Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Stray Children é um jogo cujo a existência já me causa um certo fascínio. O jogo é mais ou menos uma sequência espiritual de Moon: Remix RPG Adventure. Moon é um jogo “Anti-RPG” de puzzle com um nível pesado de filosofia e e religiosidade em seu texto meta narrativo que crítica o status quo do que era um RPG na época, e também uma das maiores inspirações de Toby Fox fazer Undertale. Dito isso, Yoshiro Kimura, um dos designers de Moon, se inspirou com Undertale para fazer Stray Children.
Eu nunca tinha de fato jogado Moon, mas considerando a relação dele com Stray Children, decidi jogá-lo antes de partir para o novo jogo da Onion Games. Stray Children funciona bem como algo contido dentro de si, mas ao jogar com Moon fresco na mente acrescentou camadas a mais na minha relação com o jogo.
Você joga com uma criança em busca do pai desaparecido. Logo cedo, você encontra um cartucho de um jogo no qual seu pai trabalhou mas nunca chegou a ser lançado: Crescent Moon, e ao ligar o jogo, você é sugado para dentro dele.
O começo todo do jogo é uma grande referência a Moon ao mesmo tempo que ele brinca com suas expectativas, de uma forma que fala quase na sua cara “isso não é Moon 2, você não vai ter a mesma experiência com esse jogo”; De fato, em alguns momentos eu sinto que esse jogo chega a ser um “Anti-Moon“.
Após toda uma introdução caótica e inesperada, você se vê num mundo em que basicamente adultos são monstros, e esse é um dos temas principais do jogo.
Tal qual Undertale, você tem encontros aleatórios com monstros e pode escolher lutar ou interagir com eles de outras maneiras. A questão é que logo o jogo vai te mostrando que esses monstros adultos são espíritos e as interações para não matá-los significa abrir o coração deles para estes espíritos ascenderem.
Ser pacifista nesse jogo é brutalmente difícil, obtuso e injusto. Você, nas interações, tem que escolher as respostas certas e na ordem certa, e raramente você entende o que fazer de cara no primeiro encontro com o monstro. O jogo quer que você explore, encontre carcaças dos monstros que contêm algumas informações, veja mensagens, fale com NPCs e pegue esse contexto para fazer uma extrapolação do que o adulto quer ouvir. Por exemplo, há um adulto que você tem a informação de que ele era sindicalista, e para apaziguá-lo você precisa falar coisas como “segurança no trabalho” ou “férias remuneradas”.
Tem desde adultos cujo o puzzle envolvido é simples até alguns super absurdos. Tem puzzles em que a dica envolve itens ou informações no começo do jogo e que só serão usadas perto do fim. Terminei esse jogo com um pouco mais de 30 horas, mas se não tivesse me importando em salvar as almas adultas, com certeza teria terminado em 15 horas.
E isso é só um dos aspectos frustrantes da aventura, há itens e segredos por todo o jogo e ele é uma experiência linear em que você nunca retorna aos locais anteriores. O jogo grita na sua cara de várias maneiras que ele não quer que você complete 100% na primeira jogada, e se tentar fazer isso sem guia, vai ser incrivelmente frustrante.
Um dos temas mais claros do jogo é a vida adulta, mais especificamente as dores e frustrações de ser um adulto na sociedade. Tentar salvar os adultos e não só matá-los como monstros exige extrapolações, mas principalmente prestar atenção e interpretar alguém com poucas informações, e nisso me peguei investido em algumas histórias envolvendo abusos no trabalho, alcoolismo, decepções amorosas e várias coisas com as quais a maioria dos adultos pode se identificar. É um jogo sobre empatia e amor, mas muitas vezes ter empatia e amor é complicado, frustrante e às vezes nem tão recompensador. Mas eu fui mesmo assim nesse jogo e não me arrependo.
Inclusive, para você fazer o final verdadeiro, não é necessário salvar todo mundo, então isso é uma decisão muito mais sua como jogador do que uma obrigação para ver o conteúdo completo.
Não consegui salvar todos os adultos e nem pegar todos os itens no final das contas, mas, mesmo assim, prestando atenção no que o jogo me dizia e pegando dicas de alguns itens coletáveis, consegui o final verdadeiro, então acabei feliz com o que consegui fazer pelo caminho no fim das contas.
Achei a localização do inglês desse jogo um pouco problemática. Não sou fluente em japonês, mas perguntei para alguns amigos que são certas coisas pontuais e comparei com eles prints do texto original para o inglês. Tem um tanto de coisa que foi alterada ou retirada. Por exemplo, há uma adulta que, no original, a descrição implica que ela é viciada em pachinko, e na localização dá a entender que ela é só muquirana. Porém, mesmo problemática, ainda saio impactado pelo jogo.
Falei o máximo que senti que valia a pena ser falado sem comprometer a experiência. Stray Children é um daqueles jogos em que uma das graças envolve jogá-lo sabendo muito pouco sobre.
É um jogo que quem jogar sem se importar em completar o máximo possível vai sair menos frustrado que eu e terá uma experiência mais fluida também. Mas não acho que ela vai ter uma experiência tão impactante, seja pro bem ou pro mal.
Stray Children é frustrante, obtuso e às vezes até injusto e cruel demais, mas a vida também é, e mesmo assim ela ainda vale a pena.
Stray Children
Onion Games
PC, Nintendo Switch