Crítica: The Adventures of Elliot: The Millennium Tales

Por Arthur Tayt-Sohn

Nota: 9

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Desenvolvido pelo Team Asano, a equipe interna da Square-Enix responsável por Octopath Traveler e Bravely Default, The Adventures of Elliot: The Millenium Tales se afasta dos combates por turno dos RPG’s desenvolvidos pelo estúdio.

Em um título totalmente inédito, o Team Asano agora explora os combates em tempo real dos RPG’s de ação, mas ainda mantendo sua direção artística em HD-2D, que já se tornou marca registrada do estúdio.

Tive a oportunidade de me aventurar por esse novo mundo criado pela Square-Enix e conto agora como foi essa experiência.

Um conflito que atravessa eras

The Adventures of Elliot se passa no continente de Philabieldia, onde durante muitos anos os humanos sofrem com os constantes ataques de diversas tribos de monstros. Na era atual, o último refúgio dos humanos é o reino de Huther.

O reino sobrevive graças à uma magia protetora de Heuria, a princesa do reino. Esse encantamento, que requer manutenção constante da herdeira do trono, consegue manter os monstros afastados.

Além dessa preocupação, o rei Hichard busca compreender misteriosas ruínas espalhadas pelo continente, que parecem pertencem à civilizações muito antigas. Com a descoberta de uma nova ruína, Elliot é enviado em uma missão para descobrir mais informações a respeito dela.

The Adventures of Elliot - Rei Hichard

Após alguns eventos, um poder maligno é despertado e ameaça a segurança do reino de Huther. Além disso, Elliot descobre uma misteriosa porta que leva diretamente ao passado. Assim se inicia de fato a aventura de Elliot, que deve viajar por diferentes eras do passado para impedir essa nova ameaça ao continente.

Uma clássica aventura

The Adventures of Elliot é um jogo que não tenta reinventar a roda dos jogos de RPG de ação ou de aventura. Suas mecânicas são basicamente as que vemos em tantos outros jogos do gênero, sendo bastante amigáveis e fáceis de aprender.

É possível realizar ataques básicos, um ataque carregado, saltar e defender com um escudo. Eventualmente liberamos novas armas, como lanças, arcos, martelos e outros, que permitem mudar um pouco a forma de se jogar.

Elliot também consegue utilizar algumas magias com o auxílio de Faie, uma fada que irá nos acompanhar por todo o jogo. Suas habilidades podem ser usadas tanto em combate como para resolver quebra-cabeças.

Também é possível equipar acessórios, que dão alguns bônus para Elliot ou efeitos especiais, e magicites, cristais especiais que podem ser equipados para dar bônus especiais para as armas, como aumento de dano, novas habilidades, etc.

The Adventures of Elliot - Combate

O combate é bastante intuitivo e sem muitas mecânicas complexas, sendo bastante amigável para novatos. Isso já tinha sido adiantado pelo chefe do estúdio, Tomoya Asano. A ideia dos desenvolvedores é o jogo ser simples de se jogar. Apesar disso, é possível ajustar a dificuldade para os modos hard ou very hard, caso você sinta que o jogo está fácil demais na dificuldade padrão.

Ele é bastante divertido e oferece uma série de armas que podem ser utilizadas de acordo com a preferência do jogador. Pessoalmente eu achei que o jogo poderia oferecer mais oportunidades para que outras armas fossem utilizadas. Durante praticamente todo o jogo utilizei apenas a espada e o arco e flecha, não sentindo necessidade de alternar entre outros equipamentos.

Alguns equipamentos acabam sendo mais utilizados apenas na exploração, como as bombas que podem ser usadas para explodir paredes frágeis e o martelo que permite liberar alguns caminhos bloqueados.

Eu imagino que a ideia seja dar liberdade para o jogador escolher a arma que preferir e não ser limitado por fazer uma “má escolha”, mas um incentivo para experimentar outras combinações de armas seria bem-vindo na minha opinião.

Também senti falta de uma variedade maior de inimigos. Apesar de viajar por diferentes eras, os inimigos são basicamente os mesmos em todas elas, com algumas pequenas variações. A exceção disso são os chefes, que são únicos e possuem mecânicas próprias, o que é bastante positivo.

Os combates com os chefes são divertidos e, apesar de não serem tão desafiadores, exigem atenção do jogador. Entender padrões de ataque, saber desviar ou bloquear golpes muito poderosos, ficar atento aos pontos fracos do inimigo, etc. Nesse ponto acho que o jogo acertou muito bem.

The Adventures of Elliot - Combate com chefe

Mesmo com esses pequenos problemas de falta de variedade de inimigos comuns e de não dar tanta oportunidade em variar as armas, o saldo geral do combate é bastante positivo. Ele é simples, acessível e funciona sem problemas. Além disso, o combate é bem polido. Não houve nenhum momento em que algo não funcionou como deveria.

A exploração no jogo também segue as convenções do gênero de aventura. São diversas localidades que devem ser exploradas, sempre com inimigos para serem derrotados e alguns puzzles para serem resolvidos.

Assim como em outros jogos do tipo, você precisará liberar gradativamente o acesso a novas áreas, seja por meio de itens e habilidades que você irá encontrar ou realizando as missões do jogo.

Senti que na maior parte da exploração o jogo pega muito o jogador pela mão, com bastante indicações de onde ir. Acho que nesse ponto ele poderia deixar o jogador “se virar” um pouco mais. Afinal, o protagonista é um aventureiro e nós poderíamos nos aventurar mais.

Nos segmentos finais, o jogo solta um pouco a mão do jogador e exige que você explore e investigue um pouco. Nada que seja muito desafiador, se você prestar atenção nos acontecimentos do jogo vai saber o que fazer com tranquilidade.

The Adventures of Elliot - Mapa

Senti falta de alguns puzzles mais complexos nas dungeons, mas isso é um problema meu porque eu sou meio noiado dos puzzles em jogos. Não é uma crítica ao jogo, só uma observação caso você seja como eu que gosta desse tipo de desafio nos jogos.

No geral, The Adventures of Elliot é muito divertido, mesmo sendo simples. Fácil de se aprender a jogar e bastante acessível para a maioria das pessoas. E como isso me parece ter sido exatamente a proposta dele, não chegou a me incomodar.

O jogo também conta com uma série de atividades extras, além de sidequests, para quem quiser aproveitar mais. As atividades vão desde templos onde é possível concluir desafios para melhorar o personagem, outro templo com desafios de combate contra hordas de inimigos e chefes e uma atividade de encontrar… gatos. Pois é, gateiros terão bastante coisa pra fazer no jogo.

Uma história milenar

As aventuras de Elliot começam como uma simples missão de exploração para buscar informações de uma ruína recém descoberta. Mas é claro que isso acabaria envolvendo o protagonista em uma trama muito maior.

Não é novidade que a temática principal do jogo é a viagem no tempo. E claro que é impossível não pensar em Chrono Trigger nessa hora e muito menos não se sentir atiçado pela Square-Enix com a remota possibilidade de um remake. Eu sei que você pensou isso, mas já adianto que não farei comparações.

Durante o jogo, precisaremos visitar diferentes eras da história, onde cada uma delas possui um nome que representa a atual condição dos humanos. Do presente até o passado, são as eras: Safekeeping (proteção), Reconstruction (reconstrução), Magic (magia, o auge da civilização) e Budding (florescimento, o “início” da civilização)

Iremos visitar cada era para encontrar formas de impedir uma nova ameaça ao mundo no tempo presente, juntando informações e artefatos que possam ajudar nessa missão. Eventualmente vamos descobrindo mais detalhes sobre o que aconteceu com o continente durante as eras e conhecer melhor o inimigo e o que causou essa ameaça.

The Adventures of Elliot - Rei Hichard 2

Em resumo, The Adventures of Elliot é uma clássica história de jornada do herói. Elliot é um aventureiro, um “herói” nos termos clássicos, um personagem sem muitas nuances. Ele é simplesmente bom. Aliás, a maior parte dos personagens segue a mesma fórmula: os bons são bons e os maus são maus.

Isso parece também ter sido feito de forma consciente. Se você também acredita em semiótica como eu, o fato de Elliot usar tantos tons de vermelho, uma cor que é tradicionalmente usada no teatro japonês para os heróis, deixa bem explícito o tipo de história que o jogo quer contar. Além de deixar o protagonista muito parecido com a classe Red Mage presente em alguns Final Fantasy, uma das classes mais legais da série.

A história do jogo me pareceu seguir totalmente a cartilha da jornada do herói, passo a passo, o que deixa o jogo “previsível” nesse aspecto. O Team Asano parece que tentou jogar bastante seguro nesse ponto e não se arriscar com nada muito complexo.

Apesar disso, nos segmentos finais do jogo, ele traz alguns elementos que podem surpreender o jogador. A história possui múltiplos finais e dependendo do final que você fizer, há uma certa quebra na expectativa do jogador sobre o desfecho da história. Felizmente é bastante tranquilo retomar o jogo de onde parou e realizar outros finais.

A história é simples mas bem escrita no que se propõe a fazer. Não acho que isso seja objetivamente um problema. Honestamente, eu costumo ser mais crítico com jogos que tentam ser narrativamente complexos e falham por má execução. Quando é algo feito de forma consciente, não chega a me incomodar. No máximo não me agrada e está tudo bem.

The Adventures of Elliot - Mural dos mitos

No caso de The Adventures of Elliot, realmente não me incomodou. E para não parecer também que o jogo é apenas simplista, o estúdio se preocupou em criar um mundo para aqueles personagens.

É possível encontrar diversos documentos, a maioria deles opcional, que contam pequenas histórias e explicam sobre acontecimentos presentes e passados, personagens e acontecimentos importantes, etc.

Algumas sidequests também desempenham esse papel, além de ajudar a criar um sentimento de comunidade quando ajudamos outras pessoas. E é interessante também que algumas delas, principalmente as que são realizadas em eras passadas, impactam acontecimentos futuros.

Pensou em Chrono Trigger de novo, né? Ok, eu sei que é inevitável. Alguns diálogos, eventos e até mesmo personalidade de personagens podem ser alterados com essas sidequests. É claro que no geral não são mudanças gigantescas, mas que fazem diferença no mundo e ajudam a dar uma sensação de que o mundo é dinâmico.

E sem dar spoilers, naturalmente que eventos extremamente importantes terão impactos bastante significativos. Mas é legal ver também que houve preocupação em mudanças bem menores. Eu gosto de jogos que se preocupam com pequenos detalhes que talvez a maioria das pessoas nem vai ver.

The Adventures of Elliot - Marnie

Uma sidequest especificamente libera uma música nova na trilha sonora, que toca em apenas um local do jogo e que talvez muitos jogadores nem vão ouvir. Mas alguém se preocupou em escrever a missão e não só isso, compor uma música para ela. E detalhe: essa música pode ter variações. Sei lá, são detalhes legais que eu gosto.

Dito isto, se você está procurando algum tipo de história que irá criar um grande impacto, debates, artigos ou vídeo-ensaios filosóficos, isso não existe no jogo. É claro que ele toca em temas pertinentes, como responsabilidade no uso de tecnologia, ética na ciência, preconceito, etc. Mas nada que já não tenha sido mostrado outras vezes e até com mais profundidade e nuances.

É ruim? Não. É tudo uma questão de saber dosar suas expectativas.

Ah, vale destacar que infelizmente a Square-Enix deixou os fãs brasileiros na mão e não localizou o jogo para o nosso idioma. Então pessoas que não entendem inglês não vão poder aproveitar muito da história do jogo.

Um jogo com a cara do Team Asano

Se você conhece o Team Asano, é inevitável não reconhecer logo de cara que esse é um jogo do estúdio. E mais inevitável ainda ele não chamar sua atenção pela apresentação visual.

The Adventures of Elliot segue a fórmula já bem estabelecida pelo estúdio, que hoje é provavelmente uma das maiores referências em jogos pixel art combinados com elementos 3D. O famoso “HD-2D”.

Nesse ponto o jogo segue sem muitas novidades, mas acertando. É bastante bonito e utiliza técnicas do gênero para dar aquele ar de nostalgia ao jogo, ao mesmo tempo que é moderno.

As pixel arts são muito bem feitas, com animações fluídas, ricas em cores e puxam aquele lado nostálgico da era 16 bits. Em contraste, o jogo conta com texturas em 3D e elementos visuais mais complexos, como profundidade de campo e iluminação.

The Adventures of Elliot - Penhasco

Todos esses elementos fazem com que o jogo pareça estar dentro de um diorama, ou um pequeno mundo em miniatura, o que eu particularmente gosto bastante. Em geral, eu não encontrei ainda um jogo com essa direção artística que eu não tenha gostado pelo menos da parte visual. Acho que esse é um dos grandes acertos da Square-Enix nos últimos anos.

Funciona extremamente bem para a proposta do jogo, que é ter essa pegada clássica, que certamente vai pegar em cheio jogadores mais veteranos que jogaram jogos semelhantes na era do SNES, e também é muito agradável para novos jogadores.

Eu acho que não teria gostado tanto se tivessem optado por outra direção artística, então acho que esse é o maior acerto do jogo.

O trabalho de som também é muito bom, tendo um número bem grande de personagens com dublagem, o que é interessante para um jogo desse escopo e sendo um título original, o que pra mim demonstra que o estúdio de fato acreditou no projeto.

Meu único incômodo foi com os diálogos da fada Faie. Ela fala bastante durante o jogo e mesmo configurando no menu para que ela seja mais reticente, a frequência dos diálogos não mudou muito. Mas nada que não possa ser ajustado com um patch futuro.

The Adventures of Elliot - Huther

Também gostei da trilha sonora. Eu não estava familiarizado com os compositores e pelo que pude pesquisar deles, Yuto Moritani e Tomohiro Nakamachi, eles compõem mais para animes. Eu particularmente gosto da ideia de a Square-Enix chamar novos compositores para os jogos, como uma forma de renovar a equipe. 

Pelo que pesquisei também, são compositores com uma carreira acadêmica na música sólida, o que acho bastante positivo para a criação de composições originais. Não que eu seja 100% contra o uso de músicas de artistas de outros meios, mas está no DNA da Square-Enix composições criadas in house e fico feliz que mantenham isso.

Um jogo seguro mas sólido

The Adventures of Elliot: The Millenium Tales é um jogo que traz em sua proposta ser simples e acessível, e ao mesmo tempo divertido. O jogo não se arrisca tentando reinventar a roda e é uma experiência sólida.

Como a primeira experiência do estúdio utilizando a direção artística HD-2D em um jogo de RPG de ação, o jogo é um grande acerto do Team Asano. Saindo totalmente do que estão habituados a fazer, a equipe mostra seu potencial criativo e sua vontade de experimentar cada vez mais, o que é muito positivo para a Square-Enix.

Além disso, o jogo é uma boa porta de entrada para novos fãs, que recebem as boas-vindas com os belíssimos gráficos que são marca registrada do estúdio. E para fãs de longa data, o jogo mostra a versatilidade da equipe que vem vivendo uma sequência de bons lançamentos.

Nome do jogo:

The Adventures of Elliot: The Millennium Tales

Publisher:

Square Enix

Desenvolvedora:

Square Enix, Claytechworks

Plataformas Disponíveis:

PC

Siga o Game Lodge nas redes!

Confira mais dos nossos conteúdos nas nossas redes sociais!