Sentimentos sobre Blue Reflection Quartet

Por Matheus Megazao

Eu tenho interesse por Blue Reflection desde o lançamento do primeiro jogo, há quase 10 anos atrás. Porém quando a série se tornou um pouco multimídia e expandiu seu canon em um anime e um jogo mobile que não existe mais, eu decidi que só jogaria se dessem um jeito de preservar e relançar esse conteúdo, afinal me incomoda não ter acesso a parte da história de algo por essas condições. Eis que, depois de menos tempo esperando do que imaginei, chega Blue Reflection Quartet que se propõe a justamente entregar o pacote completo da série em um só lugar – coletânea que ainda não terminei devido a seu volume de conteúdo, porém já pude jogar o suficiente pra me fascinar bastante com os jogos, mas nem tanto com a coletânea.

Blue Reflection Quartet compila os dois jogos “principais” da série, uma adaptação do anime e o jogo mobile. Estou jogando na ordem recomendada e, dos quatro, eu já concluí o jogo original e Ray, a adaptação do anime. Como aludi no começo, enquanto minha experiência com o universo da série tem sido incrível, a coletânea tem deixado a desejar na quantidade de adições e, particularmente, na forma com que adapta o anime.

O primeiro jogo

É curioso pensar que o primeiro Blue Reflection saiu faz 9 anos (o que soa recente para um remaster), porém dentre suas plataformas também saiu para o PS Vita no Japão. E por mais que tenha sido só um port e visualmente ele definitivamente não seja limitado como muitos RPGs pensados para o portátil e relançados no PC, o jogo tem o espírito de um jogo de Vita. Com isso vem coisas como sua progressão funciona bem para um portátil, como ele é recheado de sistemas experimentais que nem sempre se conversam mas são constantemente interessantes e, principalmente, como sua vibe e suas animações são meio baixo orçamento de um jeito que tenta fazer mais com o pouco que tem. Sendo bem curto pra um RPG (me levou apenas 17h) e apresentando uma história com escopo bem mais contido e, Blue Reflection conseguiu ser memorável pelo íntimo e pessoal ao invés do grandioso e épico.

A maior questão aqui é que você não precisa de Quartet para ter essa experiência, afinal o primeiro jogo foi lançado individualmente para PC em um port que, apesar de pouco customizável, entrega uma experiência já muito bonita. Na verdade, comparando a versão original do jogo e a presente em Quartet lado a lado em 1080p eu não notei absolutamente nenhuma melhoria visual que foi prometida – o que me leva a crer que essa promessa é em relação a possíveis resoluções maiores como 4k. Assim, sem mudanças na parte gráfica, a única coisa mais tangível que essa versão oferece são algumas melhorias de vida como poder andar um pouco mais rápido pelos corredores e acelerar em até 2x as batalhas. São ótimas adições porque sem elas essas coisas seriam mesmo um pouco irritantes, mas inegavelmente também poderiam só ter sido um update da versão original.

O (não) anime

De todos os jogos nessa coleção, Blue Reflection Ray era o que mais me intrigava pois não conseguia imaginar os desenvolvedores adaptando um anime de 24 episódios por completo para um jogo sem sacrificar a narrativa. Creio que eles também, pois não é isso que tentam fazer aqui, porém algo assustadoramente pior: um episódio de recapitulação glorificado em 3D.

Logo que terminei o primeiro jogo já emendei Ray pra saciar minha curiosidade. Nos primeiros 10 minutos do jogo, fui bombardeado com personagens e eventos que não são explicados e assumi o controle da personagem em uma aparente busca de memórias emocionais. Ao encontrar a primeira pelo mapa fui presenteado com uma narração resumindo eventos do anime por cima de telas estáticas do mesmo, e então imediatamente fechei o jogo e fui procurá-lo para assistir. Essa foi minha melhor decisão, pois jogando esse “jogo” depois de acabá-lo eu pude confirmar que ele se resume a 1 hora de pegar memórias (que agora variam entre telas do anime e narrações ao estilo de conto que você lê por um menu) pra “resumir” toda aquela narrativa e recriar a batalha final em um 3D bem decepcionante. Essa batalha final que é, inclusive, o começo desse “jogo” – ou seja, nos primeiros segundos você é exposto a spoilers do anime em uma fanfic em prol de uma recapitulação preguiçosa.

Se o anime fosse ruim ou de alguma forma inacessível eu até entendo tentar usar esse resumo pra quem não quer parar entre jogos pra assistir 24 episódios, mas ele é totalmente acessível, aparentemente importante pro canon e, acima de tudo, muito bom! E é isso que mais me decepciona, porque o jogo ativamente quer que você não assista uma parte excelente de seu universo. Dado que o anime não teve um lançamento em bluray e não está só disponível aqui para ser assistido, suspeito que isso tenha a ver com a presença de temas surpreendentemente pesados no mesmo (que o primeiro jogo nem sonha em chegar perto), e poderia causar algum problema na classificação indicativa em certos territórios – até porque as partes do “jogo” que recapitulam esses temas também não mostram as cenas e são vagas no geral. Seja qual for a razão, a versão de Blue Reflection Ray que existe em Quartet é um desserviço a um anime que expande o universo criado no primeiro jogo de forma tão interessante, e enfraquece significativamente a ideia de um pacote “definitivo”.

(In)conclusão

Do que pude vivenciar do universo de Blue Reflection Quartet até agora, é evidente que a série tem uma identidade muito interessante e vai bem além do que eu esperava apenas olhando de fora. Enquanto eu fico feliz pela existência da coletânea especialmente pela preservação do jogo mobile, nessa primeira metade ela não tem mostrado todo o carinho que eu esperava (e queria) ver por esses jogos. Por enquanto, apesar de ser uma forma conveniente de jogar esses jogos, ela ainda não se justificou como a melhor, e isso eu poderei dizer com certeza em uma crítica completa em breve.

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