Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
O anúncio de Shuten Order me pegou um tanto de surpresa. Apesar de já saber que o Takumi Nakazawa estava trabalhando em um novo jogo devido aos seus posts no Twitter, eu não esperava vê-lo sendo anunciado e rapidamente lançado tão cedo, visto que a Too Kyo Games ainda estava em sua missão de tornar The Hundred Line: Last Defense Academy algo rentável. Fiquei ainda mais surpreso ao saber que Kodaka também estava envolvido no projeto, e um tanto preocupado (explicarei depois).
Pois bem, aqui estamos e estou bem feliz em anunciar que Shuten Order já se tornou um dos meus jogos favoritos de 2025, sendo um forte concorrente a ser meu jogo do ano.
Em Shuten Order nós assumimos o papel de Rei Shimobe, uma pessoa que acorda sem memórias em um quarto de hotel, e de repente é visitada por dois anjos e descobre que ela foi vítima de um assassinato. Não apenas isso, mas ela também é a fundadora da Shuten Order, uma nação que venera o fim do mundo, com direito a uma contagem regressiva para tal. Os anjos avisam Rei que Deus a reviveu para que ela possa impedir que o final do mundo aconteça e, para isso, ela precisa passar por uma provação divina, que consiste em investigar o seu próprio assassinato, descobrir quem é o assassino e recuperar suas memórias.
Existem cinco suspeitos: os cinco ministros da nação Shuten, e é aqui que somos apresentados ao principal aspecto de Shuten Order: as suas cinco rotas.
Cada rota é diferente uma da outra, e, por diferente, quero dizer gêneros e tipos de narrativas distintas. É como se fossem 5 jogos diferentes em um, sendo uma grande homenagem aos jogos do gênero, em um formato simples, mas bastante funcional.
A comparação e contraste mais óbvio que se tem a fazer é com Hundred Line da própria Too Kyo. Enquanto nele a estrutura e estética das rotas eram as mesmas, apenas com o tema delas se alterando, aqui nós temos algo completamente diferente em cada rota, incluindo storylines próprias que vão ao todo complementando a narrativa total do jogo.
Usando o Poder de Deus, toda a UI e a jogabilidade do jogo mudam para se adequar ao gênero em que a rota se passa.
A duração das rotas varia entre 5 e 7 horas, com uma delas chegando a quase 8. O ritmo delas diverge bastante, algumas são slow burn, outras já começam aceleradas. A gente pode escolher a ordem que quiser, não existe algo certo ou errado aqui, ainda que algumas informações de uma possam ser reveladas nas demais. Eu terminei o jogo com umas 44 horas.
Não pretendo revelar muito sobre os ministros e suas determinadas rotas, então aqui vai uma breve explicação delas:
Aqui temos uma investigação que se passa numa mansão ilhada que envolve a herança em um testamento que está prestes a ser lido. Quando um assassinato acontece, cabe a Rei na companhia do ministro da Justiça, a investigar. Precisamos então coletar pistas, ouvir depoimentos e, por fim, passar por um julgamento.
Existe uma barra de confiança, que vai se esgotando à medida que você pergunta ou deduz algo incorretamente. Alguns dos assassinatos beiram ao ridículo, no bom sentido, e o Inugami, na voz do Daisuke Ono, é apenas incrível.
Tinham se passado 30 minutos dessa rota e eu estava certo de que era uma rota escrita pelo Kodaka, não por ser um Escape Game, mas sim pelos personagens serem um pouco estereotipados, uma marca bem autoral dele. No final, não é dele essa rota, mas enfim.
Aqui, Rei e Ushitora, o ministro da Saúde, estão presos em um escape game que está sendo streamado para os habitantes de Shuten Order. O gameplay assume a perspectiva de dungeon crawler e você tem que ir explorando os locais e solucionar simples puzzles.
Talvez a rota mais longa do jogo, aqui nós temos uma clássica aventura em visual novel, aonde vamos mudando de pontos de vista e suas escolhas influenciam o andar da história, com direito a alguns bad endings e um flowchart.
Rei e o ministro da Ciência Teko Ion se veem presos no meio de um ataque terrorista a um instituto e precisam impedir que eles cheguem à última área.
Possivelmente a rota com o começo mais lento e mais importante para o grande esquema do jogo.
Aqui nós temos um dating sim onde Rei é confundida com um garoto e precisa lidar com a ministra da educação, Honoka, que se apaixonou por ela. Rei precisa ir a uma escola e descobrir qual das irmãs é, na verdade, a ministra disfarçada. Aqui temos que subir uma barra de intimidade com as garotas, enquanto passamos por vários turnos, a fim de conseguirmos se confessar para elas.
A rota mais curta do jogo por conta de ser praticamente gameplay. Junto da ministra Fushicho, nós temos que ir atrás de um assassino em série, onde a jogabilidade se torna top down e nós temos que escapar do assassino. Podemos explorar alguns cenários, onde podemos nos esconder e correr.
Normalmente eu costumo deixar essa parte mais para o final, mas eu fiquei bem impactado com o estilo artístico desse jogo. Do design de personagens de simadoriru a toda estética de Shuten Order como um todo. São cores vibrantes e vivas, e a cidade possuí todo um místico em volta dela, que é complementado pela música de Masafumi Takada, especialmente em temas mais atmosféricos.
A escolha de simadoriru caiu como uma luva, pois sempre que Kodaka está envolvido em algo, a arte de Rui Komatsuzaki vem à cabeça, então termos outro artista aqui com um estilo bem diferenciado foi um grande acerto. Não que eu não goste da arte do Komatsuzaki, mas, assim como a escrita do Kodaka, eu já passei mais de 100 horas com ela em Hundred Line, então ter algo mais distinto já ajuda.
O jogo é encabeçado por Kazutaka Kodaka, Takumi Nakazawa e Takekuni Kitayama. Aqui temos Kodaka assumindo um papel mais moderado que o de costume, ainda que seja responsável pelo conceito e ideia inicial do jogo e escreva uma das rotas do jogo e o prólogo. Meu conhecimento do Nakazawa se resume ao trabalho dele nos três primeiros jogos da série Infinity – Never7, Ever17 e Remember11-, já Kitayama, eu ainda não havia lido nada escrito por ele, ainda não joguei Danganronpa V3 nem Rain Code, onde o mesmo auxilia o Kodaka.
Ainda temos outros escritores cuidando de alguma das rotas, mas no geral esses três são os principais nomes e gerenciadores do projeto.
O envolvimento do Kodaka meio que me assustou de início. Por mais que eu tenha adorado Hundred Line, ele tem uma maneira de escrever personagens que é um gosto adquirido ao longo da jogatina, eu não sabia se estaria preparado para encarar mais uma aventura tão cedo. Então, ver que a contribuição dele não é tão grande acabou sendo um alívio.
Por mais que seja um trope bastante utilizado em jogos do tipo, a protagonista com amnésia funciona bem aqui. Nós temos várias facções: os Anjos a serviço de Deus, a Shuten Order e os Heréticos, e no meio disso tudo, Rei Shimobe, que acabou de acordar sem memórias, é a Fundadora dessa nação. Mesmo sem ter memórias, Rei não age como uma casca vazia e tem uma personalidade, ela está sempre duvidando das doutrinas de todos os lados.
O jeito que o jogo trata religião e fanatismo sem precisar cair em buracos mais estereotipados é ótimo, alguns dos principais twists, por mais que pareçam previsíveis, são entregues de uma forma bem competente e o jogo foi a caminhos que não estava esperando durante as suas rotas.
A localização desse jogo é um tanto confusa em alguns momentos, especialmente em relação ao gênero da Rei. Vamos lá, o gênero da Fundadora ser ambíguo é importante, então em diversos momentos nós temos uma troca de pronomes, uns propositais, outros são um erro. Existem alguns personagens que sabem que a Rei é mulher, mas acabam usando “ele”, porém, por mais que eu não seja fluente em japonês, eu sei o que “kanojo” significa (menina). Tem um momento muito claro que é um erro, já que vem de um certo personagem que sabe exatamente quem a Fundadora é.
Outra coisa que acontece em várias ocasiões é um flashback de uma certa cena conter palavras e estrutura da frase completamente diferentes de quando elas apareceram anteriormente. Provavelmente isso ocorreu por termos mais de uma pessoa traduzindo, mas sem que o editor tivesse percebido.
De resto, a localização é boa. A opção de manter o japonês em algumas partes é completamente estética e concordo com essa decisão, ainda que consiga ver algumas pessoas reclamando quanto a isso.
Por fim, o jogo é completamente dublado, com exceção de partes bem específicas, com japonês sendo a única opção de voz (corretamente). Eu não estava esperando isso, então fiquei bem surpreso e feliz, ainda mais que a Rei é dublada pela Mitsuki Saiga. O elenco é lotado de vozes bem conhecidas dos animes.
É meio louco pensar que a Too Kyo Games entregou dois dos melhores jogos do ano em curto período. Shuten Order homenageia vários gêneros dos jogos de aventura, mas não se agarra somente nisso para contar uma ótima história sobre religião e fanatismo lotada de estilo e personalidade. É sem dúvida um dos jogos que mais gostei de jogar esse ano.
Shuten Order
EXNOA LLC, Spike Chunsoft
Too Kyo Games, Neilo
PC, Nintendo Switch