dos chefes dessa forma, no modo normal isso não chega a ser um problema. Mas nos modos mais difíceis faz diferença ter a arma correta. Além disso, eu notei que quando perdemos nossas armas, se recuperar no jogo é bem difícil. Principalmente nas fases mais para frente no jogo, onde a quantidade de inimigos aumenta consideravelmente e eles ocupam partes acima e abaixo da tela do jogo, contar só com sua arma principal é bastante difícil.
Contornando esse pequeno contratempo, o jogo flui muito bem e é bastante divertido. Os controles funcionam muito bem, bem como todo o jogo é bem polido e conta com hitboxes precisas, o que pra mim é de muita importância em jogos que exigem muitos reflexos e movimentação precisa.
O jogo é uma experiência arcade bem clássica, com poucas fases, mas com um certo fator rejogabilidade. Além de diversos modos de dificuldade, o jogo conta com um modo desafio, onde você irá jogar em fases especiais com armas pré-definidas, onde precisa realizar alguns objetivos específicos.
Earthion também conta com alguns extras, como o modo jukebox, que permite ouvir a trilha sonora composta pelo icônico Yuzo Koshiro, bem como acessar antigas demos e betas do jogo.
Ah, e vale citar também que o jogo está localizado para português-brasileiro. Até mesmo o site oficial do jogo tem uma versão localizada e com a imagem da protagonista portando a bandeira brasileira, o que mostra a relação bacana que o Koshiro tem com nosso país. Ele esteve recentemente no Brasil divulgando o jogo na Retrocon, inclusive.
Por fim, se você busca uma experiência retrô dos clássicos de shmup do arcade e Mega Drive, não irá se decepcionar. O jogo é bastante divertido e, apesar de ter uma dificuldade normal voltada para jogadores casuais, possui modos de maior dificuldade voltados para os fãs mais hardcore do gênero, que costumam ser exigentes com desafios.
Como citei no começo da crítica, o jogo foi desenvolvido nativamente no hardware do Mega Drive. Foi exatamente isso que me chamou mais atenção e que me impressionou. Vale lembrar que o console de 16bit foi lançado em 1988. E a título de curiosidade, ele chegou a ser relançado no Brasil. Até poucos anos atrás era possível comprar um console, em sua nova versão. Mas isso, e a história da Sega com o Brasil e sua parceria com a TecToy, é uma história que fica para outro dia.
O que é importante aqui é como Earthion, sendo desenvolvido em um hardware de quase 40 anos de idade, é extremamente bonito e bem animado. A pixel art em si tem essa característica de “envelhecer bem”.
Mas não basta ser bonito se você não souber o que fazer com a arte. E Earthion conta com artistas com anos de experiência, que criaram cenários bem feitos, uma variedade grande de inimigos e chefes, todos muito bem desenhados e, é claro, animados.
Algumas transições são e efeitos são bastante impressionantes e eu tenho a genuína curiosidade de ver pessoalmente isso rodando em um console Mega Drive.
A trilha sonora de Yuzo Koshiro dispensa comentários. Pensando no chip de som do console japonês, o compositor criou músicas que além da qualidade, possuem uma profunda carga de nostalgia para quem viveu a era 16bit dos videogames nos anos 90.
Pensando em como jogos em estilo mais retrô, seja na sua pixel art ou em trilhas sonoras emulando chips de som de consoles antigos, impressiona quando vemos que o hardware original ainda é capaz de rodar jogos novos com esse nível de qualidade.
Earthion dá um gostinho de uma época em que muitos shmups faziam sucesso, seja nos consoles 16bit, ou nos arcades. O jogo promove uma experiência profundamente nostálgica, ainda mais considerando seu desenvolvimento nativo no Mega Drive.
Em uma época onde a indústria tenta trocar de geração de consoles cada vez mais rápido, ver um novo título com tanta qualidade ser desenvolvido em um hardware de quase 40 anos de idade, nos faz pensar sobre nossa relação com os videogames e em sua obsolescência programada.
E com uma grande vantagem: não é preciso desligar o videogame com sua avó gritando que vai estragar a TV e você também não vai perder o troco do pão em fichas nos arcades. Earthion pode ser jogado bem no conforto da sua casa, tranquilamente.
Earthion
Limited Run Games, Inc
Ancient Corporation, Bitwave Games
PC