Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge
Ambientado em um dos períodos mais tenebrosos do Brasil, Subversive Memories mistura ficção com realidade, contando uma história sobre memórias e traumas durante a ditadura militar. Um assunto sensível e que precisa sempre ser relembrado.
Não são poucas as obras que abordam esse tema, sobretudo no cinema nacional, que vem produzindo diversas obras de grande sucesso. Quando conheci o projeto, fiquei muito interessado em ver esse período retratado em um jogo, algo inédito para mim.
Tive a oportunidade de jogar antecipadamente e conto agora minha experiência com o jogo.
Em Subversive Memories, jogamos como Renata, uma cidadã comum brasileira que foi criada por seus avós durante o período da ditadura militar. Após o falecimento da sua avó, ela acaba descobrindo pistas sobre o seu passado e resolve investigar.
Sua busca por respostas à leva para uma base militar, onde horrores reais e sobrenaturais a aguardam.
Como um jogo de survival horror, Subversive Memories segue alguns pilares fundamentais do gênero: exploração, gerenciamento de recursos, evitar ou derrotar inimigos e resolver enigmas, sem fugir muito da fórmula padrão desse tipo de jogo.
Ao contrário de armas, você irá utilizar uma lanterna, que serve tanto para ajudar na exploração quanto para derrotar os inimigos, que são espécies de sombras afetadas apenas pelo flash da lanterna, que por sua vez consome uma quantidade maior de pilhas e por isso precisa ter seu uso gerenciado.
Explorando a base militar, iremos encontrar itens e documentos que nos ajudam a avançar. É preciso encontrar chaves para abrir portas, ferramentas para remover obstáculos e documentos com dicas para resolver os enigmas.
Além disso, em determinados momentos precisaremos enfrentar as sombras que perseguem Renata. Para isso, usamos o flash da lanterna, que é capaz de ferir as criaturas. Também é possível fugir deles, caso prefira evitar confrontos para economizar recursos.
Nesse ponto, senti que o jogo peca na falta de dificuldade. Não que eu ache que um jogo precise ser muito desafiador, mas por se tratar de um survival horror, eu senti falta de me sentir realmente ameaçado e precisar gerenciar meus recursos.
Em nenhum momento precisei me policiar muito com relação a itens de cura ou as pilhas da lanterna, por exemplo.
Os enigmas em geral também não são muito desafiadores, mas bem elaborados. Uma coisa que eu senti é que alguns deles podem ser especialmente mais desafiadores para quem desconhece o contexto histórico brasileiro ou algumas informações que são de conhecimento geral para nós.
O jogo conta com documentos que auxiliam nesse caso, dando dicas e informações que ajudam nesses casos, mas eles só podem ser acessados na sala de save point, o que acaba se tornando um inconveniente. Ainda assim, um dos enigmas do jogo, na minha opinião, exige um conhecimento sobre uma personalidade brasileira que talvez algumas pessoas não saibam.
Fora esses detalhes, o jogo funciona bem. Eu gostei da ambientação dele e, apesar de ele não ter grandes momentos de susto, consegue passar bem o clima de horror, principalmente conhecendo o contexto histórico e o que se passou nesse local.
Subversive Memories segue na linha do gênero, onde eu pelo menos exploro bastante os locais, verifico quais pontos preciso de algum item para avançar e posteriormente vou organizando meu trajeto. Nesse sentido me senti bastante confortável com o jogo. Contamos com um mapa simples, mas fácil de entender e que dificilmente você vai se perder.
Existe também um incentivo para revisitar alguns locais, não só para realizar o objetivo principal, mas também para objetivos extras. Esses objetivos extras podem alterar os rumos do final do jogo, o que é bem legal. Como o jogo é relativamente curto, e deixo claro que isso não é uma crítica, esses segredos expandem a experiência e acrescentam um fator de rejogabilidade.
Em Subversive Memories, a temática principal são as memórias. Ao mesmo tempo que buscamos resgatar as memórias de Renata, também navegamos pelas memórias do nosso próprio país.
Eu gosto da forma que o jogo consegue reproduzir os ambientes da época, não só da base militar que é um casarão adaptado, mas também os trechos que se passam em um lar doméstico.
Para construir essa ambientação, o jogo utiliza uma estética 3D low poly inspirada em jogos dos anos 90, principalmente. Eu gosto bastante dessa estética porque acho que combina bastante com jogos de horror e também com ambientes mais realistas.
Para quem cresceu nesse tipo de casa, é impossível não reconhecer a maioria, senão todos, os elementos reproduzidos. O carro, o piso da varanda muito característico das casas antigas, a sala cuidadosamente organizada em torno da TV da família, e por aí vai.
Esses elementos estavam presentes na demo do jogo que experimentei há um tempo atrás e me chamaram muita atenção. Eu gosto bastante de ver o cotidiano sendo retratado em jogos, porque isso acaba refletindo bastante da identidade cultural de onde o jogo é produzido.
E isso é particularmente mais interessante ainda pra mim por se tratar do Brasil. Reconhecer as nossas referências, visitar memórias e ver nossa realidade sendo retratada na tela é uma experiência que gosto bastante.
Ao mesmo tempo, somos apresentados à uma realidade que em muitos casos estava oculta por trás desse véu de normalidade. Na base militar, a ambientação é opressora. Quem conhece a nossa história sabe o que acontecia ali sem o jogo precisar dizer, mas mesmo assim ainda causa incômodo ao ver.
E ao avançarmos pela base militar, vamos reconstruindo o passado de Renata e descobrindo mais detalhes das operações militares que ocorriam no local. Para contar essa história, o jogo mistura realidade, ficção e religiosidade e realismo mágico.
Nesse aspecto, acho que o jogo acerta bastante. Eu tenho a opinião que o Brasil conta com um material riquíssimo para criar jogos bastante interessantes, buscando referências em nossas crenças, folclore, lendas urbanas, costumes, etc.
Subversive Memories busca inspiração no espiritismo, traz elementos fantásticos e de ficção científica, pega mais algumas referências em mitos indígenas e ao mesmo tempo conta uma história muito real sobre um período político brasileiro, que funciona muito bem no final das contas.
Além de tudo, o jogo é um manifesto político, mas acho que isso já ficou bastante claro desde o início. Um manifesto sempre necessário, já que o Brasil ainda tem um sério problema em lidar com nossas memórias.
O jogo, ao mesmo tempo que conta uma história fantasiosa e sobrenatural, conta histórias reais do Brasil, além de ir contextualizando por meio de documentos e imagens o momento político que vivemos na época.
E para isso o jogo utiliza materiais reais, como fotografias da época e outros documentos, deixando tudo ainda mais crível. Além disso, Subversive Memories não se esquiva de falar e mostrar casos de torturas, assassinatos e outros crimes cometidos pelo governo militar brasileiro, o que é extremamente importante na minha opinião.
Algo que senti falta e que poderia ter sido incluído no jogo é um glossário com algumas explicações breves de elementos que não sejam muito familiares para alguns jogadores, principalmente se pensarmos que pessoas de outros países irão jogar ele.
Subversive Memories é um jogo que trata de um assunto que é sempre relevante e necessário ser discutido. O período da ditadura militar foi um dos mais sombrios de nossa história e não é a toa que costuma ser vítima de revisionismo por parte da extrema-direita brasileira.
Por mais que o jogo não tenha me agradado tanto em seu gameplay no geral, eu gosto como ele mescla elementos reais e ficcionais para contar uma história de terror. O tipo de história em que os elementos reais acabam sendo mais assustadores que os sobrenaturais, até por conta da veracidade dos eventos mostrados.
Por mais que alguns argumentem que esse tipo de história se tornou bastante repetitiva, relembrar os horrores da ditadura militar é fundamental. Um povo sem memória está condenado a repetir os mesmos erros.
Subversive Memories
Southward Studio
PC