Crítica: The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time

Por Matheus Megazao

Nota: 8

Esta crítica foi escrita usando uma key enviada para o Game Lodge

Em 2022, por algumas coincidências do destino, fui cobrir meu primeiro evento pelo Game Lodge na Brasil Game Show daquele ano. Foi uma época particularmente delicada onde a pandemia estava finalmente começando a ser controlada, e aqueles que respeitaram o isolamento social tentavam lentamente voltar à normalidade. Naquele ano eu dei um foco especial à área indie do evento e saí de lá com uma paixão revigorada por video games, certo de que gostaria de continuar escrevendo sobre eles e, especialmente, de desenvolvê-los. Em janeiro do ano seguinte eu prestei um vestibular para um curso de design de jogos e, desde então, estive fazendo as duas coisas que escolhi em 2022.

Nesse meio tempo, graças ao meu entendimento maior do âmbito de desenvolvimento e às oportunidades que tive de conversar com inúmeras pessoas desse meio graças ao site, ganhei um panorama bem grande das experiências de vários desenvolvedores em seus mais altos e baixos. The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time é um jogo bem metalinguístico que reflete assustadoramente bem muitas dessas experiências, entregando uma mensagem tão sincera sobre a nossa relação com obras e o processo de criação que nem suas fraquezas mais técnicas são capazes de diminuir.

Baseado em uma história (ir)real

The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time é um daqueles casos em que seu nome também serve como sua sinopse. Aqui você joga uma espécie de versão comentada pelo diretor do remake do final do melhor RPG de todos os tempos, desbloqueando no processo trechos de áudio comentado, clipes de vídeo de um documentário sobre o desenvolvimento do jogo, e – crucialmente – páginas de um manual virtual. Em pouco tempo de jogo fica claro que esses “extras” vão servir um propósito maior e, quando se dá conta, você já está acessando áreas secretas, resolvendo charadas e coletando pistas para navegar até outras realidades.

É difícil falar sobre a narrativa desse jogo, uma das minhas partes favoritas de discorrer em análises normalmente, quando a sua descoberta é meio que seu objetivo primário. O que eu posso abordar é uma característica em sua entrega que, proposital ou não, acabou agregando muito à mensagem final: o quão real tudo aquilo é. O remake do melhor RPG de todos, no universo de jogo, é feito por dois estudantes de faculdade que se apaixonaram por um jogo antigo e querem recriá-lo numa tentativa clara (e fraca) de emular os visuais de jogos HD-2D popularizados pela Square Enix. As filmagens do documentário sobre o processo de desenvolvimento constantemente têm cenas em que os desenvolvedores estão à beira de rir e atuando de forma extremamente amadora, mas esse é o ponto – é assim que pessoas reais, na posição deles, agem. Isso tudo clicou comigo porque gravei (e assisti) muitos vídeos de pitch na faculdade com uma molecada que se comporta igualzinho. Sinceramente não sei até que ponto o amadorismo realista que permeia o jogo foi intencional e onde é apenas uma reflexão da realidade dos desenvolvedores (que são os desenvolvedores reais do jogo, inclusive), mas o fato de terem conseguido borrar essa linha tão bem já é digno de respeito.

Você é seu maior inimigo

Apesar do titulo conter o termo RPG, The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time é um jogo exclusivamente sobre puzzles. Isso de manifesta de particularmente interessante no combate, onde você tem lutas sempre em pontos fixos e tanto chefes quanto inimigos comuns exigem uma única estratégia para serem derrotados – e seu trabalho é descobri-la. Pra isso você fará uso constante do manual dentro do jogo, que contém informações sobre fraquezas de inimigos, sequências para chefes, e combos diferentes pra cada personagem. Na batalha em si você pode preencher uma linha de seis espaços com ataques de qualquer um de seus personagens, o que abre um leque enorme de combos e ataques de diferentes elementos possíveis ao longo do jogo. O mais interessante é como inicialmente a resolução dessas lutas consiste apenas de achar a informação correta no manual e aplicá-la, porém conforme o jogo avança você passa a precisar considerar ataques inimigos interrompendo (ou, até, incrementando) seus combos – sempre com a pressão de estar perdendo vida a cada turno. É um misto elementos de RPG em puzzle muito único que torna um dos aspectos mais repetitivos dos RPGs o grande destaque do seu tempo explorando o mundo do jogo.

Apesar das batalhas serem o tipo de puzzle mais recorrente, existe uma variedade interessante deles, especialmente quando se trata das zonas “fora” do jogo. Mais pro fim em particular, quando o jogo solta sua mão mais do que o normal pra você achar as últimas peças que levam à sequência final, eu fiquei bastante tempo estudando as (agora múltiplas) páginas do manual procurando detalhes que pudesse ter deixado passar, e achar o caminho correto foi extremamente recompensador. Em média eu sinto que não sou muito bom em jogos desse gênero, mas The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time atingiu um balanço de dificuldade desafiadora e engajante muito efetivo na minha experiência.

Agora, por mais que eu sinta que esse sentimento de amadorismo funcione muito bem na entrega da narrativa, ele também traz desvantagens inerentes. A maior delas é que, durante meu tempo jogando, presenciei vários pequenos bugs e glitches visuais que eu tenho quase certeza que não eram intencionais, porém em um jogo como esse você sempre acaba “brigando” com o bug por um tempo antes de tentar recarregar um save ou similar. Isso acaba, por tabela, criando uma certa desconfiança em puzzles que você parece estar fazendo tudo certo mas não funciona – criando uma dúvida que trabalha contra o processo de imersão do jogador. Por sorte isso deixará de ser um problema após alguns patches, mas pra esse gênero específico de jogo eu gostaria de ter visto um pouquinho mais de polimento a princípio.

Conclusão

Por mais que eu pudesse escrever muito mais aqui sobre vários aspectos de The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time, eu acho que o jogo fará um papel melhor em dizer o que tem a dizer. Pra mim ele acabou sendo uma surpresa maior por ter conversado tão bem com algumas experiências minhas, mas de forma isolada ainda acho que é uma caixinha de mistérios com um grande coração. Admito que a princípio eu temia encontrar apenas mais uma história que tentasse subverter conceitos de JRPG pela lente estadunidense, quando na verdade encontrei uma reflexão surpreendente sobre o ciclo de criar e inspirar criadores.

Nome do jogo:

The Remake of the End of the Greatest RPG of All Time

Publisher:

Coin Drop Games

Desenvolvedora:

Coin Drop Games, Lucas Immanuel, jucobee, Kyle Chuang

Plataformas Disponíveis:

PC

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