Hollow Knight: Silksong – Conformismo vs Esperança

Por Jean Kei

Na semana em que Hollow Knight: Silksong foi lançado, ele virou holofote de bastantes discussões. O maior destaque foi o debate acerca da dificuldade do jogo, de forma até exaustiva. Hollow Knight é uma, agora, série muito associada com soulslike, e apesar de não achar que seja necessariamente o caso, há heranças claras de jogos da From Software ali, principalmente na sua forma narrativa mais “arqueológica”, com uma história um tanto obtusa que não é contada de forma direta, mas sim através de cenários, falas pouco expositivas e descrições.

Considerando tudo isso, sinto que nesse aspecto Silksong usa seus principais temas para ser “anti-soulslike”. Não apenas a narrativa de Silksong é mais direta, mas é também muito mais otimista e explicitamente crítica quanto a um cinismo inerente a narrativas tidas como soulslike. Na verdade, muito sobre o que se assume sobre o jogo acaba conversando com a temática e a crítica que senti que ele faz. Já que muito da discussão, além da dificuldade, é bem sobre esperar o pior destino para diversos personagens e para o mundo.

Para falar de maneira mais direta sobre isso, falarei de pontos da narrativa, não de forma direta e escancarada mas sem me preocupar de evitar spoilers, então leia por sua conta e risco.

O conformismo no mundo de Silksong

A terra de Fiarlongo é opressora e brutal. Os peregrinos da cidadela passam por todo tipo de perrengue para chegar numa terra prometida, amaldiçoada e abusiva. O jogo é bem claro no quão desgraçado é aquele mundo e o sistema quando você tem que pagar para descansar em vários pontos. É muito fácil condenar Fiarlongo, afinal, um lugar desses não parece ter muito mais o que oferecer, especialmente na situação em que Hornet o encontra. Geralmente, jogos com narrativas no formato “arqueológico” nos apresentam mundos perdidos, onde não temos real agência neles, mas sim apenas observadores que perpetuam um ciclo, ou dão passo para algo totalmente novo. Há personagens que reforçam o pensamento de que não há nada a ser salvo em Fiarlongo, o mundo opressor reforça isso ao jogador e muita gente já chegou no jogo conformada de que só vai encontrar melancolia e desgraça.

Uma constante que vi eram pessoas que, ao mesmo tempo que se apegavam ao Sherma, um dos personagens mais otimistas e inocentes do jogo, já passavam por um luto antecipado, acreditando que o pior ocorreria com ele. Essa lógica é muito carregada também no jogo anterior, que é melancólico e o destino da maioria ali é triste.

Antes de jogar Silksong e durante parcela dele, você é condicionado a encarar Fiarlongo como um mundo perdido a ser observado, e talvez, após o fim da observação, acabar com aquilo de uma vez e criar algo novo.

Ao mesmo tempo, Hornet, através de um sistema direto de quests ajuda os personagens a formarem um certo senso de comunidade.

A esperança que Hornet traz

E é justamente a presença da Hornet que faz esse jogo ser especial e diferente dos demais. Ao contrário do primeiro Hollow Knight e jogos com uma herança soulslike na narrativa, a protagonista tem voz e agência. Ela conversa, convence pessoas, muda destinos e ajuda a construir coisas neste mundo. Se você jogar o jogo apenas como “mais um”, sem se envolver com os habitantes daquele mundo, o jogo terminará no segundo ato de uma forma meio convencional. Hornet vai seguir um caminho pré-destinado para tomar o poder do atual algoz de Fiarlongo, se tornar algo novo e, no processo, apagar tudo aquilo que conheceu e que estava já condenado, para abrir alas para algo novo ou continuar um ciclo. Porém, realizando os desejos de todos, Hornet se recusa a aceitar que este mundo está condenado e da esperança. 

E aí chegamos ao ato 3, onde tudo piora, mas nossa protagonista fã de guaraná se recusa a abandonar tudo. Vários personagens em que o previsível seria um fim trágico para eles, Hornet traz esperança e se compromete a consertar tudo. O Sherma, que eu passei o jogo todo temendo pelo pior, mostra resiliência e se coloca numa posição de liderança para uma comunidade. O jogo chega a criticar o cinismo inerente a narrativas de soulslike na sua cara numa conversa com um personagem que faz papel de historiador, no qual Hornet dá uma bronca dizendo que não é hora de ficar só registrando a história para preservar, mas tomar alguma atitude para mudar alguma coisa no presente.

É muito significativo o desafio final não ser destruir quem está selada, mas sim salvá-la.

Enfim, uma narrativa que traz algo novo pra discussão

Não sou o cara que mergulha em lore nesses jogos, e nem vou fingir que entendi todas as minúcias de Silksong. Dito isso, acho que a forma como ele conta história é um equilíbrio legal entre a “arqueologia” e o direto. 

É muito fácil pensar que Silksong é “só mais um” quando olha superficialmente. Achar que é um jogo com história melancólica, brutal, difícil e com um cinismo inerente, mas o jogo se propõe a ser mais que isso, dando algo que raramente se encontra nesse tipo de jogo: positividade.

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