Crítica: OPUS: Prism Peak – Observar e eternizar

Por Jean Kei

Nota: 8

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

OPUS: Prism Peak é o quarto jogo da antologia de jogos narrativos chamada OPUS. Sempre quis jogar os jogos dessa série, que são elogiados e conhecidos por uma narrativa com carga emocional pesada e bem escrita. Prism Peak foi minha porta de entrada para a franquia, e sinto que comecei bem positivo.

Do que se trata OPUS: Prism Peak?

OPUS: Prism Peak é um adventure narrativo protagonizado por Eugene, um homem de 40 anos depressivo que perdeu tudo na vida. O prólogo do jogo conta de forma vaga e um tanto breve a trajetória de vida do protagonista. Começamos controlando o personagem aos 5 anos de idade em primeira pessoa, aprendendo a fotografar com seu avô, que parece ser o parente com quem ele tem melhor relação. Eugene descreve que seu avô estava com ele enquanto seus pais viviam brigando e que seu sonho de infância era ser um fotógrafo tal qual o avô. Ao chegar à vida adulta, Eugene vai embora de sua vila natal e vai viver na cidade, ganha emprego como jornalista fotográfico e passa por altos e baixos, se casando, passando por um divórcio, perdendo seu emprego, abrindo uma cafeteria e vendo-a ir à falência.

Aliás, esse começo é contado de forma bem interessante, lhe permitindo preencher algumas falas para dar um tom mais positivo ou negativo em como Eugene enxerga seus momentos de vida. Este mecanismo de escolher palavras para a percepção do protagonista ao longo do jogo será uma das mecânicas principais para a mensagem da história.

Após anos, Eugene está retornando à sua cidade natal para participar do funeral de seu avô, mas ao passar por um túnel, acaba batendo o carro. Saindo do veículo destruído, Eugene tenta caminhar para fora do túnel, mas coisas estranhas acontecem, ele acaba encontrando uma garotinha sem memórias e ambos são perseguidos por uma criatura. Ao fugirem, se deparam com um lugar mágico onde os seres são espíritos em forma de animais.

Uma história cheia de simbolismo

Muito rapidamente, você entende que o mundo no qual Eugene está e as criaturas que passam por ele são representações de experiências de sua vida. Há um fenômeno no qual todos os seres eventualmente são esquecidos e desaparecem, mas isso pode ser impedido caso a criatura seja “observada”. Quando Eugene fotografa uma criatura, ela se sente vista, relembra sua identidade e evita o desaparecimento. Acontece que a garota que Eugene encontrou está sumindo, mas por alguma razão ele não consegue enxergá-la através de sua câmera. Os dois personagens ficam sabendo que uma figura chamada “observador” poderá salvar a garotinha do desaparecimento, e ambos começam uma jornada em busca dele.

Em poucas horas de jogo, já passei a entender o que essa jornada surreal queria dizer e o que diversas coisas simbolizavam. Foi uma forma bem efetiva de me fazer engajar com a história de Eugene e as pessoas com quem ele conviveu na vida. É uma história emocional sobre prestar atenção ao seu redor e se esforçar para compreender os outros.

A fotografia como mecânica de observação

A mecânica principal do jogo é tirar fotos. Quase todo o seu progresso no jogo envolve colecionar fotos das criaturas e do ambiente ao seu redor, e cada foto-chave tem um pequeno texto contextualizando o que aquilo significa na vida de Eugene. Também há puzzles envolvendo mostrar a foto correta para totens, que não costumam ser difíceis, apenas exigindo que você preste atenção. O jogo é todo pautado em discutir como se enxerga o mundo, apontando o ato de fotografar como uma forma de observar com carinho algo e eternizá-lo. É uma história bem intimista, mas que acaba tocando em temas mais extensos como urbanização e gentrificação.

Uma história de múltiplos finais

O jogo claramente quer que você jogue-o pelo menos duas vezes. Ele possui múltiplos finais e diversas coisas perdíveis. Como ainda estava um pouco perdido e não tão engajado no início, acabei perdendo coisas que poderiam me levar para o final verdadeiro. Sinto que a maioria das pessoas que jogarão esse jogo sem guia irá terminar com coisas deixadas para trás, e essa é a forma do jogo dizer “vem jogar de novo, mas agora realmente enxergando o jogo com atenção”. Minha primeira run durou 12 horas, mas a seguinte, podendo pular cenas, foi bem mais rapidinha.

Dito isso, rejogar o jogo me fez ficar incomodado com algumas decisões. O jogo possui algumas mecânicas peculiares, e a principal é que você tem um caderno de anotações que, conforme entende o jogo, vai preenchendo. Para preencher o caderno, são necessárias cinzas, obtidas de diversas formas, mas a mais abundante é quando você erra a foto que deveria entregar. Na segunda jogada, como já sabia as respostas, me encontrei algumas vezes sem recurso.

O jogo também possui um alfabeto de um idioma ancião em runas e cabe a você decifrá-lo. Boa parte das letras do alfabeto você encontra em estátuas, mas uma forma intuitiva de decifrar é ouvindo o jogo e lendo a legenda. Por exemplo, quando citam um nome ou termo do idioma, a legenda fica em runas, mas como cada runa representa uma letra do alfabeto, quando você ouve algo como “Bundalelê”, dá para intuir as letras correspondentes. Graças a esse aspecto, joguei o jogo todo em inglês e não fui muito fã da dublagem, que funciona a maior parte do tempo, mas teve uns trechos específicos que achei ruins e anticlimáticos.

Enfim, sai bem feliz com esse jogo

OPUS: Prism Peak é uma aventura narrativa bem escrita e engajante. Terminei o jogo me importando com Eugene e todo o mundo ao seu redor de uma maneira que não achei que me importaria. É uma história emocional que, mesmo em momentos nada sutis e bregas, faz de peito aberto e sem medo.

Nome do jogo:

OPUS: Prism Peak

Publisher:

Shueisha Games

Desenvolvedora:

Sigono Inc.

Plataformas Disponíveis:

PC

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